mortal kombat
Fotografia: Divulgação / Warner Bros. Pictures

Crítica. ‘Mortal Kombat’ é uma dose de violência gratuita, mas entusiasmante

Mortal Kombat, baseado na conhecida franquia de videojogos, é um das umas estreias de cartaz que faz parte da reabertura dos cinemas na terceira fase do desconfinamento. Mas será o filme uma Flawless Victory ou uma Fatality de filme? O Espalha-Factos conta-te tudo, sem spoilers.

Mais de vinte anos depois da sua última incursão no grande ecrã, o reboot de Mortal Kombat está finalmente disponível nas salas de cinema de todo o país. O que podemos esperar deste filme? Afinal de contas, é uma adaptação de um videojogo surgido, originalmente, na década de 1990.

Porém, encontramo-nos em 2021 e Mortal Kombat continua presente, agora em consolas com melhores gráficos e com violência mais explícita que nunca. Para quem acompanha a popular franquia, sabe que o universo deste videojogo continuou a expandir-se, sem mostrar quaisquer sinais de abrandamento de popularidade.

Por estas razões, esta nova adaptação cinematográfica parece ter o propósito principal de agradar os fãs, de longa data ou não, ao mesmo tempo que procura agradar ao público em geral que esteja à procura de um bom divertimento. Apesar de ser a estreia de Simon McQuoid na cadeira de realizador e do argumentista Greg Russo, estará Mortal Kombat de 2021 condenado ao insucesso da “maldição das adaptações cinematográficas de videojogos”, ou será capaz de efetuar uma golpe letal nessa maldição e surpreender?

Um processo de desenvolvimento infernal

Em 1997, estreou Mortal Kombat: Annihilation, um filme que deixou um sabor amargo aos fãs do videojogo, e não só. O fraco argumento, os efeitos especiais risíveis (mesmo para os padrões da época) e o recasting das personagens do elenco principal foram os principais defeitos de uma sequela que tinha o dobro do orçamento do filme original.

O plano inicial era fazer uma trilogia de filmes mas, devido aos maus resultados de bilheteira, um terceiro e derradeiro capítulo foi rapidamente descartado. A Threshold Entertainment, produtora responsável pelas duas longa-metragens, ainda tentou arrancar com o projeto, mas as constantes mudanças de equipas de produção e as diferentes propostas de argumento impediram o seu avanço.

Depois de várias complicações legais, a Warner Bros. Pictures acabou por adquirir os direitos da adaptação cinematográfica em 2009, assim como as propriedades intelectuais dos Midway Games, estúdios que desenvolveram os jogos Mortal Kombat.

Depois de ter convencido a Warner Bros. com o pitch de uma curta-metragem, Kevin Tancharoen foi anunciado como realizador do reboot da franquia em 2011. O filme teria a esperada classificação R (o equivalente à classificação «Para maiores de 16» em Portugal), o que, à partida, permitiria incluir cenas violentas, uma imagem de marca dos videojogos da franquia.

O mesmo realizador lançou Mortal Kombat Legacy, uma série que teve duas temporadas e sucesso moderado. A mesma tinha como propósito ser como que uma prequela do alegado reboot no grande ecrã. No entanto, por complicações de orçamento, o projeto começou sofrer atrasos, até que a Warner Bros. decidiu despedir Tancharoen em 2013.

Dois anos depois, James Wan (conhecido por ser um dos criadores de franquias como Saw e The Conjuring) assinou contrato com a Warner Bros. para produzir o novo filme baseado em Mortal Kombat. Em 2016, Simon McQuoid e Greg Russo foram confirmados como o realizador e o argumentista do projeto, respetivamente. Dave Callahan, argumentista de Wonder Woman 1984, foi também depois confirmado como argumentista. E é assim que, finalmente, em 2021, com o mundo a passar por uma pandemia e salas de cinemas apenas parcialmente abertas pelo mundo, acontece a estreia deste “recontar” de Mortal Kombat.

Violência, violência e… mais violência

Apesar do longo processo, o resultado final, de quase duas horas de duração, é bastante satisfatório. Mas há que fazer a seguinte advertência: a classificação de «Para maiores de 16» é para ser levada a sério. Mortal Kombat não é para pessoas com estômago fraco. Há cenas de carnificina explícita que reproduzem as icónicas fatalites (nome dado pelo videojogo aos golpes fatais que aniquilam o adversário).

O enredo desenvolve-se em redor de duas personagens adoradas pelos fãs, Sub-Zero e Scorpion. Os primeiros dez minutos do filme são cruciais, porque ajudam a estabelecer o tom da longa-metragem, e são executados de forma brilhante, dando o mote para o resto do filme.

Apesar do confronto entre ambas as personagens, o torneio, chamado Mortal Kombat, aliado com o confronto entre o reino da Terra e o reino de Outworld, é o pano de fundo que faz avançar a trama. O principal protagonista, Cole Young, é inédito na franquia, e junta-se à equipa liderada por Raiden, o deus do Trovão.

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Liu Kang e Kung Lao / Fotografia: Divulgação

O grupo é constituído por caras bem conhecidas dos fãs, como Sonya Blade, Jax, Liu Kang e Kung Lao. Apesar de serem os escolhidos para defender a Terra, o filme não tem receio de mostrar que os protagonistas estão mal preparados e que os vilões – constituídos por seres sobrenaturais – são mais experientes.

Existe um balanço certo entre o fan service e um bom argumento. Sabemos que os heróis têm de triunfar, é verdade, mas a jornada até ao sucesso tem de ser um caminho árduo com obstáculos. Este aspeto tem sido um dos principais problemas dos argumentos nos blockbusters dos últimos anos (a nova trilogia de Star Wars e o remake live-action de Mulan são alguns dos exemplos mais gritantes).

Os fãs de longa data vão apreciar as referências aos videojogos (dos mais antigos, aos mais recentes) e até ao filme original de 1995. As cenas de ação, no entanto, podiam ter sido melhor dirigidas, pois sofrem de um problema típico dos filmes de ação modernos: planos fechados nas sequências de luta e uma edição feita num ritmo estonteante.

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Cole Young é o protagonista inédito da franquia Mortal Kombat / Fotografia: Divulgação

As piadas de Kano com referências à cultura pop contemporânea e a família de Cole Young são, também, outros aspetos que nos podem retirar do “universo” Mortal Kombat. Apesar disso, o confronto geracional entre Sub-Zero e Scorpion, juntamente com a batalha do bem contra o mal, são apresentados de forma credível, fazendo com que o espetador fique expectante pelo desfecho.

Outro ponto alto da longa-metragem – e que merece, indubitavelmente, destaque – é a banda sonora composta por Benjamin Wallfisch. O compositor britânico, que tem um currículo impressionante, graças a filmes como Blade Runner 2049 e Hidden Figures, fez um trabalho louvável, dando a paisagem musical adequada para este filme.

Mortal Kombat triunfa naquilo que pretendia alcançar: entretenimento para as massas. Os fãs vão estar atentos aos pormenores, enquanto o grande público pode apreciar as cenas de ação com artes marciais e fantasia. O enredo poderia estar mais e melhor desenvolvido, mas as bases que construiu deixam possibilidades interessantes quanto ao seu futuro (ou seja, uma possível sequela).

Mortal Kombat é um serão bem passado com bastante violência. Mas volto a insistir: não levem crianças ao cinema para assistir a este filme, porque Mortal Kombat é entretenimento para adultos.

 

 

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