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Fotografia: BBC/HBO

Contadoras de histórias. A resistência feminina no pequeno e no grande ecrã

As narrativas no cinema têm, desde o seu aparecimento, sido dominadas por pontos de vista masculinos sobre os mais variados temas, incluindo a Mulher. O corpo e os problemas inerentes a ser mulher são, muitas vezes, alvo de uma representação pouco fidedigna, tornando-se difícil relacionarmo-nos com histórias e personagens.

Nos dias que correm, as discussões sobre e a importância de criações femininas têm sido cada vez mais acesas, trazendo à tona a importância de histórias diversificadas que oferecem a representação que muitas de nós precisamos. I May Destroy You, Fleabag ou Listen são algumas das obras que vêm apresentar e explorar questões como o assédio sexual, situações familiares fragilizadas e trauma através de uma nova lente.

Ao longo dos últimos anos, foram várias as produções que vieram causar furor e reconfigurar o lugar da mulher, pondo-a tanto no centro das narrativas como atrás das câmaras. Hoje relembramos filmes, séries e papéis que mostram a evolução das narrativas femininas e que revelam a importância da representação nos media.

As narrativas femininas e feministas têm tomado de assalto a indústria do cinema e da televisão. Em Portugal, o cenário também está, aos poucos a mudar – Ana Rocha de Sousa fez sucesso internacionalmente com a longa-metragem Listen, que narra a luta de uma mãe cujos filhos são levados para longe de si pela Segurança Social britânica. O filme chegou a estar na corrida para Óscar de Melhor Filme Internacional (tendo sido retirado porque a maior parte do filme é falada em inglês).

Listen
‘Listen’ | Fotografia: Divulgação

Susana Nobre esteve nos headlines na última semana pela participação do seu mais recente documentário No Táxi do Jack na Berlinale, o Festival Internacional de Cinema de Berlim. As declarações que fez ao jornal Público espelham a sua vontade de fazer cinema que se aproxime da população: “Gostaria de fazer um cinema que fosse próximo, e íntimo, daquilo que somos no dia-a-dia, ao encontro dos verdadeiros pensamentos, das verdadeiras impressões e preocupações das pessoas, hoje. E isso tem a ver com misturar o profundo com o trivial, a comédia com a tragédia.

No plano internacional, 2020 foi especialmente frutífero no que toca histórias escritas por mulheres. Em Promising Young WomanEmerald Fennell conta, com recurso a uma estética algodão doce e uma personagem principal galvanizada, a história de Cassie (Carey Mulligan), uma mulher que se finge de bêbada em discotecas para dar lições aos homens que se aproveitam dela. À medida que a trama avança, vamos conhecendo mais a fundo a razão da sua empreitada: pretende vingar a melhor amiga que foi violada por colegas de curso enquanto bêbada.

O tema da violação é denunciado e esmiuçado dolorosamente (haverá outra maneira de o fazer?) e, apesar de um final pouco realista, raiva e catarse preenchem o espectador simultaneamente. Promising Young Woman remete ao caso de Standford, onde Brock Turner violou uma colega que estava inconsciente. Na altura, muitos dos que o defenderam fizeram-no porque o consideravam “um jovem promissor”.

promising young woman
‘Promising Young Woman’ | Fotografia: Focus Features

I May Destroy You, série original da HBO, é realizada e protagonizada por Michaela Coel, que parte da sua experiência pessoal com assédio sexual para desenvolver uma história cativante e vertiginosa.

A série aborda esta questão da linha ténue entre do consentimento, porque há vários tipos de relações interessantes na série, e também a Michaela interpreta uma personagem que não é apenas uma vítima. É uma personagem muito mais complexa que isso e por isso é que a proposta dela é tão interessante“, conta Patrícia Sequeira Brás, investigadora com foco no cinema e no feminismo, no Fita Isoladora, podcast do Espalha-Factos que dedicou o último episódio a este tema. “O tema da violação é muito mais comum do que nos pensamos“, acrescenta.

Michaela Coel em I May Destroy You
Michaela Coel em ‘I May Destroy You’ | Fotografia: BBC/HBO

Nomadland, escrito, realizado e montado por Chloé Zhao, tem como protagonista Frances McDormand, uma mulher que depois de perder o seu emprego e marido, viaja o oeste americano à procura de trabalho. A realizadora ganhou o prémio de Melhor Realizadora na cerimónia dos últimos Globos de Ouro – foi a segunda mulher e a primeira mulher asiática a receber este prémio desde a primeira edição, em 1944.

Chloé Zhao, realizadora de ‘Nomadland’ | Fotografia: Reprodução/D.R.

A comédia também é um campo de batalha

A comédia também tem vindo a abrir-se enquanto espaço de empoderamento. Michaela Coel dá também corpo a Tracey em Chewing Gum, uma sitcom que acompanha a protagonista, uma jovem de 24 anos ultra-religiosa, virgem e devota de Nossa Senhora Beyoncé, na busca pelo conhecimento do Mundo à sua volta mas, mais que isso, pela perda da virgindade.

Phoebe Waller-Bridge tem usado a comédia negra para dar voz às pequenas derrotas da vida adulta, às quezílias familiares e aos amores correspondidos, como podemos ver em Fleabag (uma série adaptada de um espétaculo criado pela própria) e CrashingKilling Eve, criada e escrita por Phoebe, reverte os papéis das séries de crime, pondo em destaque a detetive aborrecida Eve (Sandra Oh) e a assassina treinada Villanelle (Jodie Comer), que engrenam num jogo de gato e rato ao longo das três temporadas existentes.

Fleabag da Amazon Prime Video
Phoebe Waller-Bridge em ‘Fleabag’ | Fotografia: Reprodução/D.R.
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O mundo da stand-up comedy, outrora dominada por homens, abre as cortinas a cada vez mais mulheres em palco. Em 2018, estreou na Netflix o especial Hannah Gadsby: Nanette, um espetáculo que num momento arranca risos e no outro a seguir lágrimas a qualquer um que o assista. Em 2020, Gadsby retorna com Douglas, onde diz que “se soubesse o quão popular os traumas seriam no contexto da comédia, teria regrado bem melhor as minhas merdas“.

Hannah Gadsby | Fotografia: Ben King/Netflix

Seja na comédia ou na tragédia, a representação do feminino tem sido uma realidade cada vez mais constante e fiel à realidade. Histórias reais são contadas através da ficção, a comédia satiriza as desigualdades de género, e realidade e quimera, fundem-se para reconfigurar as narrativas. Todas estas obras, e todas as outras – cada uma delas relevante – que ficaram por mencionar, mostraram e vão continuar a mostrar e a pôr em primeiro plano a resistência feminina nos grande e pequeno ecrãs.

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