Audiofilia

Contagiado pela Audiofilia. A realidade de um amante de música

Segundo o Priberam,  a audiofilia  é o “forte interesse ou entusiasmo pela reprodução de som de alta qualidade e especialmente por aparelhos de som de alta fidelidade.” O Espalha-Factos esteve à conversa com Jorge Silva, de 55 anos, que se identifica como um verdadeiro audiófilo. A quantidade de aparelhos eletrónicos em sua casa confirma-o. Acompanha a evolução da música desde cedo, pelo que o streaming não o cativa. Afinal, como era a vida dos amantes de música há décadas atrás e que pensam eles das soluções atuais?

Jorge Silva tem 55 anos e ama a música desde que se lembra de existir. Começou por ouvir o mesmo que os pais – neste caso, as músicas que o regime ditatorial autorizava. Aos poucos, depois do 25 de abril de 1974, também a música beneficiou da liberdade. Haviam vários artistas internacionais cuja existência era totalmente desconhecida para os portugueses. A chegada dos primeiros álbuns importados e irreverentes veio revolucionar aquilo que, para muitos como Jorge, era a música. Só a partir daí conseguiram senti-la e prezá-la devidamente. Desta paixão surgiu a vontade de fazer ecoar os sons a todo o instante.

A liberdade auditiva

Enquanto crianças, a música era um fenómeno praticamente secundário: “nós ouvíamos a música como os nossos pais a ouviam, aprendemos assim a gostar de ouvir música, mas não eram as músicas que nós queríamos ouvir.” O regime ditatorial não permitia nem que passassem na rádio, nem que fossem importados discos. Não tinham acesso a outro tipo de música que não as que o regime permitia: “95% era música popular portuguesa e o pouco que se ouvia de estrangeiro seriam os Beatles, porque a censura deixava passar”, relembra Jorge. Só depois do 25 de abril é que os adolescentes tiveram os seus horizontes alargados no que à cultura musical dizia respeito.

Música para os seus ouvidos

Quando começámos a poder ouvir música com qualidade de som, esta adquiriu uma relevância completamente diferente da que tinha até então, e foi fundamental para o nosso desenvolvimento.

A rádio começou a emitir músicas nunca antes ouvidas em Portugal, cuja existência era desconhecida para a maioria. “Os locutores da época foram os primeiros a abrir-nos as portas a esse mundo novo, dando a conhecer as novidades que apareciam em matéria de som”, recorda Jorge. Foi a partir daqui que o poder da rádio se fez sentir. Os sons “que vinham lá de fora” traziam consigo um novo mundo. Cada vez mais pessoas alcançavam a condição económica necessária para ouvir música, o que colocou as lojas de discos num pedestal. Esta nova paragem obrigatória ficou para sempre associada a uma emancipação.

 

Surge o conceito de Hifi – alta fidelidade –, que, no fundo, garantia uma melhor experiência auditiva ao manter-se mais fiel ao som real: “Era completamente fascinante para nós, porque estávamos habituados a ouvir o som a sair de um equipamento roufenho, em mono, e passámos a ouvir a música em estéreo, o que dá uma sensação espacial à música completamente diferente.” Este foi um dos ajustes que motivaram a paixão pela música. Jorge não se inibe de o elogiar: “Poder ouvir em estéreo as nossas bandas era talvez o sonho mais importante de qualquer adolescente. Era como se fossemos autenticamente transportados para um concerto da banda. Só consigo encontrar paralelo no dia em que nós deixámos de ver televisão a preto e branco e passámos a ver a cores.”

Consoante a nossa paixão pela música e pelo som, nós tentámos montar as nossas próprias aparelhagens.”

O novo gosto pela música fez aparecer as aparelhagens, conjuntos de aparelhos necessários para a reprodução e gravação de som. Só no final dos anos 70 é que parte da classe média portuguesa conseguiu ter capacidade económica para adquirir uma aparelhagem. Como, até então, poucos aderiam a esta moda, quase nenhuma marca apostava no nosso mercado. Assim, a reduzida oferta que existia era de custo muito elevado e não estava ao alcance de qualquer um. “A aparelhagem mais barata de que eu me lembro, digna de ser chamada aparelhagem, custava , no final dos anos 70, o equivalente a 400/450€. E estamos a falar de um tempo onde isso representava, aproximadamente, três ordenados mínimos”, elucida Jorge, que não esquece o esforço necessário para satisfazer esta vontade.

Mas o que compunha uma aparelhagem?

Móvel da aparelhagem

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Os aparelhos ficavam apoiados no chamado “móvel da aparelhagem”, um móvel de madeira com rodas, para que pudessem, teoricamente, “andar com a aparelhagem para todo o lado.” No entanto, com o desenvolvimento de novos aparelhos, o conceito de aparelhagem móvel “deixou de fazer sentido, porque não havia móvel que levasse tantos equipamentos como aqueles que nós sentíamos necessários para ouvir a música.”

Colunas

Era necessário um par de colunas de, à partida, 40 watts. Claro que, quando se deu um upgrade para aparelhos mais caros em termos de amplificação e de filtragem do som, surgiu a necessidade de “ter colunas à altura”, com maior potência e melhor qualidade: “As colunas passaram a ser quase tão importantes como tudo o resto – e não eram. Até então, qualquer tipo de coluna servia.” A partir daqui, refere Jorge, “um par de colunas podia custar mais do que uma aparelhagem inteira, das normais.”

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Rádio

Originalmente, muitas aparelhagens continham um rádio, sendo que passou a ouvir-se mais em FM (frequência modulada) e não tanto em AM (onda média).

Leitor de cassetes/Deck

Um leitor de cassetes – ou deck, como lhe chamavam – era essencial para a reprodução do som oriundo destas caixinhas com fita castanha, que surgiram nos anos 70. Estes começaram por ser leitores de cassetes únicos, oferecendo a possibilidade de ouvir e gravar a cassete, tendo depois surgido decks duplos, que introduziram a possibilidade de gravar de uma cassete para outra, reproduzindo-as. Isto foi importante para Jorge, pois era a maneira que tinham “de partilhar a música uns com os outros.” Hoje em dia, “as cassetes desapareceram” e Jorge acredita que “não vão voltar a ser opção, porque se degradam com uma facilidade incrível e com muito menor qualidade de som.”

Gira-discos

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O gira-discos era o equipamento que permitia a reprodução dos discos de vinil. Equipado com um prato e uma agulha com um diamante na ponta, podia ler discos de dois tamanhos: o maior, designado por LP, e mais conhecido por álbum, com várias faixas, ou o menor, o single, que, por norma, tinha uma faixa de cada lado. “Um single já era um esforço financeiro para um adolescente, na altura. Um LP, isso então… Só quando fiz 14 anos, 5 anos depois do 25 de Abril, é que alguém teve poder de compra suficiente para adquirir um álbum para me oferecer como prenda de aniversário”, explica Jorge.

Amplificador

O amplificador era, no fundo, o que estabelecia a ligação de todos os equipamentos de som às colunas, como, por exemplo, os gira-discos.

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Música no coração

De acordo com Jorge, depois de a posse de um equipamento de som se tornar mais comum, “começaram a surgir dois tipos de pessoa”, sendo que, inicialmente, explica, era a cor das aparelhagens que as distinguia: quase todos tinham equipamentos prateados. Quando começaram a surgir aparelhagens em tom escuro, traçou-se a linha entre aqueles que gostavam de ouvir música e aqueles que nunca estavam satisfeitos com a qualidade da mesma. Os equipamentos em tom escuro “eram mais caros e tinham melhor qualidade de som, mais potentes, com mais filtros.” Assim, era ao enveredarem pelo investimento nesta atualização que os audiófilos se desenvolviam.

Mesa de mistura

Um dos equipamentos que se juntava à aparelhagem mais complexa dos audiófilos eram as mesas de mistura, comuns nas discotecas. Ao observarem as suas funcionalidades, entenderam que este objeto lhes permitia “fazer a transição entre músicas sem cortar, ou seja, a ouvir os últimos acordes de uma música, já estávamos a ouvir os primeiros da seguinte.”

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Equalizador

Para os mais meticulosos, um equalizador tornou-se indispensável. “É basicamente um filtro de som que permite dar mais preponderância aos graves e aos agudos através das frequências sonoras”, explica Jorge. As pessoas usavam-no consoante as suas preferências, podendo dar um maior protagonismo ao som grave da batida de uma música ou às vozes que a cantam, a parte aguda. “Tem que ver com a sensação de audição. Os equalizadores são o primeiro sinal de que as pessoas queriam modular o som ao seu próprio gosto.”

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Rádios piratas

Ao estarem rotinados a trabalhar com mesas de mistura, normalmente manobradas pelos locutores de rádio, os audiófilos fizeram disparar o fenómeno das “rádios piratas”. Para Jorge, “são uma consequência natural da evolução dos puristas do som”. Crê que a maior parte das pessoas “não dava grande importância” a “compreender o fenómeno do som” e as suas distorções. Por outro lado, aqueles que o valorizavam “sentiram o apelo de partilharem a sua arte”, não só no que toca à divulgação das músicas que gostavam de ouvir, mostrando-as aos outros, como “o talento para fazer essas músicas encaixarem umas nas outras sem quase se perceber a transição”, acertando o seu ritmo. Esta experiência “fez explodir a vontade de fazer rádio”, e as “rádios piratas” foram a solução. Piratas, pois estes indivíduos ocupavam as frequências de forma aleatória e clandestina, utilizando as horas que investiram de si a aprender a trabalhar com aqueles equipamentos.

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Em sintonia

As festas em casa de qualquer um, típicas à data, evidenciavam o poder de mobilização da música. Até as garagens se transformavam no local ideal para este culto. Com a aparição das primeiras discotecas, no início dos anos 80, passou a haver um espaço próprio para o efeito, sendo que “muitas delas eram casas de alterne à noite e discotecas para a malta nova à tarde, as matinés”, conta Jorge. Este desenvolvimento não veio colocar um ponto final às festas improvisadas e sim, em vez disso, significar um acrescento. As colunas de 40/60 watts, o máximo que os adolescentes podiam ambicionar – e que, segundo Jorge, já davam “para incomodar os vizinhos” –, rapidamente se revelaram impotentes. A vibração causada pelos milhares de watts das colunas de uma discoteca abriu os olhos a quem a frequentava e contribuiu para o prolongamento da busca incessante pela melhoria da qualidade de som.

Já havia vários espaços vocacionados para nós podermos continuar a ouvir a música, porque a música era na altura a nossa vida.”

Importa saber qual era a sensação de ouvir, ao vivo, as letras e os acordes que tanto marcavam os jovens aficionados pela música. Se procuravam estar sempre o mais perto possível da versão limpa e pura da canção, talvez um concerto fosse a maneira de atingirem esse desejo. Os primeiros concertos, discretos, decorreram no final dos anos 70, quando o fenómeno das bandas se disseminou. O palco montava-se em pavilhões e, em Portugal, atraía poucos milhares de pessoas. Também por isso não éramos considerados atrativos para os artistas de renome internacionais, cujas tournés ignoravam constantemente o país mais ocidental da Europa.

Ninguém levava Portugal a sério, ninguém queria vir cá atuar porque os concertos que cá aconteciam mobilizavam entre duas a três mil pessoas, não justificava a deslocação e tudo o que ela implicava”, conta Jorge, que esperou anos até saber o que era assistir presencialmente a um concerto dos seus ídolos. Foi apenas quando o hábito dos concertos começou a enraizar-se que os portugueses encheram estádios, “e foi a partir daí que as editoras discográficas perceberam que Portugal já era um local interessante para os concertos.”

Diferentes linguagens de som

CD

A chegada dos primeiros compact disk – mais conhecidos por CD – foi mais ou menos simultânea com a entrada dos computadores no nosso quotidiano. “Uma coisa acabou por estar associada à outra porque passámos do analógico para o digital”, exclama Jorge. Surgiram enquanto versão modernizada do vinil, com o objetivo de agradar aos seus amantes, que ficaram entusiasmados com a ideia de um suporte mais prático e que se estragava com menor facilidade. “Foi uma tentativa gira de substituir o vinil, de tornar mais barata a produção, de podermos ouvir a música a partir do suporte computador – e foi aí que o CD ganhou a guerra contra o vinil”, crê Jorge, que hoje possui mais CDs do que vinis, dada a sua praticidade. Ainda assim, acha que “o CD recebeu o golpe de misericórdia. É um suporte condenado, que se tornou arcaico com o surgimento do streaming.”

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Streaming

O streaming, apesar de representar a maior das facilidades no que à reprodução de som diz respeito, significa também a perda de autenticidade do conteúdo. “Uma gravação digital tem tanta filtragem que se desvia necessariamente do som original, que contém algumas imperfeições”, imperfeições essas, explica Jorge, que a indústria musical hoje tenta encobrir. Para si, não faz qualquer sentido, uma vez que se trata de retirar a alma da música: “Há gravações ao vivo em que nós ouvíamos as guitarras a serem pousadas no palco. Isso faz parte da nossa experiência de som. É o que nos transporta para o palco sem lá estarmos”. Jorge afirma que as vantagens oferecidas pelos novos equipamentos – como o fácil transporte ou a menor fragilidade – não superaram as desvantagens. “Enquanto para a maior parte das pessoas foi uma melhoria, porque era isso que lhes interessava, para um audiófilo foi uma desilusão. Porque o som digital nunca conseguiu reproduzir tão fielmente o som original como o vinil.”

As produções foram perdendo a genuinidade à medida que os formatos evoluíam. Agora, durante o reinado do streaming e dos suportes digitais, a artificialidade afasta os audiófilos. Nenhuma das modernizações lhes conseguiu, até hoje, oferecer aquilo que os vinis que tanto rodavam no gira-discos lhes ofereciam: a sensação de teletransporte para o momento de elaboração da música. Como se estivessem dentro do estúdio com o artista, em tempo real, sem edições ou filtros.

Audiofilia

E, para este apaixonado por música, esta é uma das razões que explica o ressurgimento do vinil: “Os vinis estão a entrar outra vez em força no quotidiano, pelas mãos de audiófilos que nunca perderam a ligação ao vinil, que é o meu caso, e da nova geração de audiófilos.” Para Jorge, o vinil tornou-se uma moda cujo futuro é incerto: “Não sei se vai perdurar. Gostava que perdurasse, mas não sei se já temos fábricas de vinis com a mesma capacidade de resposta que mantinham antes de o vinil cair em desuso, ou equipararem-se à forma como produziam os CD. Mas gostava bastante, porque, lá está, é uma questão de respeito. Respeito para com os artistas.

 

Os vinis e os CD de Jorge ocupam hoje inúmeras prateleiras em sua casa. São precisos vários móveis para dar vazão a todos os aparelhos eletrónicos que trouxe consigo desde a casa dos pais. Uns em melhor estado que outros, são maioritariamente utilizados em ocasiões especiais ou em dias em que impera a necessidade de descompressão. O uso da música enquanto algo que permite a fuga da realidade acompanhou-o desde sempre, quaisquer que fossem as circunstâncias. Infelizmente, não faz milagres, e, numa fase mais conturbada da sua vida, Jorge desenvolveu uma doença rara: a síndrome de Ménière.

Nesta altura, ambos os equipamentos estão, em parte, avariados. A ligação emocional criada com cada peça impede este audiófilo de se desfazer delas, mesmo que não funcionem ou que não sejam utilizadas há anos – por preguiça ou incapacidade. A sua audição já não lhe permite saborear as diferenças sonoras como gostaria e como sempre fez. Há dias em que não consegue, pura e simplesmente, ouvir música. É demasiado doloroso. Desde novo contagiado pela audiofilia, Jorge acorda sempre com a esperança de estar num dia bom, em que os sintomas são ligeiros e lhe permitem gozar deste prazer para muitos incompreensível.

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