Sexta-Feira 13
Fonte: Paramount Pictures

‘Sexta-Feira 13’. Há 40 anos, um misto de sustos e risos chegou aos ecrãs

A 13 março de 1981, ‘Sexta-feira 13’ chegou a Portugal, inaugurando uma nova era de filmes slasher

Há 40 anos atrás estreava em Portugal Sexta-Feira 13. Há 40 anos, as salas de cinema nacionais conheciam aquele que viria a ser um dos serial killers mais famosos do grande ecrã – Jason Voorhees. Será que foi mesmo assim?

Na verdade, Jason mal entra no filme, sem ser durante alguns planos a espernear à distância no meio de um lago. No entanto, foi este o começo inesperado que apaixonou audiências, transformando o franchise num império altamente rentável.

Quase meio século depois (e onze sequelas mais tarde), o que será que este clássico de terror tem a dizer ao contemporâneo? Sobreviverá ao teste do tempo? Voltemos aos anos 80 e ao malfadado campo Crystal Lake para obter a resposta.

Do lugar-comum à inovação

Apesar de hoje em dia alguns mecanismos narrativos se aproximarem do cliché, não há como negar o ponto de viragem inaugurado por Sean S. Cunnigham e Victor Miller ao criar Sexta-Feira 13. O sol já brilha, marcando o início de mais um verão. Um grupo de adolescentes viaja até Crystal Lake com o intuito de reabrir o acampamento, encerrado depois de um lendário massacre algumas décadas antes. O que pode correr mal?

Não é por falta de aviso que os jovens caem em desgraça. Na aldeia limítrofe, o conhecido Crazy Ralph (Walt Gorney) incita-os a voltar para trás, a salvar-se da maldição do campo enquanto podem. Obviamente, ninguém presta atenção e, um por um, acabam assassinados.

Chegada ao campo Crystal Lake. Fonte: Paramount Pictures

Quem diz que já volta, não regressa; quem se comporta de forma promíscua, caminha em direção à morte; e uma única rapariga sobrevive, depois de muitos gritos. No fim, ainda há tempo para uma investida final do monstro, a derradeira chave de ouro da película. Ao som de uma banda sonora composta maioritariamente por respirações asmáticas, a premissa parece familiar. Mas outrora foi inovadora.

Criar um universo tão facilmente reconhecível por fãs e não fãs do cinema de terror tem, de facto, muito que se lhe diga. Sexta-Feira 13 converteu-se num dos precursores de uma nova era de slashers, ao lado da parelha Halloween (1978) e Nightmare on Elm Street (1984). Embora acabe por reciclar múltiplas convenções concebidas durante os anos 60 e 70, Sexta-Feira 13 destaca-se pelo conceito e reviravoltas finais, incutindo o seu próprio contributo ao subgénero.

Encontrar o cómico no terror

Não são muitos os franchises que se podem gabar de terem introduzido a imagem mais icónica do seu assassino apenas à terceira sequela. No primeiro filme, é a mãe de Jason, Mrs. Voorhees (Betsy Palmer), que provoca o banho de sangue, sedenta de vingança pela morte do filho naquele campo de férias.

Um grande passo para as mães enlutadas convertidas em assassinas no cinema mainstream, desfecho pouco utilizado até então. A par de um voyeurismo vertiginoso, o filme vale pelos assassinatos gráficos levados a cabo pela homicida, da qual apenas temos uma perceção difusa em point of view, até aos momentos finais.

As personagens vápidas e o diálogo pouco natural contribuem, de igual modo, para o fascínio do argumento. Se torcêssemos por protagonistas heróicos e aprofundados devidamente, talvez a experiência de ver Sexta-Feira 13 não fosse tão divertida. Porém, é na caricatura que está o verdadeiro tesouro do filme, fator que o converte numa autêntica sessão de festa de pijama. Por um lado, dá para assustar; por outro, outro dá para rir. Eis os ingredientes essenciais ao triunfo do escapismo.

Betsy Palmer como Mrs. Voorhees em ‘Friday the 13th’ (1980). Fonte: Paramount Pictures

De uma ideia simples, realizada com pouco orçamento, surgem os filmes seguintes, propícios a descambar no rocambolesco. Desde criações fiéis à narrativa original, a episódios próximos da comédia, ao encontro com o vilão de Wes Craven Freddy Krueger, este é um franchise que, certamente, já viu de tudo.

A reinvenção constrói, sem dúvida, uma base sólida de admiradores, ansiosos pelo próximo capítulo e dispostos a vestirem-se de Jason no Halloween. Arrasados por críticos e acarinhados pelo público, assim se alcança a garantia de longevidade mais procurada por estes franchises. Não importa se o terror se desenrola no espaço, no inferno ou nos subúrbios de Manhattan. O que interessa é que o espetáculo deve continuar.

Olhar o clássico no contemporâneo

Muitos associam o final dos anos 80 à morte do slasher, destronado pela previsibilidade e preocupações crescentes com o impacto da violência televisiva na juventude. Porém, seguindo precisamente o exemplo de Jason, há que renascer para uma eventual sequela, materializada em películas como Scream (1996) e I Know What You did Last Summer (1997). Ao analisar estes filmes, a seu tempo também elevados ao estatuto de marcos emblemáticos, um forte elo de intertextualidade salta à vista.

Uma vez mais, o horror do presente tropeça no horror do passado. Sexta-Feira 13 está longe de ter morrido em si própria, antes pelo contrário. A sua imensa capacidade de referenciação continua a ser perpetuada hoje em dia, tendo até recentemente servido de intriga central à nona temporada da série American Horror Story. Mesmo em moldes mais terra-a-terra, capazes de denunciar os vícios do enredo, algo permanece, consagrando o filme enquanto parte essencial do imaginário cinematográfico.

O primeiro Jason Voorhees, ainda muito longe da famosa máscara de hockey. Fonte: AndyPriceArt / Twitter

Olhar para Sexta-Feira 13 nos dias que correm comporta uma certa dualidade. À parte do seu importante papel na construção do cinema de terror como o conhecemos, pode-se simplesmente ver a longa-metragem por aquilo que ela é – um filme que entretém sem se levar muito a sério.

Seja por nostalgia ou amor genuíno ao franchise, Sexta-feira 13 ocupa um merecido lugar na história do grande ecrã, mostrando-se capaz de transcender a erosão temporal. No fundo, os efeitos especiais amadores ou o subtexto datado não apagam o poder de um excelente clássico. E, afinal, os clássicos nunca passam de moda.

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