Disney. Um monopólio que prejudica o cinema?

Um olhar à Disney e ao crescente império cinemático que vai construindo, destruindo tudo para o conseguir

Durante muitas gerações, que a Disney, desde cedo, fazia parte das nossas vidas, dando-lhes um pouco de cor, conforto e animação, e levando-nos a sonhar. O público, constituído na sua maioria por crianças e jovens, aplaudia. Os anos foram passando, os fãs foram crescendo e a perceção sobre o conglomerado americano foi mudando. Afinal de contas, a empresa é bem sucedida, mas a que custo? Disney monopólio

2020 trouxe-nos uma pandemia mundial, o que acabou por trazer vários problemas no mundo do cinema, mas também serviu para intensificar vários que eram conhecidos apenas à superfície. O ano passado veio dar-nos a confirmação que, cada vez mais, a Disney é mais problema do que solução. Não que o cinema vá morrer por causa da empresa de Bob Iger, CEO desde 2005, mas a verdade é que não está a fazer muito para que ele sobreviva. Este artigo visa falar de alguns dos problemas causados atualmente pela Disney no negócio cinematográfico, muitos deles de forma deliberada, com especial atenção ao franchise da Marvel e Star Wars

Marvel (e Star Wars)

Marvel Studios
Fotografia: Chelsea Lauren/Variety/Shutterstock

Em 2009, a Disney concluiu a compra da Marvel, produtora dos conhecidos filmes de super heróis, mudando o cinema enquanto negócio por completo. A aposta no universo partilhado entre dezenas de filmes arranca de forma mais séria com o lançamento de Avengers, em 2012. Foi um filme ambicioso e que acabou por fazer sucesso entre as massas, angariando vários milhões de euros. Isto só mostrou que o público estava realmente interessado neste conceito, ao fim ao cabo nenhum filme lançado pela Marvel tinha feito sequer metade daquele valor em bilheteira. 

O ponto de viragem foi este e a partir daí, boa parte dos filmes conseguiram atingir muitos milhões de euros em box office. A verdade é que ninguém nega que isto é um grande modelo de negócios. O marketing agressivo da Disney é incrível. A estratégia da empresa deixa mesmo qualquer um a pensar. É pena que o dinheiro seja usado para duas coisas principalmente: fazer cada vez mais e mais filmes de super heróis e produtos relacionados com Star Wars, e comprar estudos rivais, eliminando a concorrência. 

A compra da Lucasfilm, estúdio responsável pelo franchise de Star Wars e Indiana Jones, em meados de 2012, não fez correr tanta tinta como a compra da Marvel, mas a sua importância é enorme. A empresa, fundada por George Lucas, sempre foi uma grande fonte de rendimento, e com isto, a Disney tornou-se responsável e dona de dois dos maiores e mais lucrativos franchises de sempre. 

Entre Star Wars e filmes da Marvel, a Disney recebeu mais de 21 mil milhões de euros, tornando-se cada vez mais uma concorrência desleal para os filmes mais pequenos. A luta pelo box office sempre foi intensa, mas agora lançar projetos em altura de estreias da Marvel é meio caminho andado para o fracasso. Por exemplo, na altura da estreia de Avengers: Endgame, promovido como um evento à escala global e não tanto como um filme, estreou Booksmart nos cinemas portugueses. O filme de Olivia Wilde foi aclamado por todos, chamando-lhe refrescante, novo, quase inovador. A verdade é que, por muito bom que ele fosse, Booksmart, uma história leve e que se vê quase sem se dar conta, ganhou pouco mais de 20 milhões no box office. Escusado será dizer que o monstro de 3 horas, Avengers: Endgame, arrecadou mais de mil milhões e meio apenas no primeiro fim de semana de estreia. Viria a tornar-se o filme mais lucrativo de sempre. 

O cinema independente deixa de existir completamente em meses de estreias da Disney e nem os grandes nomes do cinema estão a salvo disso. Aquando da estreia de Hateful Eight, que coincidiu com Star Wars: The Force Awakens, o realizador Quentin Tarantino veio a público falar das táticas agressivas que a Disney toma nos cinemas, alugando casas de espetáculo inteiras para mostrar os seus projetos, proibindo a exibição de outros filmes. O realizador ficou tão zangado, e com razão, que chegou a chamar-lhes criminosos.

Hateful Eight não foi propriamente um flop no box office, ao fazer cerca de 126 milhões de euros, mas acaba por ser manifestamente pouco para um filme de um realizador como Tarantino. No meio disto tudo, fica a questão: se nem Quentin Tarantino, um dos maiores nomes do cinema de sempre, consegue impor-se frente à Disney, o que é que os mais pequenos podem fazer? 

A saturação do mercado

Star Wars: Ascensão de Skywalker
Foto: divulgação/ Star Wars Portugal

A Disney já se apercebeu que tanto a Marvel como Star Wars são uma verdadeira mina de ouro, e optam apenas pela decisão empresarial mais correta: continuar com a criação de conteúdos nesses franchises. Durante o Disney’s Investor Day 2020, a empresa mostrou novos projetos aos investidores e aos subscritores dos seus serviços de streaming. O resultado desta reunião foram dezenas de filmes e séries, muitos deles relacionados com Star Wars e Marvel, e muitos outros novas versões de coisas que já existiam no passado, nomeadamente a criação de séries maioritariamente à volta de personagens secundárias de filmes de sucesso. 

As reações entre o público foram mistas, mas até alguns daqueles que gostaram dos anúncios perguntavam para o vazio se era mesmo necessário aquilo tudo. Tanto Star Wars como Marvel têm futuros projetos que parecem realmente bons, mas também parecem uma desculpa para fazer dinheiro. Acontece que a Disney sabe que tem um público fidelizado e leal em todos os momentos e vai aceitar qualquer coisa que a empresa lhes meta à frente e chamar-lhe muito bom. A empresa americana saturou tanto o mercado que muitos fãs dos seus filmes não consome mais nenhum estilo cinematográfico, estão apenas a ver e rever e ver de novo a mesma coisa vezes e vezes sem conta, centenas de vezes se for preciso. 

Os fãs veem, a empresa ganha, projetos novos são anunciados, os fãs voltam a ver e a empresa volta a ganhar. Neste momento, a Disney é tão forte no seu mercado e na eliminação da sua concorrência que simplesmente não há maneira de a perderem. Até quando perdem, acabam por ganhar. Nem a DC, a principal concorrente no que toca a super-heróis, consegue lutar mano-a-mano pelo box office, o que acaba por dizer muito. 

Com o exagero de conteúdos existentes e por estrear, surge uma nova pergunta: será mesmo necessário estar praticamente tudo interligado?

O universo Marvel e Star Wars distingue-se dos demais pela sua conexão entre todos os filmes, mas isso acaba por tornar-se num incómodo para qualquer novo fã. Afinal de contas, e voltando a usar Avengers: Endgame como exemplo, é necessário ver pelo menos seis filmes para poder entender esse. Isto, pensando bem, acaba por ser uma estratégia de vendas incrível da Disney. Assistir aos 30 filmes do universo Marvel e assim perceber até ao mais ínfimo detalhe leva tempo para um fã, mas enriquece as contas bancárias dos patrões da empresa. E o ponto acaba sempre por ser esse: lucro. Enquanto ele for feito nos moldes que é, a situação não mudará. 

A limitação da criatividade (apoiada pelos fãs)

Wandavision
Foto: Disney | Divulgação

A narrativa diz que todos os filmes dos franchises pertencentes à Disney acabam por ser totalmente justificáveis, ainda que existam algumas exceções. Um dos maiores exemplos recentes é The Last Jedi, de Rian Johnson. O realizador sempre foi conhecido por inovar nas suas narrativas, desconstruindo o género e dando-lhe a sua própria versão. Um avant-garde da nossa geração, com as devidas reservas. A sua contribuição para Star Wars foi recebida com grande entusiasmo por aqueles que estavam cansados de olhar sempre para o mesmo, enquanto que os fãs mais duradouros fizeram petições para tentar apagar esse filme da existência. O debate sobre a cegueira criativa que consome os fãs mais antigos começou, e a verdade é que outros exemplos acabaram por comprovar isso.

Um dos filmes que costuma ser considerado como “à frente do seu tempo” pelos fãs da Marvel é Thor: Ragnarok. O realizador Taika Waititi parecia uma lufada de ar fresco para o franchise, mas isso acabou por não ser o caso. O humor sarcástico, as conversas rápidas, o improviso e a maneira rebelde de Taika realizar um filme notaram-se e foram chamadas de inovadoras por todos, mas será esse o caso? Ou será apenas um caso de cegueira criativa? Afinal de contas, para um filme de comédia, Taika Waititi trouxe apenas o mínimo exigível para um profissional do seu nível. Ele não inventou a roda, não inventou o fogo, não inventou absolutamente nada. Foi apenas normal, o que para os parâmetros da Marvel, pelos vistos, é acima da média. 

A falta de criatividade não está apenas ligada aos fãs, mas parte também da empresa e do seu conforto. Os filmes da Marvel refletem, na sua grande generalidade, a normal pirâmide dramática. Começa pela introdução e passa para o desenvolvimento, clímax, resolução, conclusão. Alguns filmes passam um ou outro ponto, sem ser de forma intencional porque, afinal de contas, a escrita dos filmes de super heróis não costuma ser a melhor, mas a ideia está lá. A estrutura é seguida à risca, agindo já como um piloto automático. É óbvio o que vai acontecer a seguir, por muito que o filme tente dizer que não é. A falta de ideias é absurda, assim como o conforto nessa mesma falta de ideias. 

Recentemente, WandaVision foi transmitido no serviço de streaming Disney+. Nos primeiros episódios, um espetador quase deu o benefício da dúvida a quem produziu a série. Parecia mesmo algo novo, algo entusiasmante. Claro que foi sol de pouca dura, porque quatro episódios depois tudo voltou ao normal. No final da mesma, qualquer espetador só poderia concluir para si mesmo que ter visto WandaVision tinha sido uma perda de tempo. A questão é que, mesmo não gostando de determinado ponto, a série foi vista na mesma. Ninguém a deixou de ver por estar a odiar, ninguém mudou e foi ver um clássico francês de 1929 porque não estava a apreciar. Toda a gente se manteve ali, firme em frente à TV, sem qualquer interesse no que ia acontecer a seguir mas não conseguindo deixar de ver. É absurdo o poder que a Disney, em especial a Marvel, tem em qualquer pessoa. 

A ideia da progressão nos tempos

John Boyega Star Wars
Foto: John Boyega em ‘Star Wars’ (Reprodução/IMDB)

2020 foi um ano confuso e tenso em muitos níveis. Os protestos Black Lives Matter irromperam nos Estados Unidos, não deixando ninguém indiferente, muito menos a Disney, que rapidamente publicou uma imagem de apoio ao movimento na sua conta de Twitter

Para uma empresa grande como eles, com o poder que tem, apoiar o movimento é algo importante, mas só demonstra a hipocrisia existente no seu meio. Quando os seus atores e trabalhadores são os alvos do discurso de ódio, das ameaças físicas ou até de morte, a Disney costuma estar muito silenciosa. John Boyega, um dos muitos famosos a discursar nas marchas do Black Lives Matter, foi alvo de insultos racistas durante meses aquando da sua participação em Star Wars, mas nessa altura nenhum comunicado a proteger o ator foi lançado. É essa a política da Disney no que toca ao seu talento: atirar os trabalhadores aos lobos, desde que acabem por receber dinheiro com isso. 

São muitas as vítimas dos fãs e nenhuma delas teve direito sequer a um tweet na página principal a receber apoio. Brie Larson, Daisy Ridley e Kelly Marie Tran foram três mulheres muito visadas pelo machismo dos fãs, sendo que a primeira chegou mesmo a receber ameaças por alguns. Muitos deles pediram que existisse um boicote coletivo a Captain Marvel, e nem mesmo aí a Disney se apressou a defender a sua heroína. Tudo porque Brie Larson nunca foi vista com bons olhos pelos fãs devido ao seu ativismo em várias causas sociais, considerado uma afronta aos valores da Marvel segundo os seus fãs. 

A Disney baseia o seu progresso social em jogadas de segundo plano, coisas que acabam por ser um rodapé de Wikipédia com pouca importância. A verdade é que a empresa acaba por ser aplaudida por isso, o que não faz sentido. A representação do progresso nos seus valores nos próprios filmes devia ser feito da melhor maneira através do storytelling. Usar a personagem que nem nome tem e que aparece durante três segundos e dizer que têm a mente aberta por causa disso não deveria ser aplaudido nem apoiado, mas repudiado.

Neste momento, a Disney vai empurrando o cinema para um abismo sem salvação. A empresa há muito que não quer saber desta arte para nada, mostrando que o dinheiro é e sempre será a principal prioridade. Enquanto isto não mudar, muitos filmes pequenos vão continuar a falhar e muitos nomes nunca serão mais que isso: um nome de rodapé. Disney monopólio Disney monopólio Disney monopólio Disney monopólio Disney monopólio Disney monopólio Disney monopólio Disney monopólio Disney monopólio

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