Princípio, Meio e Fim
Fotografia: SIC / Divulgação

Crítica. ‘Princípio, Meio e Fim’ é uma ode à criatividade

O mais recente projeto de Bruno Nogueira, Princípio, Meio e Fim estreou na noite de domingo (12), na programação noturna da SIC e, pelo que se pôde ver deste episódio, parece ser mais uma aposta acertada do humorista português. 

Com uma premissa que, à primeira vista, até parece confusa, Princípio, Meio e Fim é uma ode à criatividade artística e do melhor que se fez no campo da ficção portuguesa nos últimos tempos. 

O episódio começa com Bruno Nogueira a caminhar sozinho numa floresta enquanto vai explicando o conceito deste seu novo trabalho, numa voz-off digna de um trailer. Vestido com uma macacão com tons azuis acinzentados, Bruno diz que esta nova série vai começar com ele e com os seus parceiros de escrita Nuno Markl, Salvador Martinha e Filipe Melo, quatro amigos de longa data, numa sala. Têm apenas duas horas para escrever o guião do que vamos ver a seguir, interpretado por Albano Jerónimo, Nuno Lopes, Rita Cabaço, Jéssica Athayde e o próprio Bruno Nogueira, com alguns convidados à mistura. Nem mais um minuto, nem mais um segundo. 

O programa, como o nome indica, mostra-nos algo que é pouco visto, não só em Portugal, porque nesse caso não é mesmo visto de nenhuma maneira, como no estrangeiro. O início do episódio que ainda não começamos a ver mas que, de certa maneira, já estamos a assistir é cheio de caos, mostrando a pré-produção desse mesmo episódio. O momento em que os quatros amigos se juntam para escrever, enquanto vão sendo distraídos por obstáculos humanos contratados pela produção, é brilhante. Uma das muitas barreiras que o programa quebra ao longo dos seus rápidos 60 minutos é esta. 

Audiências - Princípio, Meio e Fim
SIC/Divulgação

Todos vestidos com macacões, a fazer lembrar mecânicos, os quatro vão construindo a história com rapidez, ansiedade e genialidade, não fossem eles quatro das mais talentosas figuras da comédia portuguesa. As regras da narrativa, o seu princípio, meio e fim, não são propriamente respeitadas mas ninguém quer saber disso, muito menos quem faz o programa. Desde o início que é aparentado que vamos ver algo que nunca foi feito e é pedido ao espetador para suportar o caos que vai ser mostrado, ainda que de forma metafórica. 

O ambiente criado pelos quatro ainda nos primeiros 20 minutos de programa, o tempo que é mostrada a escrita do guião do tal episódio que ainda não começou, é desconcertante e tenso, com cada um a assumir um papel metafórico. Bruno Nogueira toma as rédeas da coisa, aparentando ser um líder que não existe; Filipe Melo mostra-se desconfortável ali no meio, dizendo várias vezes que aquilo não é a sua praia; Nuno Markl dá uns toques de pop culture e é dele que saiu a ideia dos portais usada no episódio, numa referência ao clássico Poltergeist; já Salvador Martinha parece sempre calmo, contrastando com os berros que vão sendo ecoados por todos à medida que o tempo vai passado. Quase como um filme de guerra, mas a guerra em questão é a escrita de um argumento

20 minutos depois, o episódio começa sem as apresentações das personagens e das suas histórias, já que elas nos foram dadas enquanto a câmera flutuava entre as divisões da casa num dos primeiros momentos do programa. Temos Paulo, Stone, Maria João, Luís Henrique e Francisca, cinco amigos que, todos os episódios, se vão sentar numa mesa e falar e atuar, debitando o guião escrito no início de cada programa. O conceito do programa fica oficialmente claro para quem ainda estava confuso e, depois desta clarificação mental de cada um, a viagem até ao episódio é selvagem, caótica, sem qualquer tipo de sentido. 

Neste momento, são os atores que aumentam ainda mais a genialidade deste mesmo programa. Eles vão debitando o diálogo do guião tal e como ele é, sem mudar uma única vírgula. E é aqui que outras barreiras das regras narrativas normais para séries começam a ser quebradas, ainda mais. A falta de lógica, os erros de continuidade, a defeituosidade de toda a coisa é terrível e irritante para quem esteja habituado à perfeição de uma série dita “normal”. Princípio, Meio e Fim parece um produto totalmente inacabado e essa é a beleza de tudo isto. 

Fotografia: SIC / Divulgação

Bruno Nogueira e companhia fazem questão de nos deixar sem chão, como se estivéssemos numa piscina bastante funda sem saber nadar. Não existe uma mensagem, não existe moral, não existe um desfecho concreto para a história. A lógica de tudo é inexistente mas, por algum motivo, é tudo tão bom. As personagens gritam de forma escandalosa, fazem referências sem qualquer sentido, dizem frases mais confusas ainda (algumas delas com palavras que nem existem) e tudo isto é mostrado de forma incrivelmente natural. 

Talvez a ideia para a série seja mostrar como toda a produção de um programa é feita. Vemos os escritores no seu brainstorming, a conversa com a realizadora e produtora e as dificuldades em conseguir dirigir alguns aspetos da história, vemos o episódio em si já feito e editado e depois acabamos com um clássico conjunto de imagens de gravações que correram mal. A quarta parede não existe e, ao mesmo tempo, nunca esteve tão bem construída. Nós estamos ali mesmo ao lado, mas acabamos por estar tão longe. 

Princípio, Meio e Fim é absurdo do início ao fim, quase como se alguém nunca tivesse feito algo assim porque a ideia em si é estapafúrdia e ridícula mas, no final, resulta tão bem que é de louvar a aposta da SIC em algo tão arriscado e promete ser um sucesso. É criação de arte sem barreiras, com defeitos e sem medo de falhar, que é tudo o que arte em si deveria ser. Se a vida em si não é perfeita porque é que a arte tem obrigatoriamente de o ser?

Princípio, Meio e Fim
Fotografia: SIC / Divulgação
Princípio, Meio e Fim
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