Rita da Nova
Fotografia: D.R.

Rita da Nova: “Neste contexto atual, a leitura é uma maneira de viajar”

Em entrevista ao Espalha-factos, Rita da Nova falou-nos da sua relação com a leitura, do seu blog, e deixou imensas sugestões de autores e livros para todos os gostos.

Dia 23 de abril celebra-se o Dia Mundial do Livro e, para assinalar a data, o Espalha-Factos esteve à conversa com Rita da Nova, autora de um blog sobre vários temas, nomeadamente sobre livros. A conversa dividiu-se entre inúmeras sugestões de livros para todos os gostos, a sua relação com a leitura, os seus projetos para o futuro, como incentivar o gosto pela leitura e sobre a cancel culture.

Rita da Nova é lisboeta e licenciada em Ciências de Comunicação na Universidade Nova de Lisboa. Depois de uma breve passagem pelo jornalismo no Público, mudou-se para área de marketing e publicidade, onde trabalha atualmente. Os tempos livres dividem-se entre ler, escrever, partilhar livros que leu no blog, voluntariado com gatos e o podcast Terapia de Casal que tem com o marido – Guilherme Fonseca. No meio disto tudo, fez uma pausa para falar connosco sobre algo que adora – livros.

Há uns tempos disseste que O Diário de Anne Frank tinha sido o primeiro livro que te mostrou que ler é mais do que uma forma de entretenimento puro. Qual é a tua relação com a leitura?

A minha relação com a leitura tem mudado muito ao longo dos anos. Eu descobri mesmo a leitura nessa altura, quando li o Diário de Anne Frank, devia ter uns 12 ou 13 anos. A minha mãe sempre leu muito, então eu comecei a agarrar os livros que ela tinha por casa e, tirando quando éramos mesmo crianças, nunca existiu em minha casa aquela questão de haver livros “só para adultos”, [e] isso foi bom para mim. Esta pode ser considerada a minha primeira relação com a leitura, foi uma relação de descoberta, de ler o máximo de coisas diferentes. Lembro-me que li imensos autores russos, tentei descobrir o que gostava mais de ler… Acho que ainda hoje não sei o que é, vou-me surpreendendo. Quando entrei para a faculdade, para um curso que é, essencialmente, ler coisas, a minha relação com a leitura parou um bocadinho – ou seja, lia muito no verão mas não conseguia ter o mesmo ritmo de leitura. Recuperei esse ritmo quando comecei a trabalhar, que é onde estou mais ou menos agora. Ao longo dos últimos anos tenho vindo a ler cada vez mais. Para mim a leitura é, neste momento, a minha forma de entretenimento primária – ou seja, eu prefiro ler a ver séries e filmes. Para além da leitura ser entretenimento, neste contexto atual também é, para mim, uma maneira de viajar.

Lembras-te de como surgiu o teu gosto pela leitura?

Ler era algo que eu via muito as mulheres da minha família fazer. A minha mãe lia muito à noite na cama, é uma imagem que tenho muito dela, a minha avó lia muito à tarde, sentada na poltrona dela, e a minha tia lia imenso [de] férias, na praia. Então ler sempre me foi apresentado como uma coisa que tu podes fazer em diversos contextos. Para além de que eu cresci mesmo com livros, cresci com a minha tia a contar-me imensas histórias para adormecer. Acho que nunca houve aquela coisa de descobrir a leitura num lar onde não se lia, sempre foi uma coisa muito natural. Acho que os homens da minha família não leem tanto, é uma coisa muito mais feminina, pelo menos, pela minha experiência.

“Quanto mais um livro contar sobre coisas diferentes melhor, acrescenta-te perspetivas e empatia”

O que sentes que os livros acrescentam à tua vida?

Várias coisas. A primeira é perspetiva. Acho que os livros dão perspetivas diferentes através de histórias diferentes, e não tens de te relacionar com o livro para gostares dele. O livro não tem de contar uma história parecida com a tua ou não tem de contar sobre pessoas iguais às que estão à tua volta. Quanto mais um livro contar sobre coisas diferentes melhor, acrescenta-te perspetivas e empatia. No verão passado, li o livro Educated, da Tara Westover, de não-ficção. Ela era mórmon e o livro conta a história de como é crescer numa família [de survivalists, ou fundamentalistas apocalípticos] mórmons e como é que é o processo de saíres dessa família. Eu não sou mórmon, e acho que nunca serei, no entanto é muito interessante tu dares por ti presa a uma história que não tem nada a ver contigo. A outra coisa que retiro da leitura é tempo para estar comigo própria. Eu não consigo parar quieta, estou sempre a fazer qualquer coisa – a arrumar a casa, a pegar num projeto novo que depois, se calhar, não se desenvolve, a escrever, a ir fazer voluntariado com gatos – então a minha maneira de estar comigo mesma é a ler, é mesmo um momento sagrado para mim. A terceira coisa que acho que a leitura acrescenta é vocabulário. Para escreveres tens de ler, não há hipótese, a não ser que sejas um geniozinho que nasceu com o dom da escrita. Caso contrário, se não lês muito dificilmente escreves bem. Acho que o meu gosto por escrever apareceu porque leio desde muito nova, é uma pescadinha de rabo na boca: eu leio porque quero escrever e escrevo porque leio.

Tens o teu blog desde 2017, onde partilhas, entre outras coisas, os livros que vais lendo. Como surgiu esta ideia?

Na realidade, desde 2012, mas depois esteve uns anos morto. Voltou em grande em 2017 e não parei desde então, tenho conseguido alimentá-lo. O blog nasceu como consequência do meu Interrail em 2012/13. Era para ser só um diário de viagem onde escrevia sobre as cidades que ia conhecendo – ainda por cima eu fiz Interrail na Europa de Leste, que normalmente não é um sítio que as pessoas escolhem para ter esta experiência, pelo menos na altura não era. Depois parou porque parei de viajar, ou pelo menos as viagens não eram a uma velocidade que permitissem alimentar o blog. Mas ficou sempre o bichinho de escrever e pensei porque não falar sobre outras coisas que eu gosto, agora estabilizei nos livros exatamente porque estamos nesta situação.

Porquê um blog e não um canal de Youtube, por exemplo?

Porque eu tenho muitos problemas em aparecer [risos]. Sou muito introvertida, embora não pareça quando falo com as pessoas ou quando estou no podcast que tenho com o Guilherme. Mas eu gosto muito de estar no meu cantinho e a ideia de me expor, nesse sentido, assusta-me um bocadinho. O blog é um equilíbrio bom entre estar no meu cantinho e ainda assim produzir conteúdo.

E agora para quando um podcast, além do Terapia de Casal, onde partilhes as tuas leituras?

Pensei sobre isso e até andei  a sondar um bocadinho as pessoas. É uma coisa que eu quero muito fazer, mas preciso de encontrar ainda um ângulo que não seja muito parecido, por exemplo, [com o] Ponto Final, Parágrafo. Gosto muito da Magda e do projeto dela, por isso não quero pisar os pés dela, não quero aparecer aqui como uma concorrência feia, sobretudo depois de ter sido convidada. Já tive algumas ideias, porém todas exigiam contacto com outras pessoas o que, neste momento, também está difícil. Mas gostava muito, porque me sinto confortável no registo de podcast e porque seria uma boa maneira de levar os livros a pessoas que não têm por hábito ler blogs, por exemplo.

Para quando um livro teu?

Para relativamente breve, não posso dizer mais nada [risos]. Está a ser um dos projetos que me está a consumir mais tempo neste momento.

Tu já deste workshops sobre escrita criativa, o que é que essa experiência te deu?

Acho que estive mais em contacto com a ideia que escrever não é um dom. Quer dizer, até pode ser, óbvio que eu acredito que há pessoas que têm muito mais o dom da escrita do que outras. No entanto, dar workshops de escrita criativa pôs-me muito mais em contacto com a ideia de que se  não trabalhares, se não treinares e se não escreveres dificilmente consegues fazer da escrita uma coisa um bocadinho mais profissional. Então acho que foi isso que mais retirei dessa experiência, a ideia de que sem trabalho, sem rotina e sem esforço é muito complicado alguém escrever, porque eu não acredito na musa inspiradora. Acho que há momentos em que tens mais predisposição para escrever – por exemplo, eu escrevo muito bem quando estou triste, mas não posso estar sempre dependente desse estado de espírito, ninguém pode. Haverá certamente escritores que acham que se não estiverem inspirados não conseguem escrever e há outros escritores, que são os que eu tendencialmente admiro, que dizem logo que escrever não é uma maravilha, que dá trabalho e que escrever é reescrever muitas vezes. Atualmente, uma das pessoas que eu mais admiro é a Dulce Maria Cardoso, e o método dela é escrever tudo e depois apagar tudo e voltar a escrever. Isto também já é levar a coisa ao extremo, mas mostra um bocadinho que não é a primeira coisa que te vem à cabeça que fica. Num workshop de um dia nota-se logo a evolução, no primeiro exercício a pessoa está super enferrujada e depois termina o dia a escrever um texto maior de que se orgulha um bocadinho mais. Se isto é percetível só num dia, imagina com trabalho diário.

É uma experiência a repetir?

Sim, gostava muito! No entanto, não vou dar workshops de escrita criativa online. O workshop que eu tinha era de um dia inteiro, em que as pessoas almoçavam juntas, e quero que a experiência continue a ser essa, de convívio à volta de escrever.

Tens uma rotina de leitura? Tiras tempo especificamente para ler ou lês quando te apetece?

No primeiro confinamento eu guardei o tempo que estaria, supostamente, [nos] transportes para casa depois de trabalhar para ler. Agora não estou a fazer tanto assim, mas fiquei com o hábito de ler entre acabar de trabalhar e o jantar, quando consigo terminar o trabalho a horas decentes. Depois de jantar ainda costumo ler mais um bocadinho. Ao fim de semana consigo ler muito mais e, se estiver a gostar muito do livro, chega a acontecer pedir ao Guilherme, quando ele sai para o trabalho, que suba a persiana para eu conseguir ler e fico imenso tempo a ler na cama. Adoro ler na cama, não tanto à noite, mais de manhã ao fim de semana.

Tu tens um clube do livro no Goodreads, Uma Dúzia de Livros. Para além desse, frequentas outros clubes do livro?

Não, gostava muito, mas a falta de tempo não me permite. A única coisa que não adoro em alguns clubes do livro é o facto de estar toda a gente a ler o mesmo livro, e foi uma coisa que eu tentei evitar com o Uma Dúzia de livros, porque chateia-me um bocadinho fazerem a escolha por mim. Não gosto disso e acho que há muitas pessoas que também não, então evitei isso com o meu clube do livro. No entanto, há imensas pessoas que eu sigo que têm projetos de clube do livro que, embora eu não siga religiosamente as recomendações, ou seja, não leio todos os meses os livros que estão a recomendar, tiro daí muita inspiração.

Recentemente vimo-nos impedidos de visitar livrarias. Se puderes escolher, preferes livros físicos ou virtuais?

Físicos sempre, como é óbvio! São melhores, têm cheiro, consegues tocar, passar as páginas, há imensas coisas que um livro físico oferece que um livro digital, não. Porém, tenho descoberto as maravilhas de ler em [formato] digital! Eu era super contra, [mas] o que me convenceu num livro digital foi o peso, é muito leve e consegues ter lá os livros todos que te apetecer, o que para viajar é incrível. Outra vantagem é que se tiveres o Kobo sempre contigo arranjam-se sempre momentos para ler. Acredito que a leitura digital tem um papel importante: motiva muito as pessoas jovens a ler e os livros são mais baratos. Há quem consiga arranjá-los de forma gratuita mas eu nunca o fiz porque, como futura autora, também desejarei que as pessoas comprem o meu livro e que não andem a arranjar o PDF.

“E é impossível, ou quase impossível, tu ires a uma livraria e não trazeres nada contigo, há sempre um livro que chama por ti!”

Preferes encomendar online ou visitar a livraria?

Visitar livrarias! Quando nós viajamos, costumo conhecer livrarias locais e faço por comprar livros de autores locais, em inglês. Tornou-se um hábito, é uma coisa que gosto mesmo muito de fazer e depois, no blog, faço alguns roteiros de livrarias em diferentes cidades. E é impossível, ou quase impossível, tu ires a uma livraria e não trazeres nada contigo, há sempre um livro que chama por ti!

Grandes superfícies ou livrarias independentes?

Livrarias independentes, sem dúvida! Um coisa que notas quando vais a cidades tipo Londres, Edimburgo ou Nova Iorque é que têm imensas livrarias independentes e livrarias temáticas. É fascinante, veres a quantidade de livrarias independentes que poderia haver em Portugal se nós fomentássemos a sua existência. Nas livrarias independentes costumam haver recomendações que normalmente os livreiros põem ao pé dos livros, é algo que gosto muito e já comprei vários livros por causa dessa sugestão que está ao pé do livro, acho isso muito giro.

Gostavas de ter uma livraria?

O meu sonho de vida é ter uma livraria que podia servir cafés, mas que também fosse um sítio onde gatos que não têm dono pudessem viver e ser adotados. Mas duvido que fosse um negócio próspero e que conseguisse viver dele [risos], então vou manter, por agora, no plano do sonho. Hoje em dia também começam a existir várias alternativas às livrarias, a Helena Magalhães tem o Bookgang e a Cláudia Oliveira, A Mulher que Ama Livros, criou agora a sua própria livraria, também online. Por isso acho que esse negócio está bem entregue!

Como escolhes qual o próximo livro que vais ler?

É muito natural para mim estar a ler um livro e já estar a pensar em vários para ler a seguir. Quando não tenho ideias, tenho muitos livros em casa que ainda não li. No outro dia até fiz um excel com todos os livros que tenho em casa, cataloguei-os a todos e adicionei uma etiqueta que diz se já li ou não li, e quando me falta inspiração vou a essa lista. Se não me apetecer ler nada do que lá está, então, entrego a escolha a outra pessoa.

Dos livros que leste recentemente, gostavas que algum fosse adaptado a série ou filme?

O último que eu li chama-se Daisy Jones and the Six, da Taylor Jenkins Reid. É sobre uma banda de rock ficcional nos anos 70 e a história é contada em forma de entrevista. É um livro muito musical, fala sobre a forma como eles criaram músicas, como escreveram letras, como a banda evoluiu, como se chatearam uns com os outros, como se apaixonaram uns pelos outros, entre outras coisas. A autora, inclusivamente, escreveu as letras de um dos álbuns importantes na história. Então queria muito que este livro fosse adaptado, e vai ser a Resse Whiterspoon a fazer-nos o favor de pegar nele e adaptar numa série, creio que na Amazon Prime. Vai ser bom, porque gostei tanto de ler o livro, fiquei tão fã daquela banda sem nunca ter ouvido uma única música deles, só li as letras, que estou muito curiosa para saber como vai soar.

És daquelas leitoras que odeia a versão cinematográfica dos livros que lê?

Depende, acho que há filmes que são adaptações excelentes e acho que há filmes que são melhores do que os livros. Por exemplo, li o Expiação, do Ian McEwan, e foi um dos livros que não consegui acabar. Mas adoro o filme, é incrível. Não sou muito contra adaptações, até porque um filme [pode] ser uma má adaptação, [mas] o livro continua a ser sempre o livro.

Muitos usam o teu blog como referência para se manterem atualizados sobre livros. Que sítios utilizas como referência?

Recentemente, o TikTok. Sei que isto vai parecer parvo, mas sou apaixonada por esta rede social, é uma rede incrível. Não são só as danças, tem muito conteúdo interessante sobre imensas coisas e, sem dúvida, que tem sido uma fonte de inspiração, não só para livros como também para música. Tenho alguns Instagrammers que sigo e admiro. Normalmente, são todos estrangeiros – há uma rapariga que adoro, o Instagram dela é The Spines, e se calhar não concordo com tudo o que ela diz sobre os livros ou não gosto de todos os livros que ela gosta, mas gosto muito da estética dela e da maneira como ela fala sobre livros. No entanto, apesar de não seguir ninguém português, acho que temos um panorama interessante em termos de criadores de conteúdos à volta de livros. Também não sigo muito sites nem newsletters, às vezes leio algumas coisas no Medium, mas não há nada que siga religiosamente.

” (…) acho que a tristeza é uma coisa muito bonita, e aquilo que consegues escrever sobre estar triste é muito mais interessante do que aquilo que consegues escrever sobre estar muito feliz.”

A maioria dos livros que partilhas no blog para muitas pessoas seriam consideradas histórias pesadas. Porque é que este tipo de livros te atrai mais?

[Risos] Ultimamente, tenho feito um esforço para ler coisas mais leves. No entanto, o meu coração vai sempre para as histórias tristes e pesadas. O que vou dizer vai parecer muito estranho e muito dark de alguma maneira, mas acho que a tristeza é uma coisa muito bonita, e aquilo que consegues escrever sobre estar triste é muito mais interessante do que aquilo que consegues escrever sobre estar muito feliz. A tristeza, as vidas difíceis, a ansiedade, essas coisas todas dão-me muito mais prazer de ler precisamente porque não são muito faladas. Agora já começam a ser mais, então ganham um fascínio para mim muito grande quando são escritas. Consigo ver sempre beleza nisso, nem toda a gente consegue, mas eu gosto muito.

Quais são os teus escritores de eleição?

São muitos mas, sem nenhuma ordem específica, adoro Carlos Ruiz Zafón. É o primeiro que me vem sempre à cabeça, foi um dos autores que me fez apaixonar pela leitura e pelos livros como objeto. O ano passado perdemos essa figura e foi a primeira vez que eu chorei com a morte de alguém conhecido. Gosto muito também do Mario Vargas Llosa, do Afonso Cruz e da Dulce Maria Cardoso, apesar de não ser muito falada em Portugal ela escreve maravilhosamente bem. Também adoro a Sally Rooney, gostei muito do Pessoas Normais e adorei o Conversas Entre Amigos, gostei até mais deste. Gosto do Haruki Murakami, mas sei que não é para todos, tem um lado surreal e nonsense que às vezes também não compreendo e não tem problema, porque acho que o objetivo dele também não é que tu compreendas, é só que vás na história. E José Saramago, as Intermitências da Morte é dos meus livros favoritos. Há pouco tempo, li o Ensaio sobre a Cegueira e também adorei, acho que aquele homem era um génio meio incompreendido. E ainda a Chimamanda Ngozi Adichie, sei que agora não está nos melhores termos com os leitores porque foi acusada de transfobia, mas a obra dela é muito boa.

“(…) penso que também é importante estes movimentos mais independentes irem começando a surgir, para que, de facto, consigas mostrar que é importante dares voz e palco a novos escritores. Estamos numa fase interessante de mudança.”

Qual a tua opinião sobre o panorama literário português?

Eu tendo a ser uma pessoa relativamente otimista em relação à leitura, ao panorama literário e aos criadores de conteúdos. Penso que se escreve muito e muito bem em Portugal. Obviamente que, como em todas as indústrias, quem está cá há mais tempo, é mais famoso e tem mais oportunidades, e isso não é característico do panorama literário português, é característico da vida e do sistema em que vivemos. Podia e deveria haver mais espaço e mais incentivo a que as pessoas mais novas escrevam, mas eu, por exemplo, não me posso queixar porque sempre fui bem recebida. Não podemos ter muito uma perspetiva negativa de que não vale a pena fazer nada porque ninguém vai ler. Por exemplo, o Alexandre Couto, que é um rapaz que conheço, escreveu um livro chamado Nova Lisboa, editou o seu próprio livro e ele não é rico, sei que ele trabalhou muito para que isso acontecesse e foi difícil, mas ele conseguiu. Por isso, penso que também é importante estes movimentos mais independentes irem começando a surgir, para que, de facto, consigas mostrar que é importante dares voz e palco a novos escritores. Estamos numa fase interessante de mudança.

Se tivesses de apostar, que jovem escritor português achas que será o próximo Saramago?

Ui… [risos] O Afonso Cruz, não sendo jovem no verdadeiro sentido da palavra, é muito jovem para ganhar um Nobel, portanto, vou dizer Afonso Cruz.

Apesar do teu otimismo em relação à leitura, dados do início deste ano mostram que, entre 2009 e 2018, o valor de livros adquiridos por habitante, em Portugal, baixou de 1.88 para 1.34 livros por pessoa. Porque achas que se lê pouco em Portugal?

Durante a escola acontece algo que desincentiva à leitura – não sei o que se está a ler como leitura obrigatória agora na escola, porque não tenho filhos nem irmãos mais novos. Penso que pôr os adolescentes a ler Os Lusíadas, por exemplo, não é a melhor maneira de se incentivar a leitura. Pode-se e deve-se estimular a leitura na escola e, às vezes, tens de começar por uma leitura que não é considerada tão erudita para que as pessoas realmente ganhem o gosto da leitura. As leituras obrigatórias que nós temos não são as melhores para isso, porque depois o que acontece é que as pessoas vão ler os resumos para passarem nas disciplinas. Eu li Os Maias e o Memorial do Convento e adorei os dois, mas eu já tinha hábito da leitura, já gostava de ler. Uma criança que não tenha crescido numa casa onde se lê dificilmente vai pegar num livro desses. E sei que se tem de falar de Saramago, de Eça de Queiroz, de Fernando Pessoa, de Luís de Camões, de todas essas pessoas que foram importantes para a literatura portuguesa, mas porque não Young Adult? Porque não puxar por uma temática e por um estilo de escrita que vai interessar, de facto, aos adolescentes?

De que maneira se poderia cultivar o hábito da leitura? Com alteração dos conteúdos programáticos?

Sim, acho que sim! Tem de se perceber o que é mais importante: se é as pessoas ficarem com o hábito da leitura para a vida ou se é aprenderem a descrição do Ramalhete. Para mim, a longo prazo, é mais importante ganhar o hábito de ler e perceber que os livros podem ser uma coisa fixe.

Não te consideras uma leitora pedante?

Sou zero pedante, tanto leio coisas mais eruditas como leio coisas mais terra a terra! E consigo compreender perfeitamente que pessoas como o Chagas Freitas ou o Raul Minh’Alma sejam vendidos, tal como compreendo o sucesso de coisas como Cinquentas Sombras de Grey. E acho que as pessoas não têm de ter vergonha de ler se é aquilo que gostam. Honestamente, é preferível uma pessoa ler qualquer coisa a não ler. Também o facto de neste país haver algum tipo de estigma associado a certos autores faz com que as pessoas não leiam ou não admitam que gostam de ler, porque o que gostam de ler é uma coisa que não é bem vista.

Um livro que recomendarias a alguém que não tem o hábito da leitura?

A Sombra do Vento, do Carlos Ruiz Zafón, de cabeça é um dos primeiros que recomendo muito. Há um livro que eu adorei e que acho que também pode ser interessante que é Um Homem Chamado Ove, do Fredrik Backman, a história é muito gira e lê-se muito bem.  

“Se estás a assumir que só pessoas que viveram o mesmo que tu é que podem traduzir estás a reduzir o trabalho do tradutor a quê? Não sei.”

Recentemente, a escolha do tradutor para os livros de Amanda Gorman tem estado envolvida em alguma polémica, acabando por ter sido escolhida a jornalista e tradutora Carla Fernandes, natural de Angola. O que achaste desta polémica? Faz sentido para ti que os livros de alguém negro tenham de ser traduzidos também por um negro?

Acho que não faz sentido! Eu sou toda pela representatividade, as quotas em empresas e em escolas são importantes para normalizar a ideia de que temos de ter representatividade. E obviamente que um ator negro tem de ser escolhido para contar uma história negra num filme, blackface foi feito durante muito tempo e é ridículo. Tal como também penso que atores homossexuais ou trans ou não-binários devam interpretar esses papéis em filmes, porque tem de lhes ser dada a oportunidade de contar a sua história. No entanto, a tradução não deveria entrar aqui, no sentido em que tu para traduzires não tens de sentir da mesma maneira as coisas. A tradução, no fundo, é uma área muito técnica, já implica que tu sejas de outro país, que estejas a absorver a história que vem da cultura de alguém que não é a tua e a pô-la nas palavras da tua língua. Se estás a assumir que só pessoas que viveram o mesmo que tu é que podem traduzir estás a reduzir o trabalho do tradutor a quê? Não sei.

Outra polémica recente que envolveu escritores foi o livro Consentimento, de Vanessa Springora, onde revela que teve uma relação abusiva com o escritor Gabriel Matzneff, quando ela tinha 14 e ele 50 anos. Estes casos não têm acontecido só na literatura, têm afetado vários setores culturais como, por exemplo, o cinema. Achas que é possível separar o autor da sua obra?

Sei que isto é uma opinião polémica, mas eu sou capaz de separar o autor da obra. Um exemplo muito claro em que consigo fazer isso é o Michael Jackson. Adoro as músicas dele e vou continuar a ouvi-las, peço imensa desculpa a quem ficar chocado com isso. Quando crias alguma coisa essa coisa não és tu, vem de vivências tuas, mas também de vivências de outras pessoas e de inspirações que viste, portanto, não me faz sentido que um livro, um filme ou uma música não sejam apreciados porque o seu autor fez algo reprovável. Só há uma situação em que não estou a conseguir lidar, que é com o Armie Hammer, o ator que esteve recentemente envolvido em polémicas de canibalismo. Adoro o filme Call Me By Your Name e ainda não consegui ver depois disso. Estamos em terrenos muito pantanosos: cancela-se os artistas e a sua obra, ou “cancelam-se” só os artistas? Para mim só os artistas, porque eu tenho essa capacidade, que acho que nem toda a gente tem, mas posso ser eu que estou errada e que sou muito fria na maneira de ver as coisas.

“Os livros abrem a porta mas tu é que tens de fazer o caminho.”

É possível mudar o mundo através da literatura?

Não, infelizmente acho que não! [Risos] Sou otimista, mas não sou tanto. Penso que é possível mudar mentalidades ou, se não mudar, pelo menos começar o caminho para tal. Os livros têm a capacidade, pelo menos comigo isso aconteceu sempre, de te colocar mais alerta para problemas e para perspetivas que eu, no alto de ser uma mulher branca privilegiada, de outra maneira não teria visto. Os livros abrem a porta mas tu é que tens de fazer o caminho.

 

 

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