A Rosa de Bombaim
Imagem: Netflix

Crítica. ‘A Rosa de Bombaim’, uma história que só pode ser contada através de animação

A Rosa de Bombaim é o terceiro filme de animação da realizadora, argumentista e animadora Gitanjali Rao.

Embora só tenha sido disponibilizado na Netflix no dia 8 de março de 2021, o filme estreou em 2019, no Festival Internacional de Cinema de Veneza. Ao contrário dos grandes estúdios, que têm optado por fazer filmes de animação em 3D, Rao traz-nos uma história contada em animação tradicional, que se distingue pelo contraste entre cores e sobreposição de frames.

O filme conta a história de Kamala (Cyli Khare), uma jovem hindu que vive com a irmã mais nova, Tara (Gargi Shitole), e com o avô (Virendra Saxena) numa cabana perto da praia de Juhu. A família é pobre, o que não permite a Kamala ter uma educação superior e a força a casar com Mike (Makrand Deshpande), que não trabalha, sobrevive à base de esquemas e que sonha ir para o Dubai. Por sua vez, Kamala vende tranças de jasmim à porta de casa, durante o dia, e trabalha num bar de alterne de noite, assiduamente frequentado por Mike. Em frente à casa de Kamala, o jovem muçulmano Salim (Amit Deondi) também vende flores. Tanto Kamala como Salim são sonhadores: enquanto ele passa as tardes no cinema e aspira a ser como as personagens dos filmes de ação que vê no ecrã, ela encontra refúgio nos cenários que imagina e que existem em histórias tradicionais e no folclore. Os dois tentam aproximar-se um do outro mas, por causa da religião, o seu amor está condenado desde o início.

Gitanjali Rao, uma mestre da animação

Para além de se ocupar da realização e escrita do argumento do filme, Gitanjali Rao é também a diretora de animação do filme. A Rosa de Bombaim foi produzido com apenas 60 artistas em apenas 18 meses, o que contrasta com outras produções como, por exemplo, as da Disney, que levam anos a produzir e contam com centenas de animadores. No entanto, A Rosa de Bombaim distingue-se, precisamente, pela sua animação.

Recorrendo a uma expressão popular, por vezes mais é menos e menos é mais. A animação é muito consistente e coerente, dando ao filme uma personalidade muito vincada. Não há nenhuma personagem que pareça um “intruso” nem nenhum cenário de fundo mal concebido. Tudo está no sítio certo.

Com isto, não quero dizer que a animação sabe sempre ao mesmo. Por exemplo, as fantasias de Kamala aparecem num registo diferente, não só para diferenciar da realidade que a rapariga vive, mas também para cortar com o registo e não saturar o espectador. Outra grande valência do filme são as montagens magníficas que se sobrepõem ao enredo e que nos revelam memórias das personagens, o que nos ajuda a percebê-las melhor. Aliadas a estas montagens estão as composições originais e memoráveis de Swanand Kirkire e Cyli Khare.

Contudo, há momentos em que este registo de animação não resulta, como, por exemplo, nas cenas de luta que Salim vê no cinema e nas restantes cenas de violências física durante o resto do filme. Do mesmo modo, há momentos em que as personagens são pouco expressivas por causa deste registo, deixando o espectador um pouco na dúvida sobre o que é que se está a passar. Visto que a história é emocionalmente pesada, esta falha danifica bastante a perceção do espectador dos acontecimentos do filme.

Uma crónica sobre Bombaim

O filme de Gitanjali Rao não é uma história que se foca só em duas personagens. À trama juntam-se Ms. D’ Souza (Amardeep Jha), a professora de inglês de Tara, e Anthony Pereira (Shishir Sharma), que se enamora com esta.

Aos poucos vamos descobrindo a história da professora e da sua paixão com Laura, com quem partilhou cenas de dança no grande ecrã. Tal como SalimD’ Souza vive presa ao cinema e às histórias que ele conta e que nem sempre correspondem à realidade. Por outro lado, temos o lado realista trazido por Anthony, dono de uma loja de antiguidades e que, embora rodeado pelo passado, não o romantiza.

Para além disto, Rao escreve um retrato fiel à realidade vivida em Bombaim. A maior e mais populosa cidade da Índia não é imune à pobreza, como aquela que leva Kamala a ter de casar com um homem abusivo que não consegue amar, assim como à exploração do seu corpo num bar de alterne. Rao não esquece a riqueza cultural da cidade, mesmo que não se deixe romantizar pelas suas maravilhas.

A Rosa de Bombaim funciona como uma crónica da cidade de Bombaim, o que leva a que o clímax da história saiba a pouco, mesmo tendo um dos momentos mais fortes do filme. O espectador não consegue deixar de pensar “É só isto?“. Embora o filme tenha quase duas horas, o final é apressado, pois a argumentista perde-se nas fantasias de Kamala, ocupando tempo desnecessário que poderia ter sido usado numa melhor conclusão do filme.

O final da história não chega a ser satisfatório, pois chegamos à conclusão que as coisas aconteceram com demasiada facilidade para estas personagens, com quem criamos laços através da sua dura realidade na cidade de Bombaim.

AVISO: O resto deste artigo contém spoilers

O final de A Rosa de Bombaim é apressado em relação aos acontecimentos que o antecedem imediatamente, como a morte das personagens Salim D’ Souza. No entanto, este aspeto da história não deixa de ser incrivelmente poético e um relembrar da linha grossa entre realidade e ficção.

A vida de Salim chega ao fim depois de ter sido atropelado pela estrela de cinema mais famosa de Bombaim, Raja Khan (Anurag Kashyap). Embora seja um herói no grande ecrã, Raja Khan, que nunca foge do perigo para salvar a sua amada, escapa rapidamente do local do acidente, deixando o jovem Salim a morrer nos braços de Kamala. Por sua vez, D’ Souza morre embriagada, depois de dançar com o fantasma de Laura, só para ser encontrada por Anthony, com quem tinha combinado um encontro.

Não parece ser por acaso que as duas personagens que vivem através da irrealidade do cinema morrem, ao mesmo tempo, enquanto um festival se desenrola na praia como pano de fundo. Parece que Rao nos quer dizer para prestarmos atenção na verdadeira cultura de Bombaim – e não para as fantasias do cinema para as massas. Não será por acaso, também, que D’ Souza fala inglês. Rao tece uma crítica inteligente e subtil à presença inglesa que atormentou a Índia ao matar uma das personagens que se recusava a falar hindi. A personagem de Anthony sobrevive porque não renega a língua do país por completo, mesmo que fale inglês com a professora. Rao também aponta o dedo aos preconceitos religiosos que impedem o casamento entre muçulmanos e hindus.

Com A Rosa de Bombaim, Gitanjali Rao prova-se uma mente criativa, inteligente e corajosa do cinema indiano. Embora tenha levado alguns prémios para casa, a obra de Rao merecia mais destaque no panorama internacional do cinema, algo que talvez possa ainda ser conseguido com esta aquisição pela Netflix. O que é certo é que temos de estar mais atentos ao trabalho da realizadora, pois o seu próximo projeto não deve desapontar.

 

 

 

A Rosa de Bombaim
8.5

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