Espaços culturais
Theatro Circo. Fotografia: Hugo Garrido

O Dia Antes. Como se prepararam os espaços culturais para voltar?

Descobre como está a ser preparado o regresso da cultura ao vivo.

Depois de dois meses encerrados em 2020, na sequência do confinamento geral decretado pelo Governo, o cenário voltou a repetir-se e as portas dos espaços culturais tornaram a fechar. No entanto, o trabalho não parou e nos vários locais visitados pelo Espalha-Factos, esta pausa traduziu-se em momentos de reflexão.

Espaços culturais
Entrada – Theatro Circo. Fotografia: Hugo Garrido

Paulo Brandão, diretor artístico do Theatro Circo, em Braga, explica que neste tempo em que estiveram encerrados não pararam em nenhuma das áreas e que houve tempo para pensar “sobre aquilo que se fez e aquilo que ainda se quer fazer”.

As portas fecharam, mas houve sempre “muita coisa a acontecer”: “Estivemos a fazer manutenção, fecho e abertura de contas… há que reprogramar aquilo que ficou cancelado, há candidaturas a decorrer”, referiu Paulo Brandão. Aos projetos que o Theatro Circo está envolvido, como o Braga 2030, o Braga Media Arts ou a Capital Europeia da Cultura, acrescem outras atividades – “há uma série de coisas mais ligadas á programação, à construção de quadros, formação online” – que exigem que os trabalhos não cessem nesta que é uma das salas mais emblemáticas do país.

Ao contrário do que seria previsto, a equipa cresceu. O teletrabalho foi adotado em alguns casos e o Theatro Circo conta agora com mais quatro colaboradores.

Paulo Brandão – Diretor Artístico. Fotografia: Hugo Garrido

O horário das 19h será mantido, de segunda a sexta, durante abril, maio e junho. Sábados, domingos e feriados, os espetáculos serão às 11h, à semelhança do que acontecera em 2020. Sobre os horários, Paulo Brandão declara se se irão manter, independentemente de haver alguma alteração ou permissão por parte do Governo: “Não vamos mexer nesses horários e vamos tentar estabilizar isso mesmo a nível de programação”.

Vamos fazer rock às 11h”

O Diretor Artístico acredita na adesão do público, para a qual tem sido desenvolvido todo o trabalho: “Estamos a fazer uma programação apelativa, com horários diferentes e com propostas de termos, por exemplo, bandas rock às 11 da manhã de sábado, uma coisa inédita”, considera. “Fazer algo fora da caixa” é a premissa para atrair público: “Normalmente pensa-se sempre em espetáculos para crianças, serviços educativos, orquestras, mas não, nós vamos fazer rock às 11h”, anuncia.

A preocupação com o setor não é esquecida e a remarcação dos espetáculos agendados antes do encerramento de portas está a ser concretizada: “Tudo o que tínhamos, vamos reprogramar”, comunica. “Ao desenharmos isso estamos, no fundo, a não deixar cair aquilo que é essencial que é manter os artistas e os técnicos ativos e, sobretudo, o Theatro Circo cumprir com os seus compromissos”, refere.

Paulo Brandão considera que esta reabertura irá ser diferente do que a anterior, no que concerne à adesão do público. “Da outra vez, as pessoas tinham muita necessidade de ir ao comércio e ocupar a parte da manhã para algo mais ligado ao consumo e não tanto à cultura e, por isso, aos fins de semana de manhã, sempre que houve espetáculos, o público apareceu menos. Desta vez, acho que essa vontade já foi um pouco saciada e espero que as pessoas venham”, expõe.

Por outro lado, acredita que o processo será mais demoroso. “Na primeira fase, acho que as pessoas estavam com muito mais vontade de ver espetáculos. Desta vez o processo vai ser mais lento, de reconquista e de reabituar as pessoas, porque passou muito tempo e criaram-se outros hábitos, como fazer outro tipo de atividades não tão comprometedoras”.

Nesta reabertura, o Diretor Artístico não conta apenas com o público atual, mas também com “um público novo, que se calhar nunca foi ao Theatro Circo e que, por estar em teletrabalho ou por ter mudado de cidade possa ter essa oportunidade”.

A cultura não vive de saldos”

Paulo Brandão realça o papel da Câmara Municipal de Braga e do presidente Ricardo Rio neste trabalho no setor cultural e social: “Têm sabido cuidar e proteger a cultura e, em especial, o Theatro Circo”.

Um apoio que salvaguarda o salário dos artistas e a estabilidade do setor: “Os cachets não baixaram assim tanto. Isto não são saldos, a cultura não vive de saldos. Trabalhar em frente ao público exige, dos artistas, dos técnicos, muita experiência e responsabilidade e para mantermos isso também temos de aceitar e contribuir para que as coisas se mantenham equilibradas”, explica.

Casa das Artes. Em Vila Nova de Famalicão, mantém-se o compromisso com os artistas e o público

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Entrada – Casa das Artes. Fotografia: Inês Lacerda

Se “quem não é visto, não é lembrado”, como pode um espaço cultural, de portas fechadas, continuar a deixar a sua marca na sociedade? Fomos tentar perceber, com o testemunho de Álvaro Santos – diretor da Casa Das Artes, como se tem adaptado este espaço cultural e o que espera do futuro. A Casa mais conhecida dos famalicenses está prestes a abrir.

Álvaro Santos. Fotografia: Inês Lacerda

A Casa das Artes continuou a anunciar os eventos na agenda cultural, disponível online e entregue na casa de milhares de famalicenses. Mesmo que, devido à situação pandémica, a probabilidade de acontecerem fosse quase nula.

O responsável por este espaço cultural explica que isto aconteceu devido à relação que têm “com o público e com os artistas“. “Uma relação de muita proximidade e honestidade. Da mesma forma como queremos ser respeitados, temos de respeitar na íntegra os outros. Tendo esta noção, a agenda tinha de sair mesmo havendo dúvidas, sobretudo por duas razões.“, refere.

O compromisso com os artistas é assim assumido de forma pública. “Têm de sentir a confiança da nossa parte de que aquilo que nós tínhamos combinado era para se cumprir. O espetáculo pode não se realizar naquele dia, porque não nos deixam, mas eventualmente irá acontecer. Estando numa agenda pública, não dá para fugir”, defende.

De acordo com o Álvaro Santos, isto também garantiu ao público que seria cumprida a programação. “Para as pessoas saberem que podiam contar com a Casa das Artes para voltar a ir a eventos culturais. Não perdemos a nossa atenção com o interesse do público. Se nós estivermos um ano sem ter nada, as pessoas esquecem-se.”

Álvaro Santos, pouco adepto de plataformas de streaming e tudo o que não envolva a presença física num espetáculo ao vivo confessa que tiveram de se reinventar, “cedendo” às alternativas online.

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Casa das Artes. Fotografia: Inês Lacerda

“A possibilidade das pessoas, quando vêm aqui à Casa, de interagir com os objetos artísticos e conviver com outras pessoas, contribui para o desenvolvimento do seu pensamento crítico. Isso é mesmo a parte mais importante da área da cultura. Mas claro que quando já íamos na quarta vez a remarcar o mesmo espetáculo, tivemos de mudar de fórmula”, lamenta.

“Do ponto de vista do espetáculo, nem se pode comparar um online com um ao vivo, onde se sentem as emoções todas. Dá pena, mas as pessoas precisavam de trabalhar. Com qualidade de som e imagem assegurada, tentámos fazer os espetáculos o mais parecido com a normalidade possível, como se fosse ao vivo. Em vez de termos público, tínhamos quatro ou cinco câmaras.”

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Grande Auditório. Fotografia: Inês Lacerda

Quanto às expectativas para o regresso, o responsável pelo espaço não tem receio que no novo desconfinamento haja falta de público, contando que, na última vez, chegou a ponderar “cancelar um festival de circo“, por temer que “mesmo cumprindo todas as regras, estivesse demasiada gente – ainda por cima que não se via há meses“.

“De qualquer das formas, hoje em dia ter a sala esgotada é ter meia sala”, refere, recordando depois que nas piores alturas da pandemia, “entre novembro e outubro”, se depararam com uma situação que nunca tinham verificado antes. “Aconteceu-nos várias vezes ter espetáculos que estavam esgotados e depois não aparecerem cerca de 20 pessoas, porque ou estavam em confinamento ou tinham ficado com receio. Isso nunca nos tinha acontecido.”, conta.

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Sala de Ensaios. Fotografia: Inês Lacerda

Não é preciso um aviso ou comunicado”

Com o regresso marcado, Álvaro Santos não teme que o público não saiba que a Casa das Artes volta a estar ao serviço. “Desenvolvemos sempre o contacto com o público. O segredo, sobretudo para ter um espaço de reconhecimento nacional em Famalicão, é esta Casa ter sido sempre um espaço aberto e de programação sistemática e permanente. Agora, as pessoas vão saber que mal as casas de espetáculo abram, nós temos coisas para lhes oferecer. Não é preciso um aviso ou comunicado.”

No entanto, à medida que as datas se forem aproximando, serão partilhados mais teasers e fotografias nas redes sociais. “Com público, abrimos portas com uma peça em estreia: Eu Nunca Vi um Helicóptero Explodir, com a participação especial do jornalista da TSF Fernando Alves, a 22, 23 e 24 de abril”.

“Eu só quero ter gente cá, sonho com isso todos os dias”

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Casa das Artes. Fotografia: Inês Lacerda

O diretor do maior palco de Vila Nova de Famalicão salienta a resiliência como a chave para encarar a realidade atual da cultura. “O que já está para trás, está feito. Agora é andar para a frente. É preciso resiliência. Mesmo tendo a consciência de que algumas pessoas vão ter medo de cá vir, nós vamos estar cá sempre para os receber. Nós estamos presentes e eu não queria que as pessoas nos esquecessem. “

Quanto ao papel dos espaços públicos, como é o caso da Casa das Artes, Álvaro Santos salienta a sua importância na construção de uma sociedade equilibrada.

“Um espaço público é um espaço plural, um espaço eclético. Deve forçar a sociedade a pensar melhor. Tem de ser muito sensível e viver toda a heterogeneidade. Não se pode trazer só os artistas ou os temas que já se sabe que vão ter casa cheia”.

Casa das Artes. Fotografia: Inês Lacerda

O insólito silêncio quase a quebrar-se

Mais a norte do país, na vila de Arcos de Valdevez, sediada num solar construído na segunda metade do século XVIII e com vista para o rio Vez, a Casa das Artes tem consecutivamente acolhido e apresentado diversos nomes e aspetos da cultura portuguesa e internacional. Consequentemente a este segundo confinamento geral e ao impacto que ele teve no setor da cultura, também o alegre desassossego que pairava sobre a Casa em dias de eventos culturais, parece ter sido temporariamente substituído por um insólito silêncio.

Avizinhando-se o desconfinamento dos espaços culturais a nível nacional, o Espalha-Factos falou com o Diretor, Nuno Soares, procurando perceber quais as suas expectativas nesta fase.

Espaços culturais
Auditório. Fotografia: Maria Antónia Dale

Em Arcos de Valdevez, o fecho também foi aproveitado para um regresso mais forte. O tempo e a disponibilidade foram usados para fazer “obras de manutenção e segurança no equipamento do Auditório“, que permitiu a instalação de “novo sistema AVAC, sistemas de desinfeção, nova tela de projeção, novas cadeiras,, mas também construir novos projetos de âmbito mais alargado, refocar energias na atualização de bases de dados, atividades online de divulgação e materialização de atividades em off que até esse momento não eram possíveis de executar por falta de manifesto tempo e densidade de trabalho.”

No passado desconfinamento, a retoma da programação cultural da Casa das Artes contou apenas com atividades realizadas no exterior, como Noites no Paço, que tomaram lugar no monumento nacional Paço de Giela, em julho e agosto. A programação do evento Festival Sons de Vez, que habitualmente decorre nos meses de fevereiro e março, este ano terá sido “completamente cancelada, por mais um confinamento”, adianta Nuno Soares.

Apesar da reabertura de espaços culturais a 19 de abril, prevista na terceira fase do plano de desconfinamento a nível nacional, a Casa das Artes optou por cancelar a programação de auditório até 2 de maio. O adiamento deve-se, segundo o que foi comunicado este sábado (17) através das suas redes sociais, ao “limite horário de funcionamento dos equipamentos culturais ao fim-de-semana.”

Nuno Soares teme, contudo, que a adesão das pessoas a alguma programação futura possa ser afetada pelas alterações nas dinâmicas de consumo ao longo do último ano.

Apesar da vontade óbvia das pessoas regressarem aos eventos presenciais, estou convicto que o próximo passo, e será assim que faremos, é o do retomar de programação no verão, deixando elaborada já agenda para o final do ano e inicio do próximo. O cinema poderá ser a principal vitima deste processo, pois as plataformas online e sobretudo nos conteúdos infanto-juvenis criam um hábito de consumo completamente dissidente face ao cinema tradicional”, conjetura.

“Histeria coletiva” preocupa

O diretor adianta que a presença do público nas salas é outro problema, pois a histeria coletiva das novas variantes e a baixa vacinação, ainda sem resultados visíveis na efetiva disseminação do vírus, criam um cenário pouco favorável, apesar das normas que todos adotamos de higiene e segurança, que no caso do Auditório da Casa das Artes inclui a renovação a 100% e de forma permanente do ar interior/exterior.”

A Biblioteca Municipal Tomaz de Figueiredo, um dos equipamentos culturais da Casa das Artes, abriu portas já há mais de um mês, dia 15 de março, juntamente com outras bibliotecas e arquivos a nível nacional. O Espalha-Factos questionou a equipa encarregue da Biblioteca, também relativamente à forma como aproveitaram o confinamento nacional.

Utilizámos de uma forma muito produtiva a pausa imposta pelo confinamento para na Biblioteca restruturar espaços, fazer arrumações, selecionar catálogos, selecionar e organizar livros para serem oferecidos a países africanos de expressão portuguesa, catalogamos livros, fizemos trabalhos de investigação e por vezes, teletrabalho.”

O objetivo da equipa era trabalhar para que “quando terminasse o desconfinamento tudo se processasse de uma forma normal a aprimorada”. Realçam ainda que aproveitaram para fortalecer a sua comunicação através das redes sociais, bem como difundir atividades online.

Questionados acerca das ocorrências no fluxo de pessoas a comparecer na Biblioteca desde que reabriram, responderam que este tem sido “gradual e satisfatório desde o primeiro dia de desconfinamento até aos dias de hoje.”

A partir desta segunda (19), teatros, cinemas e auditórios voltam a abrir as portas e a receber o público, mantendo as medidas de proteção individual, de distanciamento e de lotação das salas adotadas anteriormente. Aos espectadores, caberá também voltar, cumprir as regras e desconfinar e salvar o setor cultural.

Texto de Hugo Garrido (coord.), Inês Lacerda e Maria Antónia Dale
Editado por Pedro Miguel Coelho

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