Fotografia: Sharon McCutcheon/Unsplash

Dia do Livro Português. ‘Bookstagrams’ são uma nova forma de falar sobre livros?

A pandemia deixou o sector da literatura a meio gás, mas houve duas coisas que nunca pararam: os bookstagrams e os amantes de livros.

Bárbara e Beatriz conheceram-se online. Une-as o seu inesgotável amor por descobrir cada vez mais livros e autores e, acima de tudo, comunicar sobre eles. Foi esse desejo por encontrar alguém com quem falar sobre as suas leituras que as levou ao Instagram e a criar as páginas que hoje gerem. livro português bookstagrams

Mas o que é, afinal, um bookstagram? É, nada mais, nada menos, que uma página de Instagram dedicada à partilha e crítica literária. Feita de forma amadora, como um hobby -embora já exista quem comece a tirar rendimentos desta atividade, especialmente no estrangeiro -, estas páginas acabaram por criar uma certa comunidade onde toda a gente é, simultaneamente, produtor e recetor de sugestões de novos autores e livros.

Com a pandemia de Covid-19, que levou ao segundo confinamento geral em menos de um ano, as livrarias portuguesas voltaram a fechar e as editoras adiaram os lançamentos previstos para o primeiro trimestre de 2021. Entre os lançamentos adiados das maiores editoras portuguesas, apenas seis livros eram de autores portugueses. Não constava nenhum novo autor português entre estes lançamentos.

“Ninguém quer saber de livros”

Olha o que eu já li é a página de Bárbara Rodrigues. O bookstagram tem crescido a pouco e pouco desde o primeiro post, há dois anos. No seu pequeno cantinho na Internet, Bárbara partilha as suas opiniões sobre os livros que tem lido. Entre os seus favoritos, encontra-se a obra de José Saramago, bem como alguns autores portugueses como Rosa Lobato Faria e Eça de Queirós. “[O que eu quero] é ter liberdade de dizer o que me apetecer. Claro, as pessoas podem não gostar de eu dizer muito pouco sobre o que eu gostei ou não gostei, mas têm liberdade de me seguir ou não”, explicou a criadora da página ao Espalha-Factos.

Bárbara começou a ler mais nas viagens longas de comboio que fazia diariamente até à faculdade. Finalmente, não aguentou mais a lentidão com que o namorado lia e acabou para “poder falar com alguém sobre os livros”. Apesar de ter pensado que “ninguém quer saber de livros”, encontrou uma comunidade pronta a recebê-la.

No entanto, aponta algumas falhas. Entre pessoas que tentam “dar um cariz obrigatório a uma coisa que devia ser feita por lazer, como um hobby”, a novos autores que enviam livros para estas páginas para que os leiam e façam publicidade de graça, “sem terem em consideração reviews de outros livros ou o gosto literário de cada um”.

“Eu percebo que [os novos autores] queriam mais apoios, que seja muito difícil de publicar em Portugal, mas há outras pessoas mais adequadas do que eu. Não sei dizer o que está bem ou mal no teu livro”, contou.

Os bookstagrams tanto podem servir para divulgação de novos escritores, como o Francisco Ramalheira, autor de As Crónicas dos Cinco Reinos, como para forma de expor certos livros que são muito partilhados entre a comunidade mas sem serem devidamente analisados. É o caso de O Desempregado, livro de Ricardo Tomaz Alves, que foi, segundo Bárbara, enviado pelo autor para muitas páginas e altamente publicitado entre o Instagram, até que a página Quem Me Lera escreveu um post em que denunciava as passagens mais misóginas e machistas do livro.

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Os livros que gostava de ler não eram considerados “literatura a sério”

Beatriz Rocha é a autora do bookstagram Beatriz Rocha Books, que criou há cinco anos. Beatriz sempre foi incentivada pelos pais a ler e interessou-se desde cedo por romances contemporâneos e fantasia, géneros predominantes na sua página. Sentiu-se muito desiludida quando não pôde divulgar os seus autores favoritos nas aulas de português porque os professores “diziam que não era literatura e que não se apresentavam porque não eram livros a sério”.

Tal como Bárbara, Beatriz criou a página porque queria falar sobre livros. “Eu gosto muito de ler, mas também gosto de falar sobre os livros que leio e acima de tudo o que eu gosto é desta partilha. Começou a criar uma corrente de incentivo literário”. Mas, ressalva, o seu gosto foi desencorajado pelo programa de leitura do ensino obrigatório.

“Sinto que a literatura em Portugal é muito elitista. Na escola nós somos obrigados a ler algo clássico e não temos a flexibilidade de saber que há outros géneros literários e estilos. Acho que isso também falha no ensino em Portugal. Se calhar, se muitos jovens tivessem a oportunidade de saber que não gostam de clássicos, mas que gostam de outros tipos de livros, ganhavam o gosto desde mais jovens e enquadravam-no na vida atual”, defende.

Os seus livros favoritos são de autores estrangeiros, como Leigh Bardugo e V.E Schwab. Beatriz sente, com pena, que a fantasia é um género ainda muito pouco divulgado em Portugal. Para a jovem leitora, o motivo pelo qual é tão difícil de encontrar novos autores portugueses prende-se com a falta de aposta por parte das grandes editoras.

“A divulgação feita em Portugal é muito fraca porque vivemos muito do passado. [As editoras] não apostam e é por isso que têm de lançar o livro por eles próprios ou procurar editoras que não lhes dão possibilidades nenhumas. Aqui no bookstagram há quem o faça mas a verdade é que o bookstagram é um grupo muito restrito e não conseguimos falar para grandes massas, por isso é importante que as grandes editoras mais conhecidas também o façam”, referiu.

O Instagram é uma nova forma de divulgar livros?

O que move um pouco todos os criadores de bookstagrams é o amor que nutrem, não só pela descoberta de novos livros, mas pela possibilidade de conhecer outras pessoas com quem os possam discutir. Beatriz ganhou amigos que ultrapassaram a barreira literária e entraram para outras esferas da sua vida. Bárbara garante que o seu maior objetivo é conhecer o máximo de pessoas possível.

Contudo, para os escritores em início de carreira, enviar o seu trabalho para este tipo de páginas é sempre uma espécie de incógnita. Há quem aceite ler e divulgue, há quem não se considere capaz de expressar uma opinião. “Ler um livro é um trabalho que demora horas e horas. Se as pessoas quase me fazem sentir obrigada, sem sequer terem aquela sensibilidade de dizer que gostam do meu trabalho, eu acabo por não o fazer”, confessa Beatriz. “Acho que, primeiro, deviam ser eles a dizer porque é que temos de ler o livro deles”, explica Bárbara.

Entre um paradigma português “elitista” e uma pandemia que cortou as asas às livrarias independentes, resta a questão: “Onde estão os novos autores?”. Eles existem, escrevem e tentam publicar os seus trabalhos num mercado cada vez mais competitivo. Sem apoios das grandes editoras, muitos acabam por pagar do seu próprio bolso para publicarem os seus livros. Outros viram-se para a Internet, um espaço não menos incerto.

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