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Fotografia: Reprodução/BBC

Morreu o príncipe Philip. Como a BBC se prepara para anunciar a morte de um monarca

O final da manhã desta sexta-feira, 9 de abril, trouxe aos britânicos notícias que pararam o país. Morreu o príncipe Philip, marido da rainha Elizabeth II, aos 99 anos. O anúncio em televisão, no entanto, não precisou da habitual azáfama de uma notícia de última hora, fruto da preparação singular da BBC, estação pública no Reino Unido, para a cobertura da morte de um monarca.

A morte do príncipe consorte foi primeiro anunciada nas redes sociais pela Família Real, através do Twitter. A partir daqui, podia ser produto de ficção, mas trata-se de pura realidade: três minutos depois, na BBC News, canal de notícias, a jornalista Martine Croxall entrava em direto no noticiário que já estava a apresentar com uma total mudança de registo, para, em tom de luto, anunciar de imediato a morte.

Enquanto repetia a informação, com imagens do Duque de Edimburgo no ecrã, a pivô, que tinha vestida uma blusa castanha e um colar dourado, removeu o acessório e vestiu um casaco negro. Em cinco minutos, interrompia-se a emissão na BBC One com um separador cinzento, com a jornalista a iniciar o relato no principal canal da emissora já com uma roupa diferente da que tinha vestida momentos antes.

Este procedimento, que pode espantar pela sua eficácia, não foi criado em tempo real. Faz parte de uma preparação intensiva realizada pela BBC para o anúncio da morte de um alto membro da realeza britânica, que inclui um conjunto de regras e momentos preparados previamente e de forma contínua, de forma a assegurar uma cobertura sóbria e completa do acontecimento.

As mortes de categoria um

A ativação deste extenso protocolo surge aquando do falecimento de qualquer um dos quatro dos principais membros da Família Real, considerados a Categoria Um – a rainha Elizabeth II, o príncipe Philip, o príncipe Carlos e o príncipe William. Restantes membros, como o príncipe Harry, ficam numa lista de Outros Notáveis, ao lado de outras figuras de estado e de geral relevância no Reino Unido e no mundo.

Esta lista permite preparar a importância e espaço a atribuir à cobertura de uma morte de alguém com este estatuto. Com a morte de um real pertencente a esta categoria primária, está prevista a interrupção imediata da emissão nos principais canal da BBCOne Two, e no canal de notícias, com um anúncio oficial baseado numa declaração oficial do Palácio de Buckingham.

O discurso a ser proferido é oficializado e tem de ser respeitado no momento, com atenção detalhada às palavras previamente combinadas. Depois de um cartão de anúncio em tons de cinzento, o pivô em serviço cumpre o guião: “Está a ver a BBC News a partir de Londres”, lendo e repetindo o comunicado oficial numa voz calma, com a imagem depois a escurecer para tocar o hino nacional sobre uma foto do monarca falecido.

O protocolo foi seguido à risca para o anúncio da morte do príncipe Philip, que vinha a ser preparada sob o nome de código Operation Forth Bridge:

Existem ainda outros procedimentos planeados, ativados esta sexta-feira. As estações de rádio da BBC pararam a sua emissão de imediato, para transmitir em simultâneo as notícias. Ao longo da tarde de sexta, as rádios que transmitem música estão apenas a passar instrumentais entre blocos de notícias.

Os canais principais da emissora suspenderam toda a programação de entretenimento, com especial foco na interrupção dos programas de caráter humorístico, para assegurar uma emissão contínua.

Um alerta por todo o país, em todos os media, com jornalistas em preparação constante

O mesmo aconteceu com outras televisões e rádios, que rapidamente suspenderam ou atrasaram a sua programação habitual para respeitar a morte do monarca. Nas rádios, estações como a Capital FM mudaram totalmente o alinhamento musical das suas rádios para temas menos agitados; segundo o The Guardian, as estações comerciais de rádio no Reino Unido têm já preparada uma estratégia para agir de imediato: os estúdios têm uma luz azul indicadora de óbito, regularmente testada, que serve para alertar os locutores de uma morte relevante, para que alterem as suas escolhas para música considerada inofensiva.

No caso da morte da rainha Elizabeth II, os procedimentos serão a ser ainda mais extensos e chegam para ativar o RATS (radio alert transmission system) nos estúdios da BBC. Outros órgãos de comunicação, como o Guardian, têm múltiplos artigos planeados para ser elaborados, ou o The Times, que diz ter preparados 11 dias de cobertura já de antemão. Em canais de televisão como a Sky News, há mesmo contratos assinados com especialistas na realeza para falar exclusivamente para essas estações sobre a morte do monarca em questão.

No caso da BBC, sendo a emissora pública do país, a intensidade aumenta e é treinada pelos jornalistas e equipas durante anos para que nada falhe no momento certo. Uma preparação que se mantém constante nos dias de hoje, já vem a ser posta em prática ao longo de várias décadas. Os pivôs têm, até, roupas em tons escuros sempre preparadas para uma rápida mudança em caso de um acontecimento destes.

No livro On Royalty, Jeremy Paxman, veterano jornalista da BBCexplica que nas décadas de 1970 e 1980 vários jornalistas tinham treinos semestrais ao fim de semana para praticar a cobertura da morte da mãe da rainha Elizabeth II. Conta que “repórteres iam para corredores vazios e parques de automóveis, para fingir que estavam no Palácio de Buckingham, no Palácio de St. James ou na Clarence House”, trabalhando sobre um cenário fictício.

No caso do príncipe Philip, tal como acontecerá para a rainha Elizabeth II, há canais de entretenimento suspensos a direcionar para as notícias da BBC. Em 1952, na morte de George VI, a BBC esteve em silêncio durante cinco horas após o anúncio.

Os tempos agora são outros, de informação constante, mas o procedimento dos britânicos é idêntico: o anúncio continua a surgir na televisão e na rádio, os meios tradicionais, de forma instantânea. Com um ambiente de luto generalizado e sentimento de emergência nacional, o objetivo é honrar a realeza, respeitar o momento e a identidade nacional, a preceder o período de luto até ao funeral daquelas que são, independentemente dos contornos, as mais altas figuras na sociedade britânica.

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