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Madrid, 2020. | Fotografia: João Porfírio

Reportagem. Os perigos inerentes ao exercício do jornalismo

Uma conversa com os jornalistas João Porfírio e Elmano Madaíl sobre os perigos voluntários da sua profissão

Quando o jornalista é ameaçado, a democracia é ameaçada. Mas estas ameaças nem sempre são previsíveis – por vezes, os jornalistas enfrentam riscos inerentes do exercício da sua profissão, e para os quais se voluntariam.

Nesse sentido, o Espalha-Factos procurou falar com jornalistas que estiveram e têm estado em terra minada de ameaças que possam comprometer a sua integridade (física e psicológica), bem como o exercício da liberdade de imprensa que temos como valor fundamental em Portugal.

Em outubro de 2020, no Espalha-Factos, celebrámos o Dia das Nações Unidas com uma menção àqueles que arriscam as suas vidas para nos trazer informação leal e fidedigna. Dizíamos, então:

Os dados são claros: na última década, 894 jornalistas foram mortos em todo o mundo. Em 2019, foram 56; em 2018, 99. De acordo com a UNESCO, 61% destes profissionais faleceram em países onde não há um conflito declarado – mostrando que o conflito não é motivo principal nem único para que estas mortes tenham sucedido.

A 2 de novembro de 2013, as Nações Unidas declararam o Dia Internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes contra os Jornalistas, data que se juntaria ao já existente Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, celebrado a 3 de maio desde 1993.

O crime versus o risco

Os crimes contra os jornalistas aumentaram nos últimos anos, o que torna evidente que a nossa democracia (ou aquilo que aceitamos como sendo a democracia, na maior parte do mundo) está em ameaça. Mas esta ameaça não se mostra apenas através da ultima ratio de silêncio dos mensageiros, e nem sempre falamos de perigos involuntários quando falamos do trabalho de jornalistas destacados para investigar, relatar, fotografar determinados fenómenos.

O exercício do jornalismo que não se circunscreva à secretária e à reedição de comunicados de imprensa ou dos factóides gerados pelas redes sociais é, por inerência, uma situação perigosa. Isto porque o jornalismo de facto tende sempre a ser incómodo para alguém (good news are no news…), seja pessoa ou instituição, cuja reação menos urbana poderá resultar em danos (físicos, emocionais, patrimoniais ou reputacionais) para o autor do trabalho.

São palavras de Elmano Madaíl, ex-jornalista no Jornal de Notícias, que ressalva a raridade destas situações, para nossa felicidade, em Portugal.

Importa-nos, então, entender os perigos a que os jornalistas se sujeitam, voluntariamente, para o exercício da sua profissão, e em nome do interesse público a que a profissão os subjaz – e, por isso, procurámos falar com aqueles que estiveram no terreno e que guardam as recordações felizes e infelizes daquilo que fazem com caderno e caneta ou com uma câmara fotográfica.

O destaque para a exposição a situações de perigo

Antes de seguir viagem até às memórias audíveis de Elmano Madaíl no Afeganistão ou para as chamas a que João Porfírio, fotojornalista no Jornal Observador, escapou em Pedrógão-Grande, parámos para perguntar como funciona o processo de destaque dos jornalistas, numa redação, para exposição a situações que possam colocar em causa os seus direitos (a integridade física, em primeira mão).

Ninguém obriga ninguém, em redação nenhuma do país (espero eu, pelo menos na minha), a ir cobrir um incêndio, a ir cobrir uma tragédia seja ela qual for, ninguém obriga ninguém a ir e ninguém exclui ninguém de ir.”, diz-nos o fotojornalista. Constituindo um ato voluntário por parte dos jornalistas, que conhecem (ou devem conhecer) dos riscos a que se irão submeter, deverão então surgir motivos que os levem a manifestar a sua vontade.

Para Elmano Madaíl, são três: “(…) por um lado, a percepção de poder testemunhar circunstâncias extraordinárias e fora do alcance da esmagadora maioria das pessoas; por outro lado, por se tratar de uma oportunidade de fazer reportagem em situações limite, o que é cada vez mais raro e consubstancia o género mais nobre do jornalismo; por fim, porque são ocasiões em que a vida ganha um sentido acrescido (também pelas descargas brutais de adrenalina, uma droga natural, rara, poderosíssima e altamente aditiva) e nos resgata da rotina que envenena e mata lentamente – enquanto profissionais e enquanto pessoas.”

“Os Diretores têm a sensibilidade de escolher as pessoas que estão disponíveis para fazer um trabalho desses, que pode trazer consequências físicas, (esperemos que não aconteça), mas consequências psicológicas também.”, esclarece Porfírio. Num tom mais introspetivo, exemplifica:

Fazer [a reportagem d]os incêndios de Pedrógão Grande durante 9 dias é duro. Ir para dentro de um lar de idosos com infetados é duro – não veem os familiares há meses. É bastante duro ir para uma unidade de cuidados intensivos onde pessoas morrem, muitas vezes, algumas recuperam, mas há casos em que pessoas morrem, onde tu vês o limite humano no seu limite, passo a redundância. Chega-se a casa e, falando em calão, bate; tu és humano, há coisas em que tu pensas e coisas que te fazem mexer e que te fazem sentir.

Os jornalistas destacados fazem as malas (ou, se não forem longe, pegam no material) e saem à rua para trazer conteúdo a todos aqueles que (especialmente hoje) anseiam por, no conforto da sua casa.

Médio Oriente, 2001

Elmano Madaíl esteve, em 2001, no Afeganistão, e recorda uma viagem conturbada no norte do país: “Da minha experiência – escassa, porque em Portugal o denominado “jornalismo de guerra” é, salvo honrosas excepções, um exercício diletante ou promocional – recordo a viagem num jipe de fabrico soviético entre duas aldeias, tão recônditas que os mapas nem sequer lhes assinalam a existência. A bordo, além de mim, que partilhava os bancos traseiros do jipe espartano com a bagagem, seguia Patrick Robert, fotojornalista francês da agência Sygma/Corbis, veterano de múltiplas guerras e membro por direito próprio da elite do fotojornalismo internacional, ao lado do motorista, um afegão palavroso que também era o nosso tradutor apesar do seu inglês tíbio, e que, em meio século de vida (ou mais…) nunca tinha conhecido a paz no próprio país.

Depois de horas em viagem nas montanhas, “sobreveio o crepúsculo, o qual deixou o motorista em alvoroço“, para espanto dos jornalistas que seguiam também no jipe. “[A] resposta chegou quando caiu a noite mais cristalina – de uma pureza jurássica, a qual só tornei a ver no deserto de Wadi Rum e numa praia abençoada de Inhambane – alumiada pelo luar que recortava tudo num azul irreal. Do nada, quebrando a modorra, o Patrick anunciou, num tom calmo, quase apático, lúgubre até, e naquele inglês cheio de requebros que os franceses costumam usar: “Oh, I think I saw a bullet flying”.” (Oh, acho que vi uma bala a voar.“)

O relato segue: “Eu, que ia no banco traseiro, julguei ter ouvido mal e, quando ia pedir-lhe que repetisse, aconteceu um som semelhante ao da chuva grossa em telhado de zinco. Primeiro um, depois outro, e logo o pesado tamborilar se multiplicou. Estávamos a ser alvo de uma emboscada pelos talibãs acoitados nas montanhas que ladeavam a estrada. Uma aflição, que manifestei no vernáculo mais genuíno – as preces dos agnósticos, consta. O motorista, com a experiência do hábito, desligou os faróis e, numa série frenética de arranques e travagens a fundo, gerou uma nuvem densa de pó à nossa volta enquanto ouvíamos o matraquear metálico das AK-47 invisíveis. Quando entendeu que a camuflagem seria suficiente, o experiente afegão arrancou dali para fora numa brida, sem ter outra luz para lhe alumiar o caminho que não a do luar azul e conduzindo por instinto numa estrada de pó fino ladeada por uma parede de pedra e na margem de um precipício. Dentro do jipe sacudido pelos solavancos, o afegão, com o nariz colado ao pára-brisas coberto de pó, multiplicava os braços em manobras de pilotagem suicida enquanto eu procurava agarrar-me ao banco e evitar o colapso cardíaco. O Patrick seguia esfíngico, tão quieto naquela circunstância angustiante que, por momentos, temi que tivesse sido atingido. Não tinha. Quando o motorista parou finalmente, 10 longos e agitadíssimos minutos depois – ou teria sido menos? Em qualquer dos casos, uma eternidade… –, para verificarmos os estragos (a chapa grossa do veículo soviético estava crivada, mas só dois ou três projecteis tinham conseguido furá-la e sem dano para o motor ou para os ocupantes) é que o Patrick falou, finalmente, depois de lhe perguntar como era possível estar tão calmo naquelas circunstâncias: “If a bullet has your name, it will find you, no matter what. Because if you have to die, you will die. So, there is nothing you can do about it”.” (“Se uma bala tem o teu nome, vai encontrar-te, não importa como. Porque se tens de morrer, vais morrer. Não há nada que possas fazer acerca disso.“)

O jornalista confessa ter ficado “atónito” a encarar o colega, “aquele homem tranquilo que estava em serviço pela nona vez no Afeganistão (a incursão inaugural remontava à década de 1980), e declarou não ter acreditado no que classificou como “filosofia de bravata“, parecendo-lhe que, “com a adrenalina no auge, temperada por três cigarros paquistaneses saturados de alcatrão e queimados sem intervalo, (…) a sanidade do fotojornalista tinha ficado irremediavelmente comprometida no tiroteio“. De modo que só o percebi completamente quando vi a fotorreportagem dele na Times documentando  a tomada de Cabul“, concluiu o jornalista:

Nenhuma daquelas balas tinha sido crismada com o nome dele – o que só aconteceria na Libéria, em 2003, quando foi atingido nas costas e teve de fazer uma transfusão de sangue ali mesmo para sobreviver.”

Robert e Madaíl voltaram a encontrar-se em Bagdade, em 2003, que, confessa o jornalista, “implicou alguns riscos, quiçá maiores, uma vez que a cidade fervilhava, com cadáveres inchados na rua que ninguém ousava levantar, as pilhagens de hospitais e paióis – e havia obuses espalhados na via pública… –, a abertura indiscriminada das cadeias que libertou assassinos sociopatas, os tiroteios cegos da guerrilha urbana permanente, as surtidas vingativas e bárbaras dos xiitas sobre tudo o que sugerisse ser sunita, e a resistência absurda de alguns fiéis do regime, tudo contribuindo, e ao mesmo tempo e no mesmo lugar, para um quotidiano surreal e desvairado”.

Ainda assim, falta elencar uma cidade, já não no Médio Oriente mas no continente africano e mais a sul, que Elmano Madaíl não esquece: Joanesburgo, na África do Sul. “Ali mata-se em nome de coisa nenhuma, e percebe-se imediatamente essa dimensão violentíssima da cidade assim que lá chegamos.”

Perguntámos a Elmano Madaíl qual a contribuição, profissional e pessoal, da sua exposição aos perigos que enfrentou. Afirmou, eloquente, que “o ser humano, porque nasce inacabado, está sempre em construção – é, de resto, a cultura, no sentido antropológico, que confere humanidade à besta que somos.

E então forneceu-nos um elenco exemplificativo: “Não creio, porém, que a exposição ao perigo, enquanto que tal e por si só, contribua de forma decisiva para o profissional, mas antes o contacto com os seus pares, seja nas abordagens, seja nos recursos para fazer o trabalho (por exemplo, ficamos a perceber a importância enorme de contar com filtro de cerâmica para tornar a água potável ou de ter uma cobertura em papel de alumínio que proteja o corpo do frio noturno).

Há coisas que foram vistas e que não são publicadas, diz-nos Madaíl, “e nem dizemos a ninguém, por falta de verbo que lhes faça jus … – porque há limites éticos, e o horror não deve ser banalizado.” Para o jornalista, “sente-se uma responsabilidade acrescida“, e considera ainda que o maior perigo é “ignorar a cultura local, o que impede de perceber não só os contextos, mas, e precisamente, os sinais de perigo iminente – e, em algumas circunstâncias, de conseguir um apoio dos indígenas que poderá ser vital.”

“Fazer reportagem em situações de guerra, geralmente, não leva a cair do cavalo a caminho de Damasco – embora haja quem tenha regressado irremediavelmente perturbado, mas são casos excepcionais; no entanto, é verdade que ver crianças em lenta agonia, dilaceradas por tiros e estilhaços de granadas, num hospital salpicado de sangue e fezes, sobrelotado e impotente para lhes atenuar a dor atroz, por exemplo, induz a reflectir um bocadinho mais sobre o absurdo de certas coisas que tínhamos como prioridade, e a desprezar, quase até ao limite da misantropia, aqueles moralistas que saltitam de indignação em indignação para tentarem preencher o vácuo das suas vidinhas miseráveis. Em suma, atenuamos o sentido de posse e ficamos com menos apetência pelo, e paciência para, o fútil, diria eu.”

Pedrógão-Grande, 2017

A fotografia do senhor Manuel Nascimento, consolado pelo Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa depois de perder tudo nos incêndios devastadores de 2017, é um dos registos mais marcantes do acontecimento que devastou a floresta portuguesa e vitimou centenas de pessoas no verão do mesmo ano. O registo foi feito por João Porfírio, que durante mais de uma semana esteve no terreno.

Fotografia: Instagram / João Porfírio

Quando perguntámos a João Porfírio se alguma vez sentiu que corria perigo no exercício da sua profissão, este exemplo não ficou guardado na gaveta. “Já tive várias vezes medo, e ainda bem que tenho medo porque, se não tivesse medo, não teria parado e provavelmente teria… corrido mal.“, começou por dizer. Houve uma situação em que corri perigo, num incêndio em Monchique. Estive rodeado de fogo, eu e um senhor a quem estava a fazer reportagem, perdeu a casa e vários animais. Ficámos rodeados de fogo e tivemos de sair pela carrinha dele, no meio das chamas, de uma série de metros, com as chamas a bater nos vidros. Se o fogo entrasse no carro ou começassem a arder os pneus, nós já não sairíamos de lá.”

As consequências psicológicas são visíveis ao final do dia, e nestes cenários são vistas coisas que a audiência, do outro lado do ecrã, nunca verá. “Nos incêndios de Pedrógão, eu vi inúmeros cadáveres. Mas ninguém aí em casa precisa de ver fotografias de cadáveres. Eu vi pessoas dentro de carros que arderam completamente e essas pessoas morreram queimadas. Essas imagens não acrescentam absolutamente nada à tragédia que, por si, foi uma tragédia gigante. É o papel do jornalista também filtrar o que é de facto importante as pessoas que estão em casa saberem.

“Isso é um dos papéis mais importantes do jornalista e é o que difere o jornalista sensacionalista do jornalista que quer mostrar a realidade às pessoas. Tu para saberes que os incêndios de Pedrógão Grande foram uma das maiores tragédias dos últimos 50 anos, não precisas de ver um cadáver dentro de um carro. Não te acrescenta nada, enquanto leitora, e enquanto jornalista, para mim, não me acrescenta nada fazer essa fotografia.”

A questão do sensacionalismo tem sido cada vez mais levantada em relação aos media portugueses, e as tragédias pressupõem uma especial sensibilidade para o evitar. Quando perguntámos a Elmano Madaíl se alguma vez tinha sido alvo dessas críticas, a resposta foi negativa. “Tipicamente, o sensacionalismo provém dos tablóides (aqui num sentido inclusivo e multimédia), os quais não têm vontade, e não raro, os recursos, para investir em reportagens de guerra – geralmente, aproveitam as partes macabras dos despachos das agências e reenquadram as fotos para torná-las pornográficas.”

Embora os incêndios e a popularidade da fotografia de Manuel Nascimento possam ter gerado algumas críticas a João Porfírio, o mesmo denota que essas críticas são normais quando se exerce uma profissão “de exposição pública“: “Eu tive um professor que uma vez nos disse que nós não somos figuras públicas, temos é uma profissão de exposição pública, que é diferente. Eu não quero e durmo mal só de imaginar que algum dia posso ser conhecido, mas tenho noção que sou uma pessoa com responsabilidade pública. E por isso é que o nosso trabalho é tão importante.

A pandemia da Covid-19, 2020/-

O fotojornalista publicou várias fotografias dentro do Hospital de Santa Maria, procurando a equipa jornalística destacada mostrar a realidade que encontramos nas Unidades de Cuidados Intensivos dos grandes hospitais (entretanto, a reportagem do Observador pode ser lida aqui) no combate à pandemia. A Covid-19 veio trazer ao mundo uma nova e desenvolvida visão da desinformação (e do negacionismo) nas redes sociais, e os órgãos de comunicação social foram também responsabilizados pela sua audiência.

É uma realidade que as pessoas, quando estão nos cuidados intensivos, estão ligadas a vários tubos, têm várias máquinas ligadas ao corpo, e que só por si essa imagem é bastante forte. Ter bastantes tubos a saírem do corpo para permitir que a pessoa continue viva e venha a recuperar.”, descreve. “E admito que, pessoas ao ver essas minhas fotografias, considerem que é uma imagem sensacionalista. Mas, na minha opinião, não se equipara a fazer uma fotografia de um cadáver num carro ardido.”

“Não mostrando a cara da pessoa internada nos Cuidados Intensivos, é importante mostrar às pessoas que estão em casa, na minha opinião e na opinião do Jornal que publicou as minhas fotografias, como é que os Cuidados Intensivos funcionam e que efeitos é que isso tem no corpo de uma pessoa.”, expõe o fotojornalista. É quase como se, quando não vemos, quando não temos conhecimento da gravidade das coisas, quando não as vivemos, fossemos menos conscientes. 

“Uma pessoa que está internada nos Cuidados Intensivos não está bem, não está mesmo bem. Em grande parte dos casos, pode morrer a qualquer momento. Numa pandemia e quando temos tanta desinformação, tantas notícias falsas, a circular sobre a pandemia e sobre o vírus, é importante que as pessoas vejam e que seja mostrado mesmo, quase como uma chapada de luva branca na cara das pessoas, é isto que pode acontecer se não cumpres as regras impostas. E aí tens um papel também educativo, para além do papel jornalístico.”

A ameaça à democracia norte-americana, 2020

Em entrevista com o João Pardal do Espalha-Factos, João Porfírio tinha já revelado que gostaria de fazer “um retrato” de Donald Trump. Em 2020, e embora não seja propriamente um retrato, foi destacado para cobrir a campanha eleitoral para as Eleições Presidenciais dos Estados Unidos da América, em novembro. “Como é que é fotografar um Presidente dos Estados Unidos, e o Trump em especial?”, repete. “Não tem muita diferença a fotografar um político português. Mas fotografar um dos homens mais poderosos do mundo, enquanto Presidente dos Estados Unidos da América, em contexto de campanha eleitoral, acrescenta muito mais – o político está a dar tudo para que as pessoas gostem dele e votem nele.”, menciona. No final, João Porfírio teve a oportunidade de fotografar dois Presidentes americanos de uma só vez, contando com o agora eleito Joe Biden.

“Isso [o contexto eleitoral] faz com que os políticos, em regra geral todos os que já fotografei, façam coisas e digam coisas que em situações normais, quando são eleitos, não fazem e não dizem. Por exemplo, o espetáculo que é um comício do Trump… ele atirar bonés quando entra… é um show.”

No entanto, para os jornalistas, um comício de Trump não é propriamente um paraíso, e apesar da enorme responsabilidade e orgulho por estar a cobrir um autêntico espetáculo político, a hostilidade poderá falar mais alto. “Toda a crítica que faz aos jornalistas durante todo o discurso, que é uma coisa muito vincada. Nós enquanto jornalistas, num comício do Trump, sabemos que não somos desejados ali, desde o início, porque as primeiras palavras do Trump num comício, é pedir para as pessoas olharem para nós, dizendo ‘olhem para aquelas pessoas, aquelas pessoas são fake news‘. E isso cria logo um ambiente bastante hostil à nossa presença.”

A reportagem do fotojornalista português nos EUA não passou apenas pela cobertura de comícios, mas também pelo acompanhamento dos protestos múltiplos que floresciam nos grandes centros urbanos norte-americanos. O jornalista confessa: “em algumas manifestações, senti que a coisa podia mesmo virar para o torto, a minha integridade física poderia estar em causa.

Quando é que a integridade física do jornalista está em causa?

Novembro marcou situações de tensão não só no estrangeiro, mas também em Portugal: com a evolução negativa da pandemia nos últimos meses do ano, o descontentamento de trabalhadores de vários setores, severamente afetados pelas medidas restritivas, chegou aos headlines de vários media. Um dos exemplos mais marcantes foi um dos protestos dos profissionais da restauração, no Rossio, em Lisboa.

Aqui, a tensão estendera-se aos profissionais dos media, valendo uma condenação, por parte do Sindicato dos Jornalistas, do sucedido no mesmo dia. Dos vários jornalistas que se encontravam a reportar os acontecimentos da manifestação, a equipa especialmente afetada pertencia ao Jornal Observador e, aqui, encontrávamos o nosso entrevistado João Porfírio.

Um jornalista tem um papel fundamental na defesa da democracia num país. E o que eu senti nessa manifestação, em que estavam pessoas em cima de um palco, pessoas com responsabilidades, pessoas que organizaram aquela manifestação, a chamarem aos jornalistas, e desculpa o que vou dizer, de filho da puta para cima, citando o livro de Cristina Ferreira“, pausa. “Ao ouvir aquilo, eu senti que, sobretudo, muito mais do que um ataque aos jornalistas, foi um ataque à democracia do meu país. E depois dessas agressões verbais, o tentar passar para as agressões físicas foi um balde de água fria que me jogaram para cima.

“Nós jornalistas somos as pessoas que damos voz àquelas pessoas, e se não fossem os jornalistas naquela manifestação, ninguém sabia que aquela manifestação tinha existido. Tu que estavas em casa, os teus amigos e família nunca iriam saber que aquela manifestação tinha acontecido se não fossem os jornalistas, porque são os jornalistas que escrevem os artigos, que tiram as fotografias, que fazem os diretos para as televisões, e é isso que permite que a voz daquelas pessoas seja ouvida por pessoas que estão em casa. Isso é a democracia a funcionar, e quando tentam impedir que isso aconteça, é um ataque não só aos jornalistas mas sobretudo à democracia de Portugal.”

O jornalista considera que o tempo em que vivemos, e o contexto da pandemia, poderá fazer com que as pessoas estejam mais predispostas a cometer este tipo de ações. “A conjuntura económica do país não é nada boa, devido à pandemia, e as pessoas estão desesperadas, não têm dinheiro para comer nem para pagar a renda da casa. Os tempos que vivemos agora são mais suscetíveis a que isso aconteça.

E quando é que a culpa poderá ser, puramente, sua?

Elmano Madaíl traz-nos uma história diferente: “Opto antes por olhar para a classe sem a candura perdulária corporativa que, não raro, contamina o debate. Nesse contexto, diria que, tão demasiadas vezes, falta algum discernimento e bom senso da parte dos próprios jornalistas.

Fala-nos de uma manifestação que teve a oportunidade de presenciar em Atenas, em 2010, onde a probabilidade de violência estava iminente. “Nesse cenário explosivo, o jornalista deve precaver-se para que essa possibilidade altamente provável não venha a ser impeditiva de cumprir a sua missão, que será a de informar. Assim, deve evitar embrenhar-se na multidão, porque, por um lado, lhe limita a visão ao próximo imediato, perdendo a leitura panorâmica dos acontecimentos – que será aquela que lhe permitirá uma avaliação global, logo mais pertinente, dos factos – e, por outro, coloca em risco a sua capacidade de conseguir realizar o seu mester ao ser vítima de agressão, esmagamento ou gaseamento.”

Para o jornalista, ali o profissional “sensato” procuraria um local que lhe permitisse fuga rápida no caso de violência. Conta-nos, então, os detalhes de uma outra história que viveu na Cisjordânia.Todas as sextas-feiras, a seguir às orações nas mesquitas, o povo, excitado pelas prédicas politizadas dos imãs, sai à rua para se manifestar contra os colonatos israelitas e, até, contra a existência do próprio Estado de Israel. Chamam-lhe o Dia da Raiva e, para os jovens palestinianos que ali vivem, trata-se de um ritual de afirmação – são eles os mais afoitos, que vão na frente e mais se aproximam das barreiras de betão para atirar pedras aos soldados israelitas que, invariavelmente, disparam balas de borracha e lançam granadas de gás lacrimogéneo até o ar se tornar irrespirável e as pessoas dispersarem.”

Elmano Madaíl integrava um grupo de jornalistas, cuja reportagem se focaria na Faixa de Gaza. “À hora aprazada para rumarmos à Margem Ocidental, [apareceu uma equipa de jornalistas] equipados com capacetes e coletes de kevlar“, que o jornalista revela ser equipamento de que todos dispunham, mas apenas para usar em Gaza, caso fosse necessário. “Aquele aparato colocava em risco o grupo, porque iria congregar as atenções das massas sobrexcitadas e torná-lo, muito provavelmente, alvo preferencial da sua fúria. De modo que só foram admitidos no carro depois de despirem tudo aquilo.

A regra básica é sempre a mesma: o jornalista não é notícia. É por isso que também deve pautar-se pela máxima discrição possível.”

O que falta fazer, hoje, para o respeito pelos jornalistas?

“Uma série de coisas”, é a resposta curta e assertiva de João Porfírio. “Isso é uma pergunta muito boa, mas muito difícil de responder. Que é, as pessoas considerarem que os jornalistas são, de facto, agentes de informação credível e fazem com que a nossa democracia funcione. Mas eu não sei como é que se consegue incutir isso em pessoas que consideram permanentemente que os jornalistas são pessoas que põem cá para fora notícias falsas, pessoas que estão a omitir que alguma coisa não está bem quando na verdade está (ou ao contrário).”

Aqui, o exemplo inevitável é a pandemia que continuamos a viver, após um ano. “Há milhares de pessoas que consideram que a pandemia não existe, que o vírus não existe, e a culpa é dos jornalistas, porque estamos constantemente a fazer notícias sobre isso, uma coisa que não existe.”

Embora existam leis que protegem os jornalistas, bem como entidades (não falta aqui o exemplo do Sindicato dos Jornalistas), a informação corre ao segundo e torna-se difícil esmiuçar aquilo que está a ser bem feito e o que não está.

“A nossa única arma é continuar a fazer o nosso trabalho e continuar a dizer a verdade. Não dar azo a que sejam publicadas mentiras, porque os jornalistas são humanos e todos os humanos erram e nós também erramos. Há coisas que os jornalistas fazem mal, e [devemos] tentar que essas coisas sejam evitadas ao máximo. Para não dar razão às pessoas que denigrem a nossa profissão e que querem, em última instância, agredir-nos fisicamente ou verbalmente.

As entrevistas desta reportagem foram feitas entre novembro e dezembro de 2020.

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