Movimento #Naopartilhes
Fotografia: Leon Seibert

Movimento #NaoPartilhes: “não pode haver impunidade para quem compactua com este crime”

Quando as tuas fotos vão parar às mãos erradas. Foi este o mote para um dos destaques do Fita Isoladora desta semana. Neste episódio especial do podcast do Espalha-Factos, que celebra o Dia Internacional da Mulher, fala-se de partilha online de conteúdo íntimo sem consentimento, e da objetificação e sexualização do corpo feminino. movimento #NaoPartilhes

Para dar início ao primeiro bloco, as apresentadoras Carolina CorreiaHelena Moreira e Kenia Nunes recebem Inês Marinho, criadora do movimento #NaoPartilhes, que conhece de perto e apoia as vítimas da partilha de conteúdo íntimo não consentido, e que tem também desenvolvido um trabalho importante na consciencialização para este problema. 

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Nudes: uma forma de empoderamento ou um possível comportamento de risco?

Um estudo, levado a cabo pela Universidade do Porto e realizado a 525 estudantes do Ensino Superior, revelou que mais de metade dos estudantes que enviaram nude selfies não tinha perceção dos riscos incorridos e 5% teve as suas fotografias reencaminhadas para terceiros”.

Segundo o mesmo estudo, cerca de 60% dos estudantes “afirmou ter recebido imagens de cariz sexual e mais de 40% disseram ter enviado esse tipo de imagens”. Se a isto juntarmos um outro estudo realizado pela Cyber Civil Rights Initiative, que diz que “90% das vítimas são mulheres, sendo os agressores geralmente homens e ex-parceiros românticos” que utilizam estes conteúdos após o término da relação como forma de humilhação ou retaliação, a situação fica ainda mais séria.

Numa era da tecnologia como a que vivemos, e numa sociedade maioritariamente machista e patriarcal, as histórias destes e outros abusos são cada vez mais frequentes. E exemplos não nos faltam: piropos, apalpões, assédio, e a própria divulgação de conteúdo sexual sem consentimento, são tudo situações que, todos os dias, nos provam que a objetificação e sexualização do corpo feminino ainda está muito presente no nosso dia a dia.

A criadora do movimento #NaoPartilhes, Inês Marinho, que está diariamente em contacto com muitas vítimas, a maioria mulheres e muitas delas menores de idade, conta que esta “comunidade de entre-ajuda” é essencial, não só para alertar que é necessário quebrar a corrente deste tipo de partilhas, mas também para que as próprias vítimas se sintam apoiadas enquanto a sociedade teima em desculpabilizar os opressores. “É esse estigma que nós temos de tirar, o de uma mulher por ser sexual (…), já mereceu o que lhe aconteceu de assédio, de violência, de abuso, e que a culpa é dela”, afirmou. E acrescenta: “eu já partilhei nudes por me sentir empoderada, bonita. Mas também já as partilhei por pressão. (…) Há pessoas que partilham nudes porque acham, e acham bem, que o corpo é natural e não há vergonha em mostrá-lo. E há pessoas que cedem a pressões de pessoas mal intencionadas”.

Os conteúdos partilhados vão desde vídeos íntimos, pornografia de vingança, passam por fotografias tiradas em contextos comuns, muitas vezes enviadas no meio de conteúdo íntimo de outra mulher, e chegam até imagens adulteradas. O consentimento, em qualquer das situações, não existe e todo o conteúdo é divulgado e partilhado em plataformas de mensagens encriptadas, em pequenos chats de amigos ou até em grupos com milhares de participantes. As fotos e vídeos podem mesmo chegar a sites de pornografia.

A criadora do movimento fala em impunidade, machismo e não tem dúvidas de que este é um crime ainda desconhecido da maioria dos portugueses e pouco vigiado pelo Estado: todos temos de nos proteger de todo o tipo de perigos, mas também as pessoas têm de ser punidas. Eu não tenho capacidade para ditar uma lei. Tem de ser um sistema judicial, que nos protege e que é o único que tem poder para fazer isso. Toda a comunidade que compactua com este crime tem de ser punida e tem de saber que há uma punição para isto”.

Inês, que é também uma das envolvidas na petição que pretende transformar a partilha de pornografia não consentida em crime público, acrescenta ainda que: “nós somos todos vítimas do machismo e do patriarcado. Não só as mulheres, todos os géneros são. Os homens, mesmo não sabendo, são super oprimidos pelo machismo. O facto de terem de ser a figura mais forte, que não tem problemas, que não tem fraquezas, também dificulta muito nestas situações. Eu sei que muitos homens já passaram por isto (…) e não querem falar por vergonha”, apelando ainda a todas as vítimas deste, e de todos os tipos de abuso, que falem e peçam ajuda.

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