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Gorillaz. A história da banda virtual que continua a inovar o mundo da música

O álbum de estreia do grupo faz este mês 20 anos e, para assinalar a data, relembramos o longo percurso que os imortalizou como uma das bandas mais populares do milénio

Em março de 2001, a banda virtual britânica Gorillaz lançou o seu homónimo álbum de estreia, que os lançou para as tabelas e os estabeleceu como a banda virtual mais bem sucedida de todos os tempos pelo Guiness World Records. Singles como Clint Eastwood’, ‘19-2000′, ‘Tomorrow Comes Today’ e Rock the House’, tornaram-se clássicos instantâneos do grupo, e até da cultura pop.

Este foi apenas o início de uma carreira cheia de conquistas e inovações artísticas. O trabalho de Gorillaz tem uma forte presença no mundo da música, conquistando a crítica e uma grande legião de fãs. Mas o que separa esta banda de qualquer outra banda pop?

Em 1997 num apartamento em Londres, os dois colegas de casa Damon Albarn, vocalista da banda britpop Blur, e Jamie Hewlett, criador da banda desenhada Tank Girl, discutiam como o que viam na MTV era fabricado e vazio. Foi aí que surgiu a ideia de criar uma banda ‘falsa’ como forma de protesto à padronização presente na indústria musical.

Albarn ficou encarregue da parte musical enquanto Hewlett se encarregou da parte artística. Juntos criaram as personagens de desenho animado, que se tornariam nos membros da banda, e desenvolveram uma história de origem ficcional para cada um dos membros, até se juntarem e formarem um grupo musical. Desenhados por Hewlett, a banda é composta por quatro membros, 2-D, (voz), Murdoc Nicalls, (baixo), Russell Hobbs, (bateria), e Noodle (guitarra), e a história deles vai-se desenvolvendo à medida que os álbuns vão sendo lançados, sendo cada período de lançamento de um álbum novo, chamado de fase. Por exemplo, o período de lançamento da banda e do seu primeiro álbum, de 1997 a 2003, foi chamado Phase One – Celebrity Take Down.

Foto: Murdoc, 2-D, Noodle, e Russel na sua primeira aparição

Desde rapto a possessões demoníacas, clones robôs, prisão, e até um cruzamento com o universo da séria animada The Powerpuff Girls, a excêntrica e bizarra história dos Gorillaz deixa os fãs ansiosos para descobrir os próximos passos dos protagonistas.

No que toca ao desenvolvimento da narrativa, a banda usa os videoclipes para atualizar o espetador sobre o que está a acontecer no seu universo. Com a popularidade das redes sociais a crescer cada vez mais, cada personagem tem um perfil onde pode partilhar com o público o seu trabalho e os seus pensamentos, aumentando a sua presença para além da música.

Uma particularidade que distingue o aspeto musical da banda é a exploração de diferentes géneros musicais. Desde hip-hop a alternativo, eletrónica, pop, e até música latina, os Gorillaz não se deixam definir por um só género e são elogiados pela criatividade e variedade musical. A banda virtual foi uma oportunidade para Damon Albarn explorar a música para além do que estava habituado com a sua banda de britpop Blur.

Celebrity Take Down (1997-2003)

Em novembro de 2000, a primeira música da banda, Tomorrow Comes Today’, é lançada juntamente com um videoclipe que apresenta ao mundo os membros, ou personagens, da banda. Mais tarde, é lançado o seu primeiro álbum de estúdio, Gorillaz, que foi marcado por uma digressão de promoção do álbum um pouco diferente do costume.

Os músicos estavam completamente escondidos do público, tapados por um ecrã que passava visuais e videoclipes, mas ocasionalmente mostrando as silhuetas da banda verdadeira. Os atores que faziam as vozes das personagens também estavam presentes na digressão, falando entre músicas e interagindo com o público para criar a ilusão de estarem ali presentes. Apesar de ser um formato inovador, Hewlett e Albarn expressaram o seu descontentamento por ele. O artista gráfico comentou que o formato estava à frente do seu tempo e que ainda não havia tecnologia para o fazer resultar. Por outro lado, Albarn queixou-se da frustração de estar limitado atrás de um ecrã, comentando que nem era concebível esconder colaboradores como Lou Reed e Bobby Womack numa silhueta.

Um pequeno facto curioso sobre esta digressão chamada Gorillaz Live, é que no filme de 2002 The Powerpuff Girls Movie, pode-se ver uma pequena publicidade da digressão num jornal. Isto confirma que o universo de Gorillaz se passa no mesmo do desenho animado infantil The Powerpuff Girls, algo que se vai desenvolver mais no futuro da história da banda.

Na cerimónia de prémios Brit Awards de 2002, a banda tocou o seu êxito Clint Eastwood’ em direto, inspirando-se no formato que usavam na sua digressão, mas com um toque diferente. Foram feitos visuais 3D das personagens para criar uma ilusão mais realista da banda, que simulava a sua presença no palco. Estes visuais custaram cerca de 300 mil libras (mais de 350 mil euros).

Foto: atuação de Gorillaz nos Brit Awards em 2002

Slowboat do Hades (2003-2007)

Seguindo a estreia do seu autointitulado primeiro álbum de estúdio, os Gorillaz lançaram, em 2005, o álbum Demon Days, que não só contou com mais de 8 milhões de cópias vendidas pelo mundo, como se tornou o álbum mais popular da banda até os dias de hoje. Houve vários singles que se destacaram e popularizam como Dare’ e Dirty Harry’, mas de todos foi a música Feel Good Inc.’ que se tornou a mais popular do catálogo da banda.

Relativamente à nova digressão sob o álbum Demon Dayz em 2005/2006, Hewlett e Albarn renovaram o seu formato acabando com a tela divisora. Visuais e videoclipes continuavam a ser reproduzidos num ecrã atrás da banda, enquanto a mesma aparecia em formato de silhueta através do uso de luzes, para manter a ilusão da banda virtual. Os artistas colaboradores atuavam normalmente no palco com os típicos holofotes a iluminá-los. Em alguns concertos da tour, havia fantoches das personagens 2-D e Murdoc nos camarotes dos locais, que conversavam com o público durantes as pausas.

Foto: concerto de ‘Demon Dayz Live’ em Manchester

Atuando mais uma vez numa cerimónia de prémios, neste caso os MTV Europe Music Awards de 2005, a banda voltou a destacar-se pela sua atuação do single Feel Good Inc.’ em conjunto com o grupo de hip-hop De La Soul. Tal como a atuação dos Brit Awards, o conceito baseia-se em visuais dos membros para criar a ilusão de eles estarem presentes a atuar naquele momento, mas desta vez, a performance teve acesso a uma tecnologia de projeção de vídeo que ultrapassou por completo a performance anterior. Desta vez, a sua presença em palco não parecia simulada mas bastante real.

Em abril de 2009, foi lançado um documentário intitulado de Bananaz, que mostrava os bastidores do grupo virtual no período entre 2000 e 2006.

Escape to Plastic Beach (2008-2013)

Plastic Beach foi o terceiro álbum, lançado em março de 2010, e recetor de aclamação por parte da crítica. O tema aborda assuntos ambientais sendo fortemente inspirado na Grande Ilha de Lixo do Pacífico, e contou com a colaboração de artistas como Snoop Dogg, De La Soul, Bobby Womack, Mick Jones, Mos Def, Lou Reed, entre outros. No videoclipe de Melancholy Hill’, podemos ver versões animadas dos artistas convidados, a seguirem a banda em submarinos, a caminho de Plastic Beach. As principais músicas foram Rhinestone Eyes’, ‘Superfast Jellyfish’, On Melancholy Hill’, e Stylo’, esta última contando com um videoclipe protagonizado por Bruce Willis.

Foto: capa do álbum que mostra a mítica ilha feita de plástico

Já na sua terceira digressão Escape to Plastic Beach Tour, o conceito de esconder a banda foi abandonado por completo. Como forma de justificar estes “estranhos” no universo de Gorillaz, o anúncio que publicitava um dos concertos na 02 Arena em Londres, mostra as personagens a ser proibidas de entrar no palco, enquanto a banda verdadeira passa por eles. Uma série de vídeos curtos mostra até os personagens trancados no camarim a tenta sair, chamando a banda que está a atuar por eles uma banda de tributo e impostores.

Seguindo Plastic Beach, veio o lançamento do álbum The Fall no dia de natal de 2010.

The Fall foi gravado durante a tour Escape to Plastic Beach num espaço de 32 dias por Damon Albarn, com a particularidade de ter sido composto e gravado com um iPad. Albarn chegou até a antecipar a data de lançamento do álbum para impedir que o público especulasse que o artista teve tempo de adulterar a versão original.

Infelizmente o fim desta fase trouxe inquietação aos fãs depois de uma zanga entre os dois criadores. Hewlett expressou o seu descontentamento pela parte artística da banda não estar a ser levada tão a sério como a parte musical. Em entrevista com o The Guardian, Jamie desabafa: “O Damon tinha metade dos The Clash em palco, Bobby Womack, Mos Def, De La Soul, (…), e toda a gente. Era a melhor banda de sempre. E o ecrã na parte de trás do palco parecia ficar mais pequeno todos os dias”. Este clima de tensão gerou uma incerteza no que toca ao futuro dos Gorillaz.

We Are Still Humanz (2013-2018)

Para grande alívio dos fãs, o duo acabou por fazer as pazes, e confessou até que a zanga salvou a amizade deles a longo prazo. E assim, em 2017 lançaram o álbum Humanz, que abordava temas mais políticos como a chegada de Trump à presidência americana. As músicas mais populares foram Hallelujah Money’, Strobelite’, Let Me Out’, e Saturnz Barz’. O videoclipe de Saturn Barz’ custou cerca de 800 mil dólares (cerca de 680 mil euros), e foi produzido num formato de vídeo de 360º para o YouTube.

Depois de uma pausa de sete anos, quando o álbum Humanz foi lançado, os artistas decidiram inovar na sua forma de storytelling. Em vez de atualizar os fãs sobre o que os membros têm feito nesta longa pausa, através de videoclipes como era típico, foi através das histórias das redes sociais. Cada história foi chamada The Book of seguido do nome da personagem, onde através de texto e curtos vídeos com cerca de 5 segundos, foi mostrado o andavam a fazer nos últimos sete anos até se voltarem a reunir.

Foto: capa dos ‘livros’ das personagens

Em março de 2017, foi anunciada a realização de um festival de música de Gorillaz, chamado Demon Dayz. O festival realizou-se em junho do mesmo ano num parque de diversões em Kent, Inglaterra, com a banda como cabeça de cartaz, e concertos de outros artistas colaboradores do grupo.

No More Unicorns Anymore (2018-2019)

Apenas um ano depois de Humanz, foi lançado o seu sexto álbum, The Now Now.

Gravado durante a digressão de Humanz, The Now Now partilha o mesmo sentimento de The Fall, mas desta vez não foi gravado num iPad. Albarn pretendia recriar o conceito do álbum de 2010, mas de uma forma mais completa. Sem oportunidade de envolver mais colaboradores, as músicas centram-se maioritariamente apenas na sua voz, sendo ela e as letras o principal foco. Na mitologia de Gorillaz, The Now Now apresenta-se como uma espécie de reflexão pessoal de 2-D, o vocalista com voz emprestada de Albarn.

Foto: Noodle, Ace, 2-D e Russel em The Now Now

Antes do lançamento do álbum, o baixista Murdoc foi incriminado e emprisionado, levando à sua substituição temporária na banda por Ace, um vilão do desenho animado Powerpuff Girls. Foi então criada uma campanha, #FreeMurdoc, para tentar libertar o baixista da prisão envolvendo os fãs. Através da página de Facebook, era possível iniciar um chat interativo com o Murdoc para tentar ajudá-lo a fugir da prisão. O chat iniciado em maio de 2018, continua até outubro, e pedia ajuda ao utilizador para decifrar várias pistas sobre as esquemáticas da prisão, a razão da falsa acusação, etc. O fã recebia mensagens ocasionais ao longo desse período e no final recebia até um certificado de lealdade com o seu nome, por ter ajudado a sua fuga.

Em dezembro de 2019,  foi lançado o documentário Reject False Icons, que segue a vida da banda durante as digressões dos álbuns The Now Now e Humanz. O filme foi realizado por Denholm Hewlett, filho de Jamie Hewlett, e teve uma estreia mundial bastante exclusiva de apenas uma noite. Em Portugal, estreou no dia 16 de dezembro, numa sessão única, às 21h30, nos cinemas UCI Arrábida e UCI El Corte Inglês.

Foto: poster de ‘Reject False Icons’

Wish You Wear Ear (2019-presente)

Em vez de lançarem outro álbum, Gorillaz embarcaram num novo projeto chamado Song Machine. O projeto consiste numa webseries, onde em cada episódio é lançado uma nova música com um videoclipe e a participação de outros artistas da indústria. Para além da música, é lançado em conjunto curtos pedaços de conversa entre as personagens e os convidados, chamados Machine Bitez.

Esta primeira temporada contou com a participação de slowthai, Leee John, St. Vicent, 6lack, Peter Hokk, Gerogia, Octavian, Kano, Roxani Arias, Fatoumata Diawara, Slaves, EarthGang, Joan As Police Woman, GoldLink, Moonchild Sanelly, JPEGMafia, Chai, Tonny Allen, Skepta, ScHoolboy Q, Robert Smith, Beck, Unknown Mortal Orchestra, e Elton John.

Este formato foi criado para fugir dos típicos padrões de criação da indústria. Albarn confessou que estava farto do processo de estar a desenvolver um disco, e este novo formato dava-lhe a oportunidade de explorar novas sonoridades e artistas sem aquela pressão de conceção de um álbum. Inicialmente, a primeira temporada de Song Machine nem iria ser lançada em formato de disco, mas os criadores mudaram de ideias quando começaram a ouvir o que estava a ser produzido, e a variedade completamente distinta das músicas, que, no entanto, encaixavam harmoniosamente de uma maneira bizarra.

Visto que cada música tem um videoclipe, isto foi também uma oportunidade para Hewlett expandir os horizontes da animação da banda. Misturando muitas vezes imagens das verdadeiras gravações das músicas, dos convidados, e das personagens animadas. Devido à pandemia de Covid-19, o artista acabou por ficar sem gravações para usar. No videoclipe de The Valley of the Pagans’, com Beck, Hewlett decidiu usar o modo diretor do jogo Grand Theft Auto V, para gravar o videoclipe inteiramente no jogo, inserindo as personagens no cenário. Infelizmente o vídeo foi privatizado no YouTube depois de uma notificação de ação judicial da Rockstar Games, a empresa responsável pelo jogo. Entretanto, uma nova versão do vídeo foi lançada com o mesmo conceito, mas desta vez, fora do universo do jogo.

Foto: Gorillaz no videoclipe de ‘The Valley of the Pagans’

O conceito da primeira temporada de Song Machine foi tão bem sucedido que foi anunciada uma segunda temporada. Ainda não se sabe nada sobre a mesma, mas a data de estreia está prevista para este ano.

Desde prémios a ícones da cultura pop, os Gorillaz são, sem sombra de dúvida, uma das bandas mais influentes e marcantes do milénio. As suas inovações e exploração do mundo da música e da arte, marcaram-nos como uma das bandas mais inovadoras do mundo da música, e mesmo hoje continuam a trazer novas formas de criar ao público.

O grupo criou um verdadeiro universo alternativo para acompanhar a sua música, provando que uma banda pode ser muito mais do o típico som e concertos.

Acumulando mais de 20 anos de uma carreira cheia de sucesso, ninguém sabe o que o futuro lhes reserva, mas o público aguarda ansiosamente pelos seus próximos passos.

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