‘Justice League’: O caminho acidentado até ao ‘Snyder Cut’

É apropriado dizer que a história do desenvolvimento do DC Extended Universe dava um filme. Com a chegada do mítico “Snyder Cut”de Justice League à HBO Portugal, a 18 de Março, vale a pena olhar para trás e ver como os planos ambiciosos da Warner Bros. de imitar o sucesso da saga transmedia da Marvel, não correram bem como esperado.

O primeiro passo para o Universo Cinemático que iria carregar o heróis da DC na era pós-Dark Knight foi dado em 2012 com o primeiro teaser de Man of Steel, realizado por Zack Snyder (Watchmen, 300).

Snyder foi escolhido para o projeto, ainda produzido por Nolan, em grande parte pelo seu trabalho com Watchmen (2009), uma adaptação da famosa graphic novel de super-heróis de Alan Moore.

Apesar de sofrer alterações substanciais face ao original, o filme foi bem recebido e destacou-se pelo estilo, já na altura, característico de Snyder: uma combinação de visuais surreais em grande escala e uso generoso de câmara lenta e momentos musicais.

Man of Steel foi apresentado como um reboot mais realista da origem do Super-Homem, à semelhança de Batman Begins ou The Amazing Spider-Man. O primeiro trailer, completo com música de The Lord of The Rings e um jovem Clark Kent, foi apresentado antes de The Dark Knight Rises (2012) e deixou o mundo em antecipação sobre o que  dali vinha.

 

Man of Steel foi um êxito comercial, apoiado num elenco bem escolhido com Henry Cavill no seu primeiro grande papel principal, Amy Adams e Russell Crowe. Apesar do final controverso, provou ser um filme razoável com potencial suficiente para ser expandido.

Batman V Superman: Dawn of Justice (2016)

batman e superman
Imagem: Warner Bros.

Depois da origem do Super-Homem, a sequela Batman V Superman: Dawn of Justice gerou antecipação palpável, ainda mais devido ao lançamento concorrente com Captain America: Civil War, o filme da Marvel com uma premissa semelhante.

Batman V Superman teve uma recepção divisória entre fãs e crítica. Ainda assim, revelou-se um sucesso financeiro e, mais uma vez, mostrou potencial para o futuro do DCEU.

O Batman de Ben Affleck, depois de muita controvérsia online, ganhou fãs devido a uma performance empenhada, uma presença dominante que faz jus à personagem e um Alfred mais moderno interpretado por Jeremy Irons. Mesmo quebrando a regra de não matar os seus adversários, o “Batfleck” provou ser uma adaptação digna da personagem.

Diana Prince (Gal Gadot) e Bruce Wayne (Ben Affleck) em Batman V Superman: Dawn of Justice (2016)
Imagem: Warner Bros.

Também Gal Gadot como Wonder Woman, cujo primeiro filme a solo viria a ser o filme mais bem recebido da DC desde Nolan, tornou-se imediatamente uma escolha em cheio. E é impossível falar de Wonder Woman sem mencionar o característico tema musical tocado por Tina Guo num violoncelo elétrico. Simplesmente genial.

Suicide Squad (2016)

Harley Quinn Suicide Squad
Fotografia: Reprodução

No entanto, foi Suicide Squad o ponto mais baixo para a DC em 2016. Realizado por David Ayer (End of Watch, Fury), o spin-off acompanhou uma equipa de anti-heróis e vilões do universo DC, uma premissa cativante e bem sucedida na banda desenhada. No entanto, a produção do filme foi alvo de mudanças constantes ao nível do guião e direção tonal, mesmo depois das filmagens terem terminado.

O resultado foi um filme incoerente e disperso, com um vilão genérico criado via CGI para a batalha final, o que resultou num corte significativo das cenas sobre o Joker de Jared Leto. Ainda assim, o elenco destacou-se mais uma vez, com Margot Robbie no papel de Harley Quinn a tornar-se um ícone imediato.

Wonder Woman (2017)

Wonder Woman (Gal Gadot) e Steve Trevor (Chris Pine) em Wonder Woman (2017)
Imagem: Warner Bros.

Em 2017, Wonder Woman provou-se um derradeiro sucesso em todas as métricas, sendo por muitos considerado o melhor filme do DCEU até hoje. O sucesso do filme catapultou Gal Gadot para o topo e acendeu alguma esperança para o já antecipado Justice League.

O filme de Patty Jenkins foi aplaudido pela forma como mostrou os ideais inerentemente positivos da personagem no contexto da Primeira Guerra Mundial, assim como o retrato de Themyscira e as guerreiras amazónicas.

Justice League (2017)

Liga da Justiça Snyder Cut
Fotografia: Divulgação

O projeto que viria a ser lançado como Justice League em novembro de 2017, e agora em 2021 na forma de Zack Snyder’s Justice League ou “Snyder Cut”, começou a sua vida como uma história em dois filmes, à semelhança de Harry Potter, The Hunger Games e muitos outros mega-blockbusters. Curiosamente, na altura o plano para Avengers: Infinity War e Endgame era também tratarem-se de duas metades de um único título.

Devido a críticas em relação a Batman V Superman, a Warner Bros. estava reticente em confiar um projeto desta magnitude em Zack Snyder. O estúdio começou por impor certas restrições, nomeadamente à duração do filme e ao tom edgy e violento que era imagem de marca de Snyder.

Em 2017, Zack Snyder viria a abandonar o projeto incompleto em pós-produção devido a uma tragédia pessoal. O estúdio, com muitas apostas em cima desta grande estreia, optou por recrutar Joss Whedon para acabar o filme.

Whedon, que já tinha sido chamado para rever o guião, iria terminar o filme sob duas condições: o filme tinha de ser mais leviano, à semelhança dos filmes Marvel (Whedon realizou os primeiros dois filmes Avengers), e tinha de ser reduzido para duas horas ou menos.

O resultado foi semelhante a Suicide Squad, um filme profundamente inconsistente e desinteressante, feito por comité com base no material de Snyder e novas cenas escritas e realizadas por Whedon. Para além da dissonância tonal, o aspeto audiovisual do filme foi severamente alterado: A correção de cor quase surreal característica de Snyder foi substituída por um look mais vívido, e a banda sonora foi refeita por Danny Elfman.

Henry Cavill como Superman em Justice League (2017)
A alteração de correção de cor foi agressiva ao ponto que o fato de Super-Homem apresenta secções brancas. Na gama de cores original de Snyder, estas manchas registavam apenas como relevo subtil. Imagem: Warner Bros.

Os projetos pós-Justice League

Depois da desilusão de Justice League, todo o plano para a continuação do DCEU foi posto em questão. Filmes como The Flash e Cyborg entraram em limbo depois de passarem por diversas versões. Outros projetos como Aquaman (2018) e Shazam (2019) avançaram e até encontraram relativo sucesso, em parte por se distanciarem do que veio antes.

Foi também nesse sentido que se posicionaram as sequelas lançadas em 2020: Birds of Prey e Wonder Woman 1984. Apesar de ambos os filmes acompanharem personagens já existentes e referenciarem eventos de filmes anteriores, nenhum deles lida diretamente com o desfecho de Justice League.

Birds of Prey com Margot Robbie
Imagem: Warner Bros.

Outros projetos como Joker (2019) de Todd Phillips, com Joaquim Phoenix, apenas tornaram evidente que a Warner Bros. estava a deixar para trás as suas ambições de um universo cinemático, apostando em filmes independentes.

Prova disto é The Batman de Matt Reeves com a estreia de Robert Pattinson no papel titular. O projeto começou por ser o primeiro filme a solo do Batman de Ben Affleck, que também esteve alinhado para realizar o projeto.

Depois de Justice League e problemas pessoas na vida de Affleck, o ator/realizador optou por abandonar o papel por completo, criando a oportunidade para um novo Batman com menos experiência, acompanhado de novas versões de Alfred e Comissário Gordon, assim como os vilões Riddler, Penguin e Catwoman.

Justice League: Segunda tentativa

Desde a estreia de Justice League em 2017 que fãs do realizador e dos filmes da DC em geral exigiam ver o ‘Snyder Cut’. Durante anos, não passava disso, com apenas algumas imagens ocasionais lançadas por Zack Snyder a aludir para a existência de tal versão “completa” do filme.

No final de 2019, Ben Affleck, Gal Gadot e outros membros do elenco mostraram apoio pela hashtag #ReleaseTheSnyderCut de forma coordenada, mas mesmo aí a Warner Bros. desmentia que tal versão ia ser lançada.

Foi em maio de 2020, na campanha de lançamento da plataforma HBO Max já em tempo de pandemia, que a Warner Bros. não só confirmou que o Snyder Cut era real, mas também que ia ser lançado como minissérie de quatro episódios de uma hora cada. (Este plano foi descartado posteriormente, em favor de um único filme de quatro horas, dividido em seis partes e um epílogo.)

Para além disso, a produtora ia investir 70 milhões de euros em novas filmagens, efeitos especiais e banda sonora, tudo ao controlo de Zack Snyder para realizar a sua visão do projeto.

Agora, um ano depois desse reveal inicial, este lançamento tem fãs, céticos e até observadores curiosos a aguardar o resultado desta experiência. Será que a visão de Snyder, grandiosa e até descabida como é, resolve os problemas de Justice League? Ou será o abandonado DCEU simplesmente irrelevante em 2021?

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