Ali Tabrizi (Realizador e ávido amante do oceano) em 'Seaspiracy'
Ali Tabrizi (Realizador e ávido amante do oceano) em 'Seaspiracy' (Fotografia: Lucy Tabrizi)

Seaspiracy: Mais um versículo do evangelho do veganismo?

Sete anos depois do lançamento de Cowspiracy surge, pelos mesmos produtores, outro documentário com nome de trocadilho: Seaspiracy promete trazer à superfície os segredos ocultos dos parques temáticos e das pescas e, ao mesmo tempo, oferecer uma solução simples para resolver o problema. À semelhança do seu predecessor, muito se tem falado sobre este documentário, desde stories no Instagram a apelar à visualização, até centenas de tweets idênticos sobre como havia um melhor trocadilho para o título: sim, “Conspirasea” estava logo ali à mão…

Há spoilers a partir deste parágrafo. 

Narrado por Ali Tabrizi e com a duração de cerca de 90 minutos, o documentário começa com a sua história de carinho pelo oceano e a vida marinha, desde criança. Ao estilo de jornalismo de investigação, propõe-se a trazer à tona os problemas da caça de baleias e golfinhos, começando na localidade de Taji, no sul do Japão.

No entanto, a narrativa não começa exactamente aí: primeiro, uns segundos sobre atirar pessoas ao mar e assassinatos a bordo de navios de pesca, seguidos de números surpreendentes sobre a vida marinha e o seu efeito na regulação do clima. O objectivo destas linhas não é, no entanto, fazer uma verificação de factos ao documentário, uma vez que esse assunto já foi bastante discutido, por exemplo aqui e aqui.

Conspiração rima com desilusão

Estamos perante uma verdadeira confusão narrativa. É mais um documentário que começa como uma coisa para terminar sendo outra completamente diferente, por terem calhado na rede linhas cada vez mais ‘surpreendentes’ (um pouco como Ícaro, para quem acompanhou), poderes ocultos e peixe graúdo.

Nesta hora e meia apanhamos um pouco de tudo: perseguições policiais por estarem a documentar caça à baleia, ameaça de levar com uma cadeira por tentarem filmar uma loja que vende barbatana de tubarão, até avisos sobre o perigo de serem mortos caso tentassem investigar as condições de trabalho em alguns navios de pesca.

As revelações são absolutamente chocantes. Os golfinhos são mortos para que não comam o atum e haja mais de sobra para o ser humano. Quem tentar investigar sobre o assunto tem a polícia, o governo e os pescadores à perna, com o telefone sob escuta, a televisão a filmar, “all of those people are watching you” (qualquer semelhança com o 1984 é coincidência). As organizações ambientalistas são um embuste. Os certificados de pesca sustentável são uma fraude. A solução? Parar de comer peixe.

Reconheço o tom relativamente sarcástico até agora, mas é espelho de uma franca desilusão: o documentário toca imensos pontos importantes, temas relevantes para trazer para discussão pública sobre a nossa relação com o ambiente e recursos naturais, para depois cortar todo o bom serviço que foi fazendo ao terminar com histórias chocantes de assassinatos e duas frases a dizer para parar de comer peixe e virar vegan.

O que podia ser um documentário ponderado, com recurso a ciência recente (em vez de artigos de 2006 já ‘desmentidos’), acaba por ser mais sessão de Kip Andersen e o evangelho do veganismo. Mais uma solução one size fits all para um problema complexo, que afecta comunidades muito para lá do subúrbio das cidades. Seaspiracy é um documentário que se confunde a si próprio entre a ‘culpa’ e a ‘solução’; uma pescadinha de rabo na boca que nunca se sabe muito bem onde começa e onde acaba.

Tubarões e peixe graúdo

Um dos primeiros pontos é exactamente sobre ‘quem’ controla determinados sectores do mercado. Os pescadores no sul do Japão matam golfinhos para que eles não comam atum e sobre mais para pescarem, uma espécie de ‘controlo de pragas’, que contribuiu para que hoje exista apenas 3% da população de atum-rabilho existente em 1970. Aparentemente, a Mitsubishi controla 40% do mercado desta espécie, que é também a mais valiosa e… Nada, a ideia fica por aqui.

Outro sector que aparece colado ao ‘grande negócio’ é também o do ativismo ambiental e os selos de qualidade e segurança ‘dolphin safe’ que encontramos nas latas de atum, por exemplo. Defendem que existe um negócio de certificações de pesca amiga dos golfinhos que gera cerca de 24 milhões de euros por ano, detido pela mesma empresa que detém a associação que advoga pelo fim do consumo de plásticos de utilização única, ‘escondendo’ que a maior parte do problema é da pesca. Dir-se-ia em inglês: sounds fishy.

Seaspiracy
Seaspiracy (Netflix © 2021)

Os Oceanos e o Clima

A relação entre a preservação dos oceanos e as alterações climáticas serve, no documentário, para fazer a ponte entre a problemática das pescas, o consumo de peixe e a solução para isto tudo. Os oceanos são um enorme reservatório de dióxido de carbono: removem carbono da atmosfera por dinâmicas de pressão e solubilidade, ou através de produtores primários como algas e fitoplâncton. De facto, metade das emissões de carbono de origem humana são capturadas por processos naturais, sendo o oceano e o solo os grandes responsáveis por esse alívio (já que estamos numa de documentários, podem espreitar Kiss the Ground, crítica do Espalha-Factos aqui).

Os sistemas naturais são complexos e dinâmicos. É comum ouvirmos que ‘espécie X’ é a mais importante para Y; isto aplica-se desde abelhas a determinadas espécies de árvores, passando aqui por baleias, tubarões e outras variedades de peixe. Esta complexidade faz com que, no que toca a tentar ‘resolver’ os muitos problemas ambientais que herdamos nos últimos séculos, não exista uma única solução: da mesma forma que Seaspiracy mostra que as palhinhas de metal e as escovas de dentes de bambu não vão salvar o mundo, dificilmente será o comportamento individual que nos há de salvar de um problema bastante próximo do nosso prato, está enraizado em praticamente todos os aspetos da nossa vida.

O bom, o mau e o vilão

À medida que o tempo passa, vamo-nos apercebendo de um padrão. Os maus da fita são sempre asiáticos: os grandes caçadores de golfinhos do início são japoneses, os chineses dão a cara pelas barbatanas de tubarão e os tailandeses pelas violações de direitos humanos a bordo. Por outro lado, uma cena brutalmente gráfica e sangrenta de caça à baleia na Dinamarca é apresentada como ‘sustentável’ e ‘humana’. Do lado da conservação da biodiversidade, do activismo e do ‘salvador’ estão os europeus e norte-americanos; enquanto as populações locais do Leste Africano são as ‘vítimas’, cujo ‘atraso’ tecnológico não permite competir com os grandes navios de pesca chineses que vão roubar peixe às suas costas.

No entanto, pode ser interessante questionar até que ponto este tipo de caracterização é útil para demonstrar um problema grave e real, que não se aplica apenas ao setor das pescas e às comunidades piscatórias: da mesma forma que se relaciona a exploração estrangeira de recursos marítimos na Libéria com o surgimento de surtos de Ébola, ou com a origem da pirataria ao largo da Somália, também existem sugestões da ligação entre as alterações climáticas, a seca e a guerra civil na Síria as migrações no Sahel e na Guiné-Bissau.

Solução ou Resposta?

Há um exemplo no documentário que saltou mais à vista do que a chacina de baleias nas ilhas Faroé: para cada 1kg de salmão produzido em aquacultura, é necessário 1,2kg de alimento, que por sua vez é feito à base de farinhas e óleos de peixe, o que dá 1,2kg de peixe para fazer 1kg de outro peixe. Existe ainda o outro argumento da quantidade de vida marinha que se perde como dano colateral para pescar, dando a ideia de que para cada peixe que é pescado, morrem outros tantos. Existe então uma discrepância entre o valor económico tangível da pesca e da aquacultura e o restante valor perdido em serviços de ecossistemas (regulação, suporte, provisão e culturais), que não surge ‘diluído’ no preço final.

Seaspiracy toca nos pontos importantes, mas não se compromete a ir mais além. Podemos considerá-lo simplista e pouco ambicioso, no entanto, tiremos-lhe o chapéu por ter trazido à tona um problema bastante válido e importante: a eficácia e verificabilidade, ou não, das ‘soluções’. Demonstrar que os selos ‘dolphin safe’ não são assim tão amigos dos golfinhos é um passo fundamental para quem queira entrar no fantástico mundo do capitalismo verde e do greenwashing. O mesmo exercício pode ser aplicado, por exemplo, às compensações de carbono por plantações de árvores. É um golpe de fé: pressupõe acreditar que aquela lata não matou um golfinho, que aquela árvore vai viver mais do que seis meses e capturar mais do que umas gramas de carbono, se chegar mesmo a ser plantada e se o carbono capturado pela biomassa compensa o que pode perder no solo.

Seaspiracy. (Fotografia: Artgrid)

Nos últimos anos saíram três documentários ambientais sobre o setor alimentar: Cowspiracy, Seaspiracy e Kiss The Ground. Podemos escolher interpretar as conclusões de cada um deles de uma de duas formas. De certa forma, somos levados a pensar que “comer carne faz mal ao ambiente”, ou “comer peixe faz mal ao ambiente” e a solução é tornarmo-nos vegan. Infelizmente, ainda não surgiu nenhum documentário sobre os problemas ambientais do sector agrícola, como o esgotamento do solo, perda de biodiversidade, emissões de metano e óxido nitroso.

É aqui que surge a outra forma olhar para o assunto: “Pecuária Industrial faz mal ao ambiente”, “Pesca Industrial faz mal ao ambiente” e “Agricultura Industrial faz mal ao ambiente”. Talvez o problema não seja tanto da pecuária, da pesca e da agricultura e seja mais do ‘industrial’. Talvez mais importante do que mudar o produto seja mudar o modo de produção, o que não é simples: cada vez há mais bocas para alimentar e o planeta é o mesmo; “A terra é pobre, a gente é muita.”

A mensagem inicial de Seaspiracy – “eu sou uma enorme parte do problema – coincide com a que surge no fim – “cabe a cada um de nós fazer a nossa parte”; no fundo é acreditar que o todo resulta apenas e só da soma de cada uma das partes. Talvez o problema seja mais profundo, relacionado com a nossa forma de estar e de nos relacionarmos com o ambiente e com os recursos naturais. No início de um livro sobre filosofia ambiental, estão descritas algumas crenças dos ‘primeiros povos’ e a sua relação com a natureza: ‘Pertença’ e ‘Respeito’.

Para haver tanto um como outro, é necessário reconhecer o valor intrínseco do ambiente e recursos naturais; o que envolve o conhecê-los: de onde surgem? qual o seu papel? quais as suas limitações? Para estas comunidades, a resposta está nas suas histórias, transmitidas oralmente ao longo de gerações. Talvez fosse uma boa ideia recuperar estas noções para a nossa realidade actual. Educação, conhecimento e comunicação de qualidade, porque cada um à sua mesa, dificilmente vamos lá.

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