Paula Cordeiro com o livro 'A Vida Instagramável' / Fotografia: Aline Macedo

Paula Cordeiro: “o sucesso não é necessariamente uma coisa, pode ser outra”

A autora de 'A Vida Instagramável', um lançamento da editora Arena, mostra-nos que nunca é tarde para começar de novo

A Vida Instagramável é o mais recente livro de Paula Cordeiro, que chegou às livrarias no passado dia 6 de abril. É um livro sobre a vida e “mudança de vida”, sobre as redes sociais e os seus efeitos positivos e negativos sobre os utilizadores. Para a autora, a primeira mulher a exercer o cargo de Provedora do Ouvinte e docente na Universidade de Lisboa, a descoberta do que realmente pretende fazer chegou-lhe aos 40 anos. Contra a conceção antiga de que temos de ter a vida resolvida aos 25, a autora prova que o sucesso é algo muito variável e nem sempre previsível. A Vida Instagramável é o “primeiro passo” no caminho que a levará à concretização de todos os seus sonhos.

Em entrevista ao Espalha-Factos, Paula Cordeiro falou sobre o seu novo livro, o que a levou a escrevê-lo e o que aprendeu da sua “experiência nas redes sociais” que foi o seu “maior fracasso que se tornou no maior sucesso”.

Como tem sido o feedback que tens recebido até agora, depois de meses a adiar o lançamento do livro?

A receção está a ser muito boa e o feedback que já tenho é muito positivo. As pessoas que já leram estão muito satisfeitas, acham que é muito interessante e, portanto, eu não poderia estar mais feliz, porque ninguém quer escrever para levar críticas negativas, não é?

A Vida Instagramável é o teu terceiro livro publicado e marca uma diferença de tema face aos outros. Queres comentar essa espécie de salto?

Eu tenho dois outros livros. O primeiro é um livro técnico, muito lindo para quem gosta de rádio e quem trabalha na área, não tão lindo para as outras pessoas porque podem achar ‘uma seca’. O segundo é uma coletânea de crónicas sobre a rádio [risos], sobre marketing e sobre comunicação digital. Eu sempre quis abraçar o registo da não-ficção. Se eu pudesse escolher, e talvez se estivéssemos num país maior em termos de dimensão, eu só vivia da escrita e dos podcasts, mas continuaria a ensinar porque gosto muito. Tenho ainda a esperança secreta de conseguir escrever romances. Talvez lá chegue um dia porque gostaria mesmo, mesmo de poder dizer que sou escritora e dedicar-me muito mais à escrita. Por isso, sim, este [livro] é um primeiro passo, uma viragem naquilo que eu costumo fazer em direção àquilo que eu quero fazer, e por isso é tão importante para mim.

Paula Cordeiro / Fotografia: Aline Macedo
Achas que essa experiência como professora e o contacto com pessoas mais jovens te influenciou para a criação do livro?

Não, de todo. Já me dei conta que, muitas vezes, quem usa mais até sou eu. Os estudantes universitários, ao contrário daquilo que se pensa, não são os maiores utilizadores por uma questão de tempo. Aliás, se eu fizer aqui uma pesquisa rápida pelo Instagram vou verificar que a maior parte dos meus alunos ou ex-alunos não publica há várias semanas por causa de exames, trabalhos e, portanto, têm um ritmo de publicação bastante irregular. Por exemplo, no ISCP, em 2006 ou 2007, nas minhas disciplinas eu disse aos meus alunos que a avaliação se baseava na criação de um blog e eles disseram que não o sabiam fazer. Ou seja, eu sempre estive um bocadinho um passo à frente da maior parte dos alunos porque sempre fui a primeira a adotar novas plataformas. Exemplo concreto: chega o Cubhouse a Portugal, eu falo dele numa aula de Comunicação Digital e começam a levantar as mãos, a perguntarem se tinha convites, porque eu já lá estava, mas eles ainda não. Respondendo à questão sem me estar a armar em boa: como é obrigação minha estar atenta às novidades e conhecer as novas plataformas ou ferramentas digitais que forem aparecendo no mercado, eu acabo sempre por estar devidamente informada em relação àquilo que os meus estudantes também estão a utilizar. Eles têm uma perspetiva de utilizador e eu tenho mais a perspetiva de cientista social.

Como é que te veio à mente o nome do livro?

Foi um processo criativo de junção de palavras. O livro tinha outro título, mas não queria que fosse esse. Então, comecei a criar frases que definissem o livro e a juntá-las. Fui encontrando palavras que, juntas, faziam sentido, portanto, até chegar à Vida Instagramável. De facto, o livro é sobre a nossa vida e mudança de vida, é sobre o Instagram, é sobre aquele conceito de “Isto é altamente Instagramável”.

O livro partiu da criação do Urbanista. Para quem não conhece, podes explicar o que é o Urbanista e como a ideia de criação surgiu?

O Urbanista nasceu como um projeto editorial em 2015. Eu andei uns anos a tentar perceber o que é que gostaria de fazer da vida. Sentia que precisava de mudar algumas coisas na minha vida e então pensei na ideia de fazer um podcast ou criar um projeto editorial no qual podiam convergir diferentes propostas multimédia. Eu queria começar por fazer um podcast, mas na altura era Provedora do Ouvinte na RTP, e achei que não era muito compatível a Provedora do Ouvinte ter um podcast. Então, deixei a ideia a marinar durante uns tempos, mas fui fazendo coisas no Urbanista. Portanto, o Urbanista foi um projeto editorial, que nasceu para ser um podcast, transformou-se num blog, foi um programa de rádio e depois voltou a ser um podcast e com isto estendeu-se também para as redes sociais, com mais destaque no Instagram.

Já descreveste a tua experiência pelo teu Instagram que originou o livro como “o maior sucesso e o maior fracasso”. Como é que explicas esta ambivalência?

Quando eu criei o Urbanista, já tinha perfil no Instagram, mas não o usava com nenhum propósito em particular. Acho que na altura ninguém sabia muito bem o que fazer com o Instagram [risos]. Depois de criar o Urbanista, olhei com mais atenção para o Instagram, porque estava a tentar trazer leitores para o meu blog. Até que percebi que a rede social não permite pôr links, vive de imagem e eu estava a obrigar as pessoas a sair para ler os meus posts do blog. Então, peguei no conteúdo para o blog e adaptei-o ao Instagram para criar conteúdo original. Nessa altura também fiz follow-up de outros perfis e percebi quais eram as tendências. Compreendi que haviam muitas mulheres a rentabilizar a sua presença na rede social: eram instagrammers. Pensei que até nem era má ideia [risos]. Quando deixei de ser Provedora do Ouvinte, em 2017, pensei que era altura de ser influencer. Mas, em vez de me tornar influencer no Instagram com milhões de seguidores [risos], a comunicação social chamou-me e para “trazer o teu Urbanista para aqui”. [Fui] para a Sapo24, a revista Sábado, para as manhãs da Renascença e a NiT FM, como Coordenadora Editorial, para transformar o conteúdo lifestyle em áudio. Não era isto que estava planeado, mas a ideia era escrever e fazer rádio, portanto, está tudo certo. Por vezes, a nossa medida de sucesso está errada: o sucesso não é necessariamente uma coisa, pode ser outra. É nesse sentido que eu digo que “o meu maior falhanço foi, afinal, o meu maior sucesso”, e ainda culmina com o livro, que conta esta história toda. Se o que eu mais quero fazer da vida é escrever livros, então como é que posso dizer que todo este percurso, chamado Urbanista, foi um falhanço? Não foi, foi um sucesso.

Paula Cordeiro com o livro ‘A Vida Instagramável’ / Fotografia: Aline Macedo
Numa live do Instagram disseste que as pessoas tendem a partilhar as suas imagens por vários motivos, entre eles, para aumentar a sua autoestima. Não é, na tua opinião, irónico que o que procuramos fazer por prazer se torne numa coisa negativa para a nossa própria autoestima?

É absolutamente irónico e até masoquista, mas nós não resistimos a esse estímulo de dopamina que os likes nos dão. Nós sabemos que aquilo é uma roleta russa: publicamos a fotografia e pode correr muito bem ou pode correr assim-assim. Mas arriscamos, da mesma forma que compramos raspadinhas e jogamos na lotaria, porque, quando corre bem, a tal libertação de dopamina é tão intensa que acaba por compensar quando nos faz sentir mal. O problema é quando nos começa a fazer sentir mal muitas vezes, não nos damos conta que isso está a acontecer e nos deixamos ir na onda.

Também na mesma live, fizeste uma analogia entre as redes sociais e os cafés. Achas que as redes sociais tendem a ser uns ‘novos cafés’?

Vou usar uma comparação que fiz numa outra live [risos]. Essa do café tem a ver com uma outra questão, de as pessoas enviarem-nos mensagens do nada, com uma fotografia que publicaram no feed. Não nos seguimos, portanto, enviam-me a fotografia para quê? Para deixar um like? Exemplifica! Tu não te sentas à mesa de outra pessoa sem lhe dizer nada, ela fica sem saber o que fazer. Mas numa outra live, eu comparei o Instagram ao recreio dos adultos, porque nós, tal como no recreio, vemos a vida dos outros, comentamos a vida dos outros, falamos uns com os outros, mostramos quem somos. É uma espécie de recreio virtual para adultos. E, voltando à questão da mesa do café, se pensarmos nisto de uma perspetiva mais alargada, pode ser uma comparação interessante, porque a nossa esfera pública é uma esfera digital. Na esfera digital temos diferentes tipos de cafés: o Twitter é um tasco onde o pessoal vai beber uma jola ao fim do dia e falar mal do Governo; o Instagram é aquela esplanada toda bonita onde servem um latte e ai de alguém que fale mais alto; e o Facebook é uma espécie de cantina da escola, está tudo lá, numa barulheira doida.

Que comportamentos específicos mais te marcaram na tua experiência no Instagram?

As pessoas fazem o que o algoritmo lhes diz para fazerem. Ele diz-nos que temos de nos relacionar uns com os outros. Então, um comportamento muito comum é passares por perfis semelhantes ao teu, deixares um like e um comentariozinho simpático e esperar que a magia aconteça: que a pessoa regresse e faça o mesmo. É o chamado Like For Like. Outro comportamento que me irrita solenemente, mas que faz parte da nossa hipocrisia social, é seguires pessoas por educação, e se deixas de a seguir porque o seu conteúdo não te interessa, também te deixa de seguir. Nós só nos seguimos mutuamente, não porque o conteúdo interessa, mas porque nos começámos a seguir e agora não podemos deixar, é como uma prisão. Temos de seguir pessoas que acrescentem alguma coisa ao nosso dia, que tenham valor para nós. Durante o período da experiência, eu fiz Follow For Follow. E agora ir lá tirar aquele follow? Eu deixo de seguir quando o conteúdo não me interessa, mas dizer isto às pessoas é muito complicado. É aquela paz podre. Há, aliás, pessoas que têm na sua bio que, se me fazes unfollow, também te faço unfollow. Eu acho assustador, não quero seguir pessoas que fazem isto.

Paula Cordeiro / Fotografia: Aline Macedo
Quais foram as maiores lições que, se voltasses ao início da experiência, talvez te pudessem ter dado jeito?

Sabendo o que sei hoje, não teria feito a experiência [risos], porque dá mesmo muito trabalho. Mas eu vou dar uns conselhos práticos para quem quer começar ou já começou e não está a ter resultados. O primeiro deles é a coerência. É fundamental. As pessoas pensam que têm de chegar a muita gente, mas não podemos agradar a gregos e a troianos. A audiência é deixar likes e fazer comentários que não descrevem nada. A comunidade é uma evolução da audiência porque é um conjunto de pessoas que se envolvem e participam, acrescentam algo e conversam entre si a propósito do que foi publicado ou do que já se está a desenvolver nos comentários. No geral, os comentários partilham a sua própria experiência, ou dão outras pistas e outras direções. Portanto, se quisermos ter uma comunidade, temos de falar para um grupo específico de pessoas, elas dividem-se por áreas de interesse e gostos pessoais. Trata-se de pegar naquilo que é o nosso gosto pessoal e partilhar isso com o mundo. Os influenciadores que fazem apresentação de montras digitais vão cair em desgraça. Há sempre espaço para essas pessoas, não há é muito espaço para mais pessoas dessas. Em segundo lugar, a regularidade, definir um ritmo de publicação para habituar os nossos seguidores, em coerência com o nosso estilo editorial. Portanto, se eu apelo ao minimalismo, não vou encher os stories a ponto de ficarem só pontinhos, é uma abordagem muito pouco minimalista [risos]. Estas são as coisas mais importantes, seguidas de um terceiro que é determinante: a autenticidade, sermos verdadeiros naquilo que estamos a fazer e darmos de nós ao outro é meio caminho andando para algum sucesso.

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