Crítica. ‘Sound of Metal’ é um silêncio barulhento

O primeiro filme dramático do realizador Darius Marder estreou em dezembro, no serviço de streaming Amazon Prime Video, e, desde então, que os críticos não lhe poupam elogios. Sound of Metal tem sido uma surpresa para todos, sendo considerado um dos melhores filmes de 2020 e um dos nomeados para várias categorias nos Óscares deste ano.

Num ano em que muitos de nós sentimos dificuldades em continuar e ultrapassar os obstáculos que um 2020 diabólico nos ia metendo à frente, filmes tiveram a importante de tarefa de conseguir manter à tona a sanidade de muitas pessoas. Muitos exemplos de esperança estrearam durante o ano mas poucos o fizeram tão bem como Sound of Metal

O filme apresenta-nos Ruben Stone, um baterista de uma banda punk rock, e que é protagonizado por Riz Ahmed, que contracena primeiramente com Olivia Cooke, que encarna a personagem de Lou, a namorada de Ruben, e mais à frente com Paul Raci, que interpreta Joe, um veterano de guerra que lidera um abrigo para surdos em recuperação. 

Começando de forma extremamente barulhenta, Sound of Metal abre com uma cena de um concerto dos Blackgammon, a banda punk rock constituída por Lou e Ruben, e vamos vê-los a interagir de forma romântica depois disso. O filme vai desenvolvendo a sua relação até que a cena que espoleta todo o enredo chega: Ruben, de forma repentina, perde a audição enquanto toca e o pânico instala-se, num momento que tem tanto de arrepiante como de assustador. 

Filmes como Sound of Metal podem muito bem ser considerados filmes de terror. Relatam problemas reais que podem acontecer a qualquer um, do nada, sem ninguém estar a espera, e que são necessários para o bem estar de qualquer ser humano. Exemplos como Still Alice, The Father (outro nomeado para os Óscares) ou Amour são provas recentes disso. A condição humana é frágil, uma autêntica bola de cristal pronta a partir a qualquer momento. Contudo, Sound of Metal é um filme diferente dos mencionados acima simplesmente porque apresenta imensa esperança. 

Ruben, como provavelmente todos nós faríamos, entrou em pânico, sentindo-se num pesadelo. Afinal de contas, é baterista de uma banda, logo a sua audição é um dos seus principais instrumentos de trabalho. Até que eventualmente alguém lhe diz que nunca mais a vai ter a 100 por cento. Ora, notícias destas não cairiam bem a ninguém, muito menos a um músico. 

O estado de negação em que a personagem entra, tentado fazer as coisas à sua maneira, lutando de forma impotente contra uma doença que não tem cura e que muito dificilmente se pode curar é algo de partir o coração a qualquer um. 

A maneira como as cenas são construídas é um pesadelo em si. O filme é lento e gosta de não ter pressa para desenvolver o seu enredo porque a sua principal missão é meter o espetador na cabeça da personagem principal. O uso do som é inovador e transporta o espectador diretamente até à mente de Ruben Stone, sentindo tudo o que ele está a sentir. Os zumbidos, os silêncios longos, a normalidade temporária. Tudo isto é sentido por nós. Todos os barulhos, por mais pequenos que sejam, são tão bem feitos que dá vontade de dar todos os prémios existentes à equipa de design sonoro do filme. 

Tudo isto seria impossível sem os atores em questão. O anglo-paquistanês Riz Ahmed teve finalmente uma oportunidade para se mostrar com toda a força possível no protagonismo de um filme, dando um espetáculo triste enquanto tenta perceber as limitações da sua doença ao mesmo tempo que lida com as mudanças na sua vida, tenta controlar a sua toxicodependência e, simplesmente, tenta ao máximo sobreviver. Depois temos Paul Raci, uma das descobertas do ano no cinema, mostrando-se seguríssimo nas suas cenas e partilhando o ecrã com Riz Ahmed várias vezes, não se deixando intimidar, numa performance dada por alguém que, visivelmente, já viveu muito e sabe mais sobre a vida que boa parte de nós. Uma palavra também para Olivia Cooke, a namorada de Ruben Stone, que devia ter tido mais atenção nesta época de prémios. A forma como ela, enquanto namorada, tenta ao máximo ajudar o seu parceiro que está a cair num buraco sem fundo é devastadora. 

Sound of Metal acaba por ser um tributo merecido à comunidade das pessoas surdas. É triste, desolador e aterrorizante mas, no final, é também esperançoso. Às vezes, as pessoas só precisam de um bocado de esperança para ficarem melhores, e é isso que acontece a Ruben Stone. São duas horas de uma lente facada no coração mas, no final, recebemos um abraço apertado. Devíamos ter mais filmes como Sound of Metal por aí, tudo se tornava mais fácil se assim fosse. 

A longa-metragem está nomeada para seis Óscares: Melhor Filme, Melhor Ator para Riz Ahmed, Melhor Ator Secundário para Paul Raci, Melhor Argumento Original para Darius Marder, Abraham Marder e Derek Cianfrance, Melhor Edição para Mikkel E.G. Nielsen e Melhor Som para Nicolas Becker, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Carlos Cortés e Phillip Bladh.

9.5

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