Simone de Beauvoir
Fotografia: D.R.

Simone de Beauvoir. O legado de uma pensadora feminista

35 anos após a morte de Simone de Beauvoir, que legado deixou no feminismo?

Simone de Beauvoir é um ícone feminista. Escritora, filósofa, intelectual, ativista, professora e integrante do movimento existencialista francês, Beauvoir é considerada uma das maiores teóricas do feminismo moderno,  sendo autora de O Segundo Sexo, um ensaio que é considerado, até aos dias de hoje, como um dos textos basilares e incontornáveis da teoria e do movimento feminista.

35 anos após a morte de Simone de Beauvoir, qual a marca que deixou no mundo e no feminismo?

Infância e Educação

A 9 de janeiro de 1908, em Paris, nasceu Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir, conhecida como Simone de Beauvoir. Filha mais velha de duas, os pais eram descendentes de famílias tradicionais, porém, na ruína. De Beauvoir cedo se destacou na escola pela sua mente brilhante e o pai reconhecia a inteligência da filha e dizia sempre que ela “pensava como um homem’.

Durante a infância e juventude frequentou um colégio católico e, mais tarde, estudou Matemática no Instituto Católico de Paris e Literatura e Línguas no Colégio Sainte-Marie de Neuilly, também uma escola católica. Simone foi estudar Filosofia para a Universidade de Sorbonee, onde conheceu outros jovens intelectuais como Maurice Merleau-Ponty, René Maheu e Jean-Paul Sartre, com quem manteve um relacionamento aberto durante quase 50 anos. Em 1929, com apenas 21 anos, tornou-se a pessoa mais jovem – e a nona mulher – a passar na agrégation em Filosofia (um dos exames mais difíceis e prestigiados de França), sendo que o único estudante que conseguiu uma nota superior foi Sartre.

Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre
Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre / Fotografia: D.R.

Carreira e primeiras obras

A escritora lecionou em diversas escolas nas décadas de 1930 e 1940, pois o que ganhava com o os seus textos não dava para se sustentar. Mas quando as tropas nazi invadem França, De Beauvoir foge do país, ao qual só regressará no final da guerra.

Em 1943, publicou o seu primeiro romance, A Convidada, uma crónica ficcional que tem como cenário o pré-Segunda Guerra Mundial e que é sobre o relacionamento que ela e Sartre mantiveram com as irmãs Kosakiewicz. Para além de abordar várias questões filosóficas e existencialistas, a autora também acaba por refletir nas consequências psicológicas destas experiência a três. Este romance metafísico foi seguido por muitos outros, como é o caso de O Sangue dos Outros. Lançado em 1945, explora a natureza da responsabilidade individual através da história de amor entre dois jovens estudantes franceses.

Em 1945, funda a revista Os Tempos modernos (Les Temps modernes) juntamente com Jean-Paul Sartre, Merleau-Ponty e Raymnond Aron. A revista reunia várias crónicas de opinião sobre os temas que dominavam a realidade na época do pós-guerra, com a qual ficou para sempre associada. A escritora editou este jornal até ao fim da sua vida e usou-o como meio de divulgação das suas ideias. Em 1947, a filósofa lançou um ensaio filosófico, intitulado Pour une morale de l’ambiguïté, que a consolidou como uma prestigiada filósofa existencialista.

O Segundo Sexo – um marco no feminismo

simone de beauvoir
Imagem: O Segundo Sexo, Vols. I e II. Quetzal Editores

Entre maio e outubro de 1949, Simone de Beauvoir publicou, em França, O Segundo Sexo (Le Deuxième Sexe), onde reflete sobre o papel da mulher na sociedade e a opressão da mulher num mundo dominado pelo homem. A obra em dois volumes serviu de base para a teoria feminista da chamada segunda onda, que surgiu na década de 1960.

Excertos do livro já haviam sido publicados na revista Les Temps modernes e as vendas dessas edições bateram recordes. Apesar de o livro ter sido um êxito – na semana de lançamento vendeu 22 mil exemplares só em França – foi retirado de várias livrarias devido às reações que gerou. Em 1956, entrou para o Índex, a lista de livros proibidos da Igreja Católica, e foi por isso proibido em vários países, incluindo Portugal.

Não se nasce mulher: torna-se mulher 

Quando lemos O Segundo Sexo não podemos esquecer que Simone de Beauvoir é uma existencialista – uma filósofa que acredita que a existência antecede a essência e, por isso, vai demonstrar na obra que não existe uma essência feminina. Um sujeito torna-se mulher a partir das suas experiências durante a vida. No entanto, também propõe a tese de que as mulheres não se definem a si próprias, mas que são definidas pelo olhar masculino. Com isto, a filósofa defende que a origem da desigualdade de género não tem apenas raízes históricas, também é uma construção social. Ou seja, a mulher é construída histórica e culturalmente, não existe uma essência, e a história mostra que essa construção tem vindo a ser feita de acordo com os interesses do homem, resultando na subjugação da mulher.

A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autónomo.

Através da pergunta O que é ser mulher?, Beauvoir explora na sua obra o conceito hegeliano do Outro, concluindo que ser mulher é uma categoria que existe na sociedade, tal como ser homem. Porém, não são duas categorias diferentes – é como se existisse uma categoria masculina, como positiva, e uma categoria feminina, como negativa. As mulheres não são, pois, pensadas a partir de si, mas em relação e em comparação com o homem e através do seu olhar. As mulheres são o Outro, o segundo sexo, como referia a filósofa. Este facto contribuiu imensamente para a opressão da mulher segundo a autora, mas afirma também que as mulheres são tão capazes de escolher como o homem e que, por isso, se podiam transcender de igual forma. Esta posição exige que a mulher assuma responsabilidade por si e pelo mundo onde age, onde escolhe a sua liberdade, onde se constitui também como sujeito ao lado do homem.

Numa outra parte do livro, a escritora tenta perceber porque existe uma mistificação sobre as mulheres através de lendas, mitos e literatura. E, ao escolher alguns autores que usam este simbolismo feminino, acaba por culpar os homens por mistificarem o papel da mulher, fazendo-o devido a uma incompreensão perante os problemas femininos.

Através de O Segundo Sexo tomei consciência da necessidade da luta. Compreendi (…) que as mulheres são, de facto, definidas e tratadas como um segundo sexo por uma sociedade patriarcal, cuja estrutura entraria em colapso se esses valores fossem genuinamente destruídos.

A autora termina o livro com a pergunta O que é a mulher independente?, e defende que o trabalho assalariado é uma condição de independência para as mulheres, uma vez que é o meio através do qual podem ser financeiramente independentes, livrarem-se do espaço restrito da domesticidade e da maternidade, e finalmente conquistarem a sua transcendência e constituírem-se como sujeito. No entanto, De Beauvoir diz que isso não acontece – por um lado, porque as mulheres só conseguem a independência económica no meio de uma classe economicamente oprimida e, por outro, porque não se livraram do trabalho doméstico. Então, para a filósofa, o que realmente irá libertar as mulheres é uma transformação da estrutura – ou seja, trazer uma perspetiva feminina para o mundo, que ainda está construído sob o ponto de vista masculino. A mulher, segundo a escritora, deve criar por si própria a sua existência e não ser colonizada por ideias masculinas.

Atividade política e últimas obras

Em 1954, a escritora publicou o livro Os Mandarins (Les Mandarins), que lhe rendeu o Prémio Goncourt, o maior prémio literário de França. O romance passa-se logo após o final da Segunda Guerra Mundial e acompanha a vida pessoal dos filósofos e amigos do círculo íntimo de Simone e Sartre. No mesmo ano, publica ainda o livro As inseparáveis (Les inseparables), um romance que conta a história de amizade com Élisabeth Lacoin (Zaza), uma obra revela um pouco da origem do pensamento de Simone de Beauvoir.

Em 1960, o casal de intelectuais começou a cuidar de Sylvie Le Bon, uma jovem de 17 anos que ficou fascinada com as reflexões da escritora em O Segundo Sexo. De Beauvoir adotou-a no final da sua vida para que ela se pudesse tornar a sua herdeira literária.

Sylvie Le Bon e Simone de Beauvoir / Fotografia: D.R.

Na década de 1970, a filósofa tornou-se ativa no movimento de libertação das mulheres francesas, chegando mesmo a assinar o Manifesto das 343 (uma lista de mulheres famosas que declaravam já ter feito um aborto que, na altura, era ilegal em França). Além disso, também esteve envolvida, juntamente com Sartre e Foucault, no polémico manifesto para a alteração da idade de consentimento de relações sexuais em França.

À medida que os anos passaram, a escritora começou a revelar alguma inquietação perante o envelhecimento, o que se refletiu em obras como Uma morte suave (1964) ou no longo ensaio A Velhice (1970), onde faz uma reflexão intelectual sobre o declínio e a solidão por que todos os seres humanos passam se não morrerem antes dos 60 anos. O último livro de Simone, A Cerimónia do Adeus, foi publicado em 1981, um ano depois da morte de Jean-Paul Sartre, no qual a autora faz um doloroso relato sobre os últimos anos do seu companheiro de vida.

A 14 de abril de 1986, a escritora morreu em Paris vítima de pneumonia. No entanto, as ideias transgressivas de Simone de Beauvoir permanecem importantes e marcantes até hoje e foram, sem dúvida, uma grande e incontornável contribuição para o movimento feminista e para a luta pela igualdade de género.

 

 

 

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