Cherry
Fotografia: Divulgação

Crítica. ‘Cherry’ tenta ser tudo ao mesmo tempo, mas é um tiro ao lado

O mais recente filme de Anthony e Joe Russo, responsáveis por quatro dos mais rentáveis filmes da Marvel, chegou ao serviço de streaming Apple TV+. Cherry apresenta-se ambicioso e audaz, com uma premissa capaz de impressionar qualquer um se bem realizada o que não é o caso.

O filme começa e diz logo ao que vem. Tom Holland, o protagonista, é Cherry, um homem sem nome a não ser na página principal do IMDB, que contraiu Síndrome de Stress Pós Traumático depois de se juntar ao exército e fazer umas quantas missões no Iraque e que acabou a assaltar bancos para financiar a sua toxicodependência. 

Sempre de cigarro no canto da boca e a suar em bica, Holland vai debitando o guião com emoção, mas é difícil fazer um bom trabalho quando algo é vazio a este ponto. O primeiro momento em que o vemos falar é a mostrar a confusão sobre a grandeza e importância das árvores. Árvores são agradáveis mas não entendo a sua existência. Talvez eu seja uma“, diz Cherry, num momento digno de um filme de Woody Allen (e isto não é, de todo, um elogio). 

Cherry
Tom Holland dá vida a ‘Cherry’ | Fotografia: Divulgação

Os irmãos Russo construíram este filme em cinco capítulos, mais um prólogo e um epílogo, e vamos andando sobre eles, quase que obrigados. As luzes mudam, o formato do ecrã também, mas a qualidade duvidosa deste projeto mantém-se em cada um. A ambição está lá, e com outra pessoa mais capaz poderia resultar, mas os irmãos nunca foram conhecidos pela sua exímia capacidade de realização. Na verdade, é difícil compreender o seu sucesso no que a filmes diz respeito.

Hoje em dia é fácil atirar a palavra ‘pretensioso’ para qualquer coisa que seja diferente, mas Cherry é, pura e simplesmente, um produto de duas mentes pretensiosas que se querem afastar-se o mais possível dos filmes da Marvel sem terem noção que é algo que nunca vão conseguir fazer. As características deste filme, realmente, são assinaláveis e tinham o potencial para ser algo diferente num meio artístico cada vez mais infestado por falta de criatividade, mas acabou por ser mais do mesmo, não tivesse sido realizado por duas pessoas muito responsáveis por essa mesma falha criativa.

Nem o guião consegue salvar o filme

Tudo podia, até, ter resultado se o guião escrito por Angela Russo-Otstot e Jessica Goldberg fosse bom – mas nem isso salva o filme porque, na verdade, o argumento é terrível. A construção das personagens é inexistente, assim como a justificação das suas motivações para fazer o que fazem. A passagem do protagonista de uma vida citadina para um oficial do exército acontece de forma tão repentina que qualquer um pode ficar confuso no porquê de Cherry se ter alistado. Quando lhe perguntam, ele responde que “estava triste”, justificação para o momento que começou, verdadeiramente, a premissa do filme. São tantas as falas questionáveis e sem sentido ditas pelas personagens que o espectador chega a ficar frustrado com a sua falta de inteligência.

No que toca à prestação dos atores, não melhora muito. As personagens secundárias são de rir, escritas de forma vergonhosa. O par romântico de Cherry, protagonizado por Ciara Bravo, é horrivelmente mal escrito, mas isso consegue passar nas entrelinhas porque a atriz realmente conseguiu fazer esquecer isso.

Cherry
Tom Holland e Ciara Bravo em ‘Cherry’ | Fotografia: Divulgação

Depois temos Tom Holland, que se bem se esforçou. Muito foi falado sobre a personagem pesada que o britânico interpreta nesta película, mas ela tem tanto de esquecível como de desinteressante. No entanto, é refrescante ver o ator a interpretar esses papéis depois de nos ter oferecido uma das melhores performances de 2020 com The Devil All The Time, que mostra um exemplo de uma personagem pesada mas extremamente bem construída e que não deixou ninguém indiferente. 

A crítica é negativa porque há, realmente, poucas coisas positivas a destacar  para além do trabalho dos dois atores principais. São duas horas e meia que podiam, facilmente, ter sido transformadas em duas horas no máximo, tantas que são as cenas totalmente inúteis e desnecessárias. Nem a cinematografia, com planos de câmara que são de rir, que estranhamente tem recebido algumas nomeações para prémios, tem algo de assinalável. Muitos dos frames parecem feitos com a ideia de aparecerem em páginas do Twitter dedicadas à cinematografia ou serem wallpapers de computador, o que nunca é positivo. 

O tom inconstante

O tom do filme é igualmente irregular, não se percebendo bem o que os irmãos Russo estão a tentar alcançar a cada momento. Certos momentos parecem mostrar que os realizadores estão tão perdidos quanto as pessoas que estão a ver o seu filme. Começamos com uma história na linha de um coming-of-age e passamos rapidamente para um filme de guerra, a fazer lembrar Jarhead ou Full Metal Jacket; e de repente estamos no meio de uma imitação barata de Requiem for A Dream.

Cherry
Fotografia: Divulgação

Tal como o tom, a mensagem é confusa (se é que existe alguma). Filme anti-exército? Isto seria hipócrita da parte irmãos, dada a sua ligação à Marvel, mas é uma possibilidade. A falta de apoio a veteranos de guerra? É uma boa hipótese. Uma mensagem antidrogas? Talvez, mas nunca saberemos. 

Cherry anda a ser vendido como um filme independente que custou entre 25 a 30 milhões de euros mas tem a energia de uma película que nem num cinema teria lugar se não tivesse Tom Holland na capa. Até porque – e sejamos honestos – ninguém sabe muito bem quem são os irmãos Russo. Este é um projeto que foi um total tiro ao lado e pode ser que dê o mote ao regresso dos irmãos às séries de comédia, um produto que conseguem fazer realmente bem.

Cherry
2.5

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