Fotografia: Carolina Viana/ Espalha-Factos

Um ano de pandemia. O impacto nas IPSS

Há mais de um ano em clima pandémico, é necessário perceber a perspetiva e as dificuldades das IPSS

Mais de um ano após a deteção do primeiro caso de Covid-19 em Portugal, e depois de dois confinamentos obrigatórios, vários setores da economia portuguesa e mundial, como a restauração e o setor hoteleiro, foram afetados drasticamente. No entanto, embora não seja um tema tão abordado, é igualmente essencial perceber como é que a pandemia está a afetar as instituições particulares de solidariedade social (IPSS).

As IPSS são instituições que procuram dar resposta a situações de emergência social e apoiar cidadãos mais vulneráveis, assumindo muitas vezes um papel extremamente relevante na dinamização social e económica local.

Desta forma, de modo a perceber o impacto da pandemia nestas instituições, a Universidade Católica do Porto realizou um estudo intitulado “Impacto da pandemia de COVID-19 nas IPSS e seus utentes em Portugal”, onde foi concluído que as dificuldades financeiras (62,6%), as falta de recursos humanos e/ou com competências suficientes (35,3%) e a implementação dos planos de contingência e manutenção da capacidade de resposta (33,1%) foram as principais dificuldades que as IPSS sentiram durante a pandemia.

O Espalha-Factos esteve à conversa com duas IPSS, de forma a tentar perceber as principais dificuldades sentidas em tempos pandémicos.

O caso da Associação Abraço

Nascida há 30 anos, a Associação Abraço é uma IPSS que visa não só a promoção da qualidade de vida de indivíduos infetados com VIH/SIDA, como também visa contribuir para a sua erradicação. Desta forma, o projeto Abraço apresenta várias vertentes: centros de rastreios, centros de atendimento e acompanhamento psicossocial, serviços de apoio domiciliário, cantinas sociais e uma unidade residencial.

Todos estes serviços localizam-se um pouco por todo o país, havendo delegações em Lisboa, no Porto, em Aveiro, em Braga e no Funchal. O Espalha-Factos foi visitar o centro de rastreios da Associação Abraço no Porto e esteve à conversa com os seus funcionários, de forma a perceber como é que a instituição convive com a pandemia.

Com 4 funcionários, entre eles uma psicóloga, uma enfermeira e um educador de pares, este centro de rastreio atende uma média de 300 utentes por mês, sendo que existem vários serviços disponíveis, todos eles completamente anónimos e gratuitos.

Assim, é possível fazer testes rápidos a doenças sexualmente transmissíveis entre elas VIH, sífilis e hepatite B e hepatite C, é também possível receber aconselhamento sexual e podem ser feitos tratamentos de determinadas doenças sexualmente transmissíveis, bem como efetuar a vacinação para as hepatites.

Fotografia: Carolina Viana/Espalha-Factos

Com o surgimento da pandemia, durante o primeiro confinamento, a Associação Abraço viu-se obrigada a encerrar algumas das suas vertentes, no entanto, foi mantida uma linha de apoio psicológico. No regresso, após o primeiro confinamento e visto que durante o segundo confinamento a instituição se manteve aberta, as equipas dividiram-se, trabalhando em semanas alternadas.

Durante o período pandémico, a procura pela testagem e o fluxo de pessoas no centro de rastreios aumentou, sendo que Emanuel Nogueira, educador de pares e responsável de marketing, explica que este fenómeno se pode dar devido à maior ansiedade em redor de doenças causada pela pandemia: “as pessoas começaram a procurar mais por sintomas, a ter mais cuidados e procuram testar-se mais vezes“.

Enquanto no período pré pandémico não era necessário realizar a marcação de um teste, atualmente tal marcação é necessária, de forma a evitar um aglomerado de pessoas no centro de rastreio. Assim, este centro de rastreios realiza, por dia, cerca de 10 a 15 testes e a agenda está, na maior parte dos dias, cheia. Adicionalmente, durante o segundo confinamento, de forma a ser possível aos utentes deslocarem-se à instituição, foi-lhes cedido um código anónimo de marcação.

Material de testagem. Fotografia: Carolina Viana/Espalha-Factos

Relativamente às medidas de higiene adotadas pela instituição, Emanuel Nogueira conta que todos os conselhos das entidades de saúde são seguidos: desde a medição de temperatura e desinfeção de mãos à entrada, uso obrigatório de máscara, desinfeção dos espaços entre utentes, troca de material de proteção entre cada utente (no caso das visitas domiciliárias) e janela aberta durante as consultas.

No entanto, este cumprimento escrupuloso das regras de higienização, visto ser extremamente necessário, está a trazer algumas dificuldades à instituição. Isto porque a Direção Geral de Saúde (DGS) prometeu fornecer material de proteção aos projetos que cofinancia, promessa essa que até agora não foi cumprida, deixando a instituição a pagar pelo próprio material de proteção.

Desta forma, embora a instituição receba materiais doados, visto que é utilizado bastante material de proteção num só dia, este cenário torna-se insustentável, criando um défice financeiro na Associação Abraço.

Esta situação foi denunciada na comunicação social há cerca de três semanas, sendo que a DGS respondeu afirmando que estavam a ocorrer negociações de forma a fazer chegar às ONG’s e IPSS os materiais de proteção. Entretanto nada foi dito ou recebido.

Emanuel Nogueira. Fotografia: Carolina Viana/Espalha-Factos

Cátia Rodrigues, psicóloga no centro de rastreios desde setembro de 2020, conta que a pandemia não trouxe grandes mudanças no processo daqueles que testam positivo ao VIH. Assim, posteriormente a um resultado positivo no rastreio, visto que a instituição tem um protocolo com os hospitais de Santo António e São João, é marcada uma consulta na secção de infeciologia de um desses hospitais. Tal consulta acontece, em média, um dia útil após o resultado positivo.

Deste modo, os cuidados para com os pacientes VIH positivos não foram alterados devido à pandemia visto que tais pacientes são protegidos por lei e têm direito a consulta. No entanto, positivos de outras doenças como a sífilis são mais prejudicados, tendo visto as suas consultas canceladas.

Cátia Rodrigues. Fotografia: Carolina Viana/Espalha-Factos

Para além disso, visto que os contactos sociais são atualmente o mais reduzidos possível, a Associação Abraço vê-se impedida de realizar as suas atividades de divulgação e angariação de fundos em diversos locais como nos centros das cidades e nas universidades, bem como se vê impedida de realizar presencialmente a Gala Abraço, o evento mais conhecido da organização.

Assim, embora este impedimento provoque um impacto negativo na situação financeira da instituição, a Associação Abraço tem tentado reinventar-se, existindo uma carteira de sócios com várias modalidades de contribuição começando em 1 euro. Ao ser sócio da instituição, é possível adquirir vantagens como por exemplo descontos em hotéis.

Também a Gala Abraço foi reinventada, tendo acontecido digitalmente de forma paga. Posteriormente, foi colocada de forma gratuita no Youtube.

O caso do Centro Social e Cultural de Carreço

O Centro Social e Cultural de Carreço, localizado na freguesia de Carreço, em Viana do Castelo realiza vários serviços de apoio à população, sendo constituído por um lar, um centro de dia, uma creche, serviço de apoio domiciliário e centro de convívio. Para além disso, esta IPSS apresenta um certificado de qualidade da Associação Portuguesa de Certificação (APCER).

Com o surgimento da pandemia, o centro de dia e o centro de convívio viram-se obrigados a fechar, sendo que a creche também encerrou durante o período de confinamento. No entanto, o serviço de apoio domiciliário e o lar mantiveram-se sempre abertos, sendo que nunca foi detetado um caso de Covid-19 na instituição.

Ao Espalha-Factos, Joaquim Viana da Rocha, Diretor do Centro Social e Cultural de Carreço, afirma que o segredo para o número nulo de infeções passa pelo correto cumprimento das regras de higienização recomendadas pelas entidade de saúde, como a utilização de materiais de proteção, a desinfeção dos espaços mais de uma vez e a restrição de visitantes.

Para além do cumprimento rigoroso de todas as medidas de segurança, a instituição organizou as equipas de trabalhadores de forma a que haja o menor nível de rotação possível entre equipas. Adicionalmente, embora o processo de admissão de utentes no lar não tenha parado com a pandemia, “cada novo utente tem de cumprir um período de isolamento de 14 dia antes de se juntar ao resto dos residentes do lar“.

Fotografia: Carolina Viana/ Espalha-Factos
Família a visitar um utente no exterior da instituição. Fotografia: Carolina Viana/Espalha-Factos

Relativamente ao impacto que a pandemia teve no Centro Social e Cultural de Carreço, Joaquim Viana da Rocha conta que, à semelhança da Associação Abraço, a DGS não forneceu qualquer tipo de material de proteção, como teria sido prometido.

Assim, a Câmara Municipal de Viana do Castelo e o Banco Alimentar, forneceram algum material de proteção, sendo que tal apenas aconteceu no início da pandemia. Deste modo, é a própria instituição que financia o material de proteção dos seus trabalhadores, material esse que tem de ser trocado várias vezes por dia de forma a garantir a segurança dos utentes do lar, tornando-se numa grande despesa.

Adicionalmente, o Diretor do Centro Social e Cultural de Carreço demonstra-se preocupado com o facto de ainda nenhum idoso residente no lar ter sido convocado para a vacinação, sendo que o mesmo considera também que os trabalhadores do lar deveriam já ter sido vacinados, visto trabalharem diretamente com indivíduos pertencentes ao grupo de risco.

Joaquim Viana da Rocha. Fotografia: Carolina Viana/Espalha-Factos

Quando questionado acerca da diferença que sente entre o primeiro e o segundo confinamento, Joaquim Viana Rocha defende que as famílias dos utentes estão “visivelmente mais ansiosas” pela vacinação dos seus familiares.

Apesar destas questões pesarem no bem estar da instituição, continuar é a palavra de ordem, sendo que recentemente o Centro Social concorreu à iniciativa Gulbenkian Cuida e foi uma das sessenta e nove IPSS selecionadas para serem financiadas de forma a reforçar a sua capacidade de resposta em tempos de pandemia.

Deste modo, com este financiamento, a instituição contratou uma psicóloga e uma animadora social de forma a fazerem visitas domiciliárias a idosos em isolamento social, combatendo a solidão em tempos pandémicos.

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