Uma Uma Miúda com Potencial chega aos cinemas a 29 de abril.
Foto: Divulgação

Crítica. ‘Uma Miúda com Potencial’, um murro no estômago e abanão à complacência

Uma Miúda com Potencial chega finalmente a Portugal. Depois de atrasos constantes na sua data de estreia no nosso país devido ao confinamento e ao encerramento dos aparelhos culturais, o filme de Emerald Fennell pode ser visto nas salas a 29 de abril.

Uma jovem, traumatizada por um trágico acontecimento do seu passado, busca vingança contra aqueles que se cruzaram no seu caminho. 

A sinopse é curta e algo especulativa, a apresentação do filme está feita, mas há muito mais que falar sobre Uma Miúda com Potencial. Esta é a primeira incursão de Emerald Fennell na realização de uma longa-metragem, obra cujo argumento foi também escrito pela própria, e não lhe podia ter corrido melhor. Conta com um elenco recheado de atores bem instituídos, incluindo a protagonista encarnada por Carey Mulligan. Estreou em Sundance em 2020 e revela-se hoje num dos grandes pesos pesados da temporada de prémios de 2021, ganhando nomeações e prémios em todas as principais premiações: dos Globos de Ouro aos Critic’s Choice Awards, passando pelos BAFTA e os Óscares – incluíndo a nomeação para Melhor Realização, Melhor Atriz, Melhor Argumento Original e Melhor Filme.

Não há meias medidas com Uma Miúda com Potencial, é um filme que desde o seu início revela ao que vem: direto, incisivo, cru e extremamente pertinente, esta obra de Fennell é talvez dos maiores murros no estômago que vamos ter nas salas de cinema em 2021. Quer pela mestria artística quer pela hábil forma como faz crítica social através de uma crónica de costumes, é um filme que se tornará obrigatório sempre que falarmos do cinema feito na década dos 20 do século XXI.

Fennell, a realizadora, estiliza Uma Miúda com Potencial ao mais ínfimo pormenor, da fotografia à banda-sonora, para criar a ambiência única e perfeita que consiga traduzir no grande ecrã as palavras da argumentista. É neste mundo pintado a tons pastel e sonorizado a músicas pop que existe um constante jogo entre a fragilidade e o empoderamento, que consegue comungar os níveis de ironia e humor negro com a crueza e seriedade dramática a que o tema obriga. É um filme que se assume como uma comédia negra, mas que está constantemente a subverter expectativas e a navegar por géneros e subgéneros, tornando-o numa obra única do cinema contemporâneo.

Divulgação

E, além das cenas mais descontraídas ali e aqui, das cenas mais românticas aqui e ali, o assédio sexual como a temática prevalente de todo o enredo, nunca é esquecido e Fennell obriga a que o espectador – seja quem for – a que nunca se esqueça disso. O próprio título do filme não é um acaso, em inglês Promising Young Woman tem ligações demasiado próximas – mas não confirmadas pela realizadora – a um caso que remonta a 2015: Chanel Miller, na altura estudante na Stanford University e atualmente artista e escritora, foi violada por Brock Turner no recinto daquela instituição. Este caso judicial tornou-se mediático e, numa altura em que o paradeiro da vítima estava protegido, vários orgãos de comunicação falavam e caracterizavam o agressor como um “promising young man” (em português, “um jovem promissor”). 

Ainda sobre esta história real, aconselho o artigo do BuzzFeed de 2016 em que Miller partilha o testemunho que deu em tribunal em que reclama o seu nome de volta e que se recusa a para sempre ser apelidada/caracterizada por um crime que aquele homem cometeu contra si.

É nestas explorações ao mediatismo à volta deste tema, nas provocações e na apropriação da linguagem que compactua com o machismo que Fennell a recupera e a torna sua, de Mulligan, de todas as mulheres. 

O próprio uso da cultura popular não é de si ao acaso, são os pequenos detalhes como a utilização de canções como ‘Toxic’ de Britney Spears ou ‘Stars Are Blind’ de Paris Hilton (dois nomes do estrelato dos anos 2000 e que têm sido vistas com novos olhos numa sociedade que, mesmo longe da perfeição, progrediu), que ajudam não só na contínua estilização do filme mas também a fortalecer o argumento no sentido em que aponta para pequenos apontamentos na memória coletiva dos espectadores que os relembra do machismo enraizado na nossa cultura. É Emerald Fennell repetidamente a relembrar o espectador o que é constante na vida de uma mulher.

A comédia e a tragédia interligam-se para criar uma linguagem única a Uma Miúda com Potencial

Todo este trabalho de excelência de Fennell é depois concentrado na epítome que é a a sua personagem principal, Cassandra. Carey Mulligan, está também ela irrepreensível, e é talvez das entregas mais marcantes da sua carreira. Ao olhar mais desatento a prestação de Mulligan poderá até parecer banal, não há momentos de monólogos melodramáticos ou gritos desmedidos que normalmente asseguram Óscares, há no entanto a subtilidade de conseguir transparecer as ambivalências de Cassandra, a sua dor e alegria de viver, o desencanto e a esperança, a vingança e o remorso, a fragilidade e o empoderamento. Uma entrega completa da atriz a este papel, um reconhecimento de que Cassandra é maior de que a condição humana, é um símbolo, um rouco mas firme grito de guerra.

É nestes símbolos que o universo de Uma Miúda com Potencial ganha toques de um surrealismo sempre baseado na crua realidade. Uma comédia-trágica em que Fennell explora a poesia de dar vida através da morte, de denunciar através da ironia, de esmurrar-nos ao colocar-nos frente a frente com tudo a que somos complacentes e, por isso, cúmplices.

Uma Miúda com Potencial assume-se tanto como uma homenagem como um grito de guerra para todas as mulheres e para todas as vítimas de assédio sexual. Um recordar que vivemos diariamente numa sociedade machista e numa cultura da violação.

Uma Uma Miúda com Potencial chega aos cinemas a 29 de abril.
9
Mais Artigos
Conceição Queiroz é insultada em direto
Jornalista Conceição Queiroz é alvo de insultos racistas em direto na TVI24