Steven Yeun em Minari.
Steven Yeun em 'Minari' | Fotografia: Divulgação

Critica. ‘Minari’ é a memória de uma vida que poucos de nós viveram

O novo filme do realizador Lee Isaac Chung, denominado Minari – o nome de uma planta oriunda do leste asiático -, tem sido um êxito e arrebatado críticos em todo o mundo. O Espalha-Factos já viu o filme e diz-te o que achou, livre de qualquer spoiler

Minari começa esperançoso. Vemos a família Yi, de origem coreana, que se está a mudar da Califórnia para uma quinta no meio do estado do Arkansas, com a esperança que possam construir ali uma horta e ter o seu próprio sucesso. Mas isto trouxe muitos problemas, principalmente a Jacob, o patriarca da família: o dinheiro é escasso, a casa tem poucas condições e o seu filho, David, tem problemas cardíacos. 

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Imagem: Divulgação

A família Yi é culturalmente diferente, mas também nos parece tão familiar em boa parte daquilo que todos nós vivemos nas nossas próprias casas. O casamento de Jacob e Monica, interpretados por Steven Yeun e Han Ye-ri, respetivamente, já teve melhores dias, e os dois passam boa parte das suas cenas em conjunto a discutir ou, então, a trabalhar em conjunto, dividindo pequenos pintainhos pelo seu género. Enquanto trabalham, os seus filhos David e Anne, duas das maiores revelações do ano no que a jovens atores diz respeito, vão andando na escola e ouvindo às escondidas as discussões dos pais.

Eventualmente aparece a mãe de Monica, Soon-ja (interpretada por Youn Yuh-jung), que dividirá o quarto com David, uma criança que não se conforma com o facto daquela ser a sua avó, dado que nunca a conheceu e, por isso mesmo, evita-a a todo o custo. A dinâmica familiar fica estabelecida com a chegada de Soon-ja e, com isto, o filme arranca finalmente, depois de ter estabelecido quem é aquela família e o que pretendem ser durante a primeira meia-hora.

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Imagem: Divulgação

Todas as famílias têm as suas dinâmicas, normalmente bem definidas, e Minari não poderia ser mais cliché nas suas. Jacob é o pai que tenta, a todo o custo, ser um exemplo para o seu filho e providenciar conforto financeiro à sua família, querendo tornar-se “alguém na vida”; Monica é a esposa preocupada que vai vendo o seu marido a ser consumido pela sua obsessão de ter sucesso, e isso leva-os a ter discussões terríveis; David é o filho mais novo do casal, ou seja, o mais curioso, que procura sempre respostas até às perguntas mais estúpidas – o que, por vezes, lhe traz problemas; Anne é a filha mais velha, mais responsável, e um ombro amigo para o irmão mais novo sempre que ele está triste ou mal-humorado; e Soon-ja é a avó que tenta adaptar-se à modernidade e criar, de qualquer forma possível, elos de ligação com todos

 A verdade é que as personagens são clichés até ao ponto em que, eventualmente, deixam de o ser. O argumento, escrito pelo realizador Lee Isaac Chung e que foi baseado na sua própria vida pessoal (podemos dizer que, na história, ele é David), é brilhante, e a forma como dá profundidade, tridimensionalidade e uma riqueza interessante a todas as personagens faz com que seja simplesmente agradável acompanhar os mesmos nas suas aventuras. As falas são ditas com o carinho de quem está familiarizado com este tipo de vida e com a pujança de quem já viveu muito. 

Imagem: Divulgação

Claro que, por muito que o argumento seja bom, o filme poderia falhar de qualquer maneira, mas é aqui que entra o talento de Lee Isaac Chung no leme da realização. A arte do storytelling é dura de se aperfeiçoar mas Chung parece que a trata por tu, construindo frames com todo o amor e filmando com a dedicação de quem está a fazer um projeto que imaginou toda a vida. Como é costume dizer, quando um projeto é feito com paixão, é meio caminho andado para o sucesso. 

A mensagem do filme, a busca pelo famoso sonho americano, é palpável em toda a longa-metragem, com Jacob a batalhar, entre vários desapontamentos, para dar algo à sua família, especialmente aos seus filhos, para que se lembrem dele e possam viver mais confortavelmente. Poucos filmes conseguem encapsular o sonho americano como Minari o faz, e quase sem se esforçar muito, porque é genuíno em todos os momentos. 

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Imagem: Divulgação

A maior vantagem de Minari, pelo menos para quem escreveu este artigo, é a facilidade com que mete qualquer um a imaginar toda uma vida que acabou por não viver. Todas as cenas parecem familiares, mergulhadas em conforto e sinceridade, de tal forma que, a dado momento, as imagens da nossa própria família começam a aparecer na nossa cabeça de forma simultânea. Os pontos altos, os pontos baixos, as desgraças que ninguém sabe que aconteceram, tudo isto passa pela nossa mente. É tudo o que cinema devia ser

Todas as pessoas envolvidas no projeto estão a dar o melhor de si para que o filme possa ser lembrado como uma memória real que nunca aconteceu, com Steven Yeun, em particular, a dar a performance de uma vida e que acabou por lhe dar uma nomeação para o Óscar. Especial atenção deveria ter sido dada a Alan S. Kim, que interpreta David, e Han Ye-ri, que interpreta Monica, porque boa parte da alma existente no filme não estaria lá sem as suas performances tocantes. 

No fim, Minari é um filme que não se vê todos os dias. No meio de uma indústria que tenta complicar ao máximo, cada vez mais, filmes como este são refrescos no meio do deserto de ideias do cinema. Não existem mesmo mais adjetivos que possam ser usados para falar de Minari. É simplesmente lindo, amoroso e sentido e, por isso mesmo, é um dos melhores do ano.

Minari está nomeado para seis Óscares: Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Argumento Original para Lee Isaac Chung, Melhor Ator para Steven Yeun, Melhor Atriz Secundária para Youn Yun-jung e Melhor Banda Sonora Original para Emile Mosseri

 

Steven Yeun em Minari.
Critica. ‘Minari’ é a memória de uma vida que poucos de nós viveram
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