Festival da Canção
Fotografia: Pedro Pina/RTP

Festival da Canção 2021. A estranha sinopse do ano anterior numa gala onde o inglês foi rei

Como por magia, voltámos todos às aulas de matemática e tivemos um ligeiro deja vu para nos lembrar que aqui nunca nada está garantido. Na edição deste ano do Festival da Canção, a votação surpreendeu e foram os The Black Mamba a levantar a taça, deitando por terra o preconceito com a escolha do inglês para a Eurovisão.

Mas tudo a seu tempo. Em ano de pandemia, que impossibilitou uma Grande Final repleta de público numa cidade fora da capital, o Estúdio 1 manteve-se como pano de fundo das canções, tal qual nas duas eliminatórias. Foram bem mais de três horas de um espetáculo que superou em larga escala o sempre simples e clássico objetivo deste formato: escolher uma canção para a Europa, neste caso, para Roterdão.

Tratou-se de uma muito prestigiante transmissão, onde se evocou e fez história. Na sua 55.ª edição, o Festival da Canção escolheu pela primeira uma canção interpretada, na sua totalidade, numa língua que não a de Camões para representar Portugal na maior competição de música do mundo. Nas redes sociais, as opiniões dividem-se, como é habitual, ainda que desta vez a discussão seja muito pelo idioma.

Em playback, mas em bom

Existe sempre uma diferença na transmissão das duas semifinais e da final. Enquanto que José Carlos Malato, Tânia Ribas de Oliveira, Sónia Araújo e Jorge Gabriel cumprem, e bem, o papel de apresentadores, Vasco Palmeirim e Filomena Cautela destacam-se precisamente por prescindirem deste cargo, optando pela postura de anfitriões. A diferença, diga-se, é muita, e cria uma intimidade e descontração fundamentais para um formato que é imponente, mas que se quer fresco.

O programa começou com o difícil, contudo bem sucedido, desafio de fazer um Festival da Canção sem público a aquecer o ambiente. Bastaram alguns segundos para os anfitriões, a par de Inês Lopes Gonçalves, darem uma sova nessa muleta crucial que é a massa humana, quase fazendo o espectador não necessitar dela. No entanto, aquilo que se seguiria foi sem grande margem para dúvidas uma das melhores e mais divertidas aberturas dos últimos anos.

O tema Play-Back, de Carlos Paião, celebra em 2021 quatro décadas e foi relembrado de forma bastante divertida, com recurso a inesperadas aparições de algumas das estrelas da estação. Tendo em conta a situação restritiva que o país e o mundo atravessam, não deixa de ser louvável a criatividade deste segmento, que quase instantaneamente foi elogiado pelos espectadores no mundo digital. E, já agora, parabéns RTP! Pela aposta renovada no formato, e por 64 anos de televisão.

Sem mais demoras, vamos ao que realmente interessa: as canções. Karetus & Romeu Bairos abriram o desfile dos temas e os The Black Mamba, vencedores, foram curiosamente os grandes responsáveis por encerrar o ciclo que os próprios haviam iniciado, há três semanas atrás, ao terem sido a primeira atuação da primeira semifinal.

10.º – Fábia Maia – ‘Dia Lindo’ (Autora e Intérprete)

À semelhança do ano passado, a RTP decidiu não divulgar as votações dos 16 temas durante as semifinais. Tal como acontece na Eurovisão, foram somente anunciados os finalistas, com os seus pontos a serem apenas conhecidos após a Final. O modelo transmite uma ideia de igualdade, no sentido em que todos os candidatos sobem a palco sem a certeza absoluta de terem, ou não, hipóteses de ganhar.

Fábia Maia faz parte da longa lista de autores convidados que optaram por interpretar as próprias criações. Nesta final, sete dos dez compositores em competição estiveram em palco, o que não deixa de ser salientado, uma vez que muitos destes nomes foram certamente convidados pela RTP com esse propósito. O último lugar não foi inesperado nem surpreendente, já que a própria qualificação do tema não era previsível.

Em palco, a cantora manteve a mesma postura intimista e sincera, alterando a roupa que na semifinal não agradou aos espectadores. ‘Dia Lindo’ é um tema que transborda verdade, mas que facilmente passa despercebido e não tem a capacidade de competir, o que é importante num concurso. O fator da competitividade é bastante difícil de prever, pois só em palco o público tem a real noção desse grau, pelo que o melhor é sempre escolher algo que faça sentido para os intérpretes e não algo que apresente a fórmula X ou Y. Felizmente, foi isso que aqui aconteceu.

9.º – Pedro Gonçalves – ‘Não Vou Ficar’ (Autor e Intérprete)

Pedro Gonçalves terminou a sua prestação no Festival da Canção 2021 sem superar o objetivo a que se tinha proposto: ter uma melhor classificação daquela obtida em 2017, quando ficou em 6.º lugar. Contudo, é importante notar que o jovem cantor competiu numa edição exponencialmente mais forte, onde existiam vários favoritos e a vitória não parecia certa para ninguém; ao contrário do ano em que participara, onde Salvador Sobral era favorito.

‘Não Vou Ficar’ é um tema que destoa do restante lote de canções e serve melhor o intérprete, que desta vez foi também o seu próprio autor. É divertido, despretensioso, tem um toque de verão e uma curiosa nostalgia de anos que já lá vão, e que naturalmente não foram vividos por Pedro Gonçalves, uma tendência da música pop.

Esta foi das poucas atuações que mudou relativamente à semifinal, mesmo que seja difícil garantir que para melhor. Em ambas ficou a faltar alguma coisa, que a fizesse destacar mais para lá da sonoridade. Poderia ter alcançado uma classificação mais confortável, mas era previsível que não voltaria a figurar entre os favoritos – em 2017, conquistou os oito pontos do televoto, desta feita apenas metade.

8.º – EU.CLIDES – ‘VOLTE-FACE’ (Autor: Pedro da Linha)

Seria profundamente injusto dizer que esta não era, simultaneamente, uma das melhores vozes e uma das músicas mais contemporâneas e representativas da nova música portuguesa. EU.CLIDES, mais habituado e confortável a tocar guitarra, demonstrou uma (aparente) calma e descontração que habilmente flutuam pelos ritmos contidos e entusiasmantes que ao longo de três minutos transportam o espectador para outro espaço que não o do Festival.

‘VOLTE-FACE’ nunca foi uma candidata à vitória, e de resto seria uma aposta extremamente arriscada para um formato internacional. Com também uma mudança de roupa, é de destacar a escolha simbólica de uma cadeira de um espaço de diversão noturna, que por sinal estará repleta de história e de histórias, como facilmente é visível pelo seu desgaste. Ainda assim, a decisão de manter o intérprete sentado ao longo da atuação não favorece propriamente este tema em específico. A voz estava lá, as luzes e grafismos também, mas não o staging.

7.º – Joana Alegre – ‘Joana do Mar’ (Autora e Intérprete)

Com uma votação algo semelhante ficou Joana Alegre, outra das grandes vozes desta final. Se na semifinal muito se apontou, e com razão, à ausência completa de visão de performance, o mesmo não aconteceu uma segunda vez. Numa noite em que as atuações se mantiveram praticamente intocáveis, esta foi uma grande surpresa.

‘Joana do Mar’, que foi produzida por Luísa Sobral, é um tema que respira portugalidade, algo que por vezes não se sabe bem explicar como, mas que quase parece intuitiva a sua associação. Tudo melhorou: a interpretação, o figurino e a adição de instrumentistas e uma bailarina.

Outro dos fatores que favorecem a atuação é precisamente o facto de Joana Alegre ter participado no The Voice Portugal, onde alcançou o terceiro lugar. Ainda que a artista tenha sempre demonstrado grande segurança em palco, a experiência que é conviver regularmente com o mundo da televisão permite-lhe ter uma facilidade notória num formato como o Festival da Canção, ao contrário da maioria dos candidatos, que demonstram insegurança junto das câmaras.

6.º – Karetus & Romeu Bairos – ‘Saudade’ (Autores: Karetus)

Ficaram ligeiramente aquém do que seria esperado, uma vez que desde muito cedo conquistaram as redes sociais e as visualizações no YouTube oficial do formato. Serve de lição para todos aqueles que associam de forma demasiado objetiva a popularidade de um tema à sua pontuação. A vitória de Portugal em 2017, ou da Ucrânia em 2016, são bons exemplos de dois temas que têm vários milhões de views e streams a menos que outros concorrentes nas suas respetivas edições.

A feliz parceria entre o duo Karetus e o fadista Romeu Bairos representa aquela que provavelmente será a aposta mais divergente desta edição, ao lado da canção de IAN, que não se qualificou. ‘Saudade’ é uma agradável junção da tradição com a modernidade, algo não propriamente inovador no nosso cancioneiro moderno, mas mesmo assim aplaudível.

O destaque vai para Romeu Bairos, que nos presenteou com uma confiança muito superior àquela demonstrada na primeira atuação ao vivo nas semifinais. A atuação no seu completo também foi diferente, ainda que se tenha perdido alguma da enigmática narrativa que recaía sobre o tema no seu início, e que ia crescendo. De evidenciar o alerta para a situação difícil por que passa o setor da Cultura no país. “Não vires as costas à Cultura”, podia ler-se nas costas do cantor.

5.º – Valéria – ‘Na Mais Profunda Saudade’ (Autor: Hélder Moutinho)

Repetindo exatamente a mesma imperfeição da semifinal, Valéria entra no tema fora de tom, numa atuação onde os seus nervos foram relativamente mais notórios. Ainda assim, e de igual forma, a fadista voltou a agarrar a canção rapidamente e a defendê-la de forma bastante nobre e digna em cima do palco.

‘Na Mais Profunda Saudade’ é vulnerável sem perder a firmeza, é profundamente crua mas ao mesmo tempo é como que um porto seguro, está repleta de uma inquietação e urgência na sua orquestração que a tornam num tema que, resumidamente, é Portugal. Era a escolha deste que vos escreve e que, muito sinceramente, não compreende os míseros três pontos atribuídos pelos jurados regionais. Esquecendo preferências e olhando friamente para o lote de finalistas, é manifestamente ingrata esta classificação.

Pelas suas características próximas do fado, seria naturalmente o tema que mais se distanciaria de tudo o que será escolhido pelos restantes 39 países a concurso na Eurovisão. O que, por si só, já era uma vitória, tal como aconteceu com Salvador Sobral e Conan Osíris que, melhor e pior classificados, foram singulares.

4.º – Sara Afonso – ‘Contramão’ (Autor: Filipe Melo)

‘Contramão’ foi um dos temas que passou relativamente despercebido aquando da sua divulgação, mas que deu cartas logo na semifinal, tornando-o automaticamente um finalista justificado. Ainda que com características um tanto distintas, relembra a bela surpresa que foi ‘Para Sorrir Eu Não Preciso De Nada’, em 2018. São “somente” duas intérpretes a cantar uma canção, e isso já tem muito que se lhe diga na atual conjuntura musical.

A simplicidade foi o mote para esta canção de Filipe Melo, interpretada de forma não tão segura por Sara Afonso nesta segunda prestação. Nada que retirasse qualquer uma das valências ao tema e à sua voz. Neste caso, os jurados foram mais adequados que o televoto na pontuação, que numa final tão renhida acabou por não votar de forma tão expressiva, como certamente votaria noutra edição.

Seria uma boa aposta para representar o país e seguramente criaria nos portugueses uma bonita união, não tivesse Bruno Nogueira admitido que se deslocaria a Roterdão caso o seu amigo Filipe Melo se sagrasse vencedor. Uma edição eurovisiva de Como é que o Bicho Mexe seria algo que poucos quereriam perder.

3.º – NEEV – ‘Dancing in the Stars’ (Autor e Intérprete)

Ainda que nunca tivesse alcançado o topo das visualizações e partilhas, a verdade é que NEEV foi desde o início o grande favorito à vitória, o que se refletiu nos 12 pontos do televoto. É com algum espanto que no Festival da Canção se encontra um candidato tão empenhado na promoção, junto dos portugueses, da sua canção. Foi o único a divulgar um videoclipe, a promovê-lo na imprensa e, antes disso, em exclusivo, na MTV. Participou ativamente em entrevistas e conversas com os fãs e desenvolveu uma série de transmissões em direto nas suas redes sociais em que demonstrou uma humanidade e consciência, no mínimo, bonitas.

‘Dancing in the Stars’ não é um ícone musical e na Europa não seria algo completamente inovador. Mas não é por isso que não seria, aos olhos do fator competitivo do Eurovision Song Contest, a aposta mais segura para regressar à Grande Final da competição e, possivelmente, para competir pelo top 3 de classificações portuguesas no certame. No início deste artigo, fazia-se menção a um suposto deja vu, que nos remeteria para Elvas em 2020.

Tal como Bárbara Tinoco, NEEV foi a escolha dos portugueses, ao mesmo tempo que ficou a meio da tabela dos jurados regionais do Festival da Canção. De resto, desde a renovação do formato que somente em 2019, com Conan Osíris, é que ambos estiveram de acordo. A meio da votação deixou de ser necessário saber que classificação NEEV teria no televoto, já que a matemática não engana e seria já praticamente impossível uma vitória.

2.º – Carolina Deslandes – ‘Por um Triz’ (Autora e Intérprete)

Dispensando-me a fazer o trocadilho fácil, Carolina Deslandes ficou realmente muito perto de representar Portugal. A intérprete mais conhecida dos espectadores, e por isso naturalmente mais noticiada e escrutinada, de forma por vezes pouco correta, diga-se, chegou mesmo a ter um pé em Roterdão quando conquistou o voto dos jurados. Acabaria por ficar empatada no primeiro lugar, sob um método que será reprovado mais à frente.

‘Por um Triz’ faz jus à carreira da sua intérprete, razão pela qual a emissora, e em particular o consultor do festival Nuno Galopim, que convida os autores, deverão estar satisfeitos. Convém não esquecer que os artistas recebem um convite pela sua qualidade musical, sendo depois algo estranho quando apresentam uma proposta no certame que destoa completamente daquilo pelo qual os conhecemos, e que justificou o seu convite. Salvaguardando como é natural a liberdade de explorar novas abordagens, que não deve ser recriminada.

A opção pelo ecrã a preto e branco permite que o telespectador se foque única e exclusivamente na música, deixando de lado a necessidade de grafismos, que como é sabido foram prescindidos na Eurovisão em Portugal. Acima de tudo, foi um bom momento de televisão, com uma boa canção e uma letra ingénua, no melhor sentido do termo.

1.º – The Black Mamba – ‘Love is on My Side’ (Autor: Tatanka)

Não eram de todo favoritos à vitória e por isso mesmo representam a maior surpresa da noite. The Black Mamba, “uma das melhores bandas portuguesas da atualidade”, como o comentador do podcast EFVisão Miguel Rocha fez questão de sinalizar na primeira análise deste tema, são os grandes vencedores do Festival da Canção 2021.

A canção, totalmente em inglês, começa também com uma aposta na imagem a preto e branco, que funciona até ao ponto em que se altera para o que parece ser um filtro de uma rede social. Tendo em conta que a RTP decidiu não trabalhar na atuação de reserva e escolher o mesmo tipo de performance apresentada no Festival da Canção, é pena que este apontamento se mantenha. Contudo, e acreditando que não haverá entraves à saída do país, é importante que a emissora aposte na atuação em palco deste tema, que não será de todo uma lufada de ar fresco na Eurovisão.

Com isto não se retira qualidade à canção, e sobretudo ao vocalista Tatanka, que por si só supera largamente o próprio tema, que com outra voz possivelmente passaria mais despercebido. ‘Love is on my Side’ presenteia-nos com alguma nostalgia e, mesmo que o exercício de futurologia seja difícil, deverá ser relativamente apelativo para os jurados internacionais mas não propriamente para os europeus. A passagem à final não parece certa, mas a banda tem a sua margem de manobra para tornar o tema numa aposta mais sólida.

Uma votação até ao último segundo

É para três minutos em palco que todos os compositores, intérpretes e RTP trabalham, mas são as votações que todos em casa querem ver. Salvador Sobral conquistou o júri em 2017, em 2018 Cláudia Pascoal conquistou o público, em 2019 Conan Osiris conquistou ambos. Já este ano, os The Black Mamba repetiram o que aconteceu com Elisa em 2020, ao vencerem sem serem os favoritos de nenhum deles. Vamos por partes.

Como é habitual, o júri regional do Festival da Canção foi o primeiro a votar, e logo aí os espectadores começaram a fazer contas. NEEV, aquele que viria a ganhar o televoto, não recolheu grande apreço por parte dos especialistas, com, por exemplo, a região do Alentejo a colocá-lo em último lugar. Também Valéria ou Karetus recolhiam menos votos do que seria esperado. A escolha acabaria por recair sobre Carolina Deslandes, com os The Black Mamba a ocuparem a segunda posição.

Festival da Canção
A vencedoras de 2020, Elisa e Marta Carvalho, entregaram o troféu aos novos vencedores / Fotografia: Pedro Pina, RTP

No televoto, tudo se alterou. A favorita dos jurados não foi além do terceiro lugar, e o favorito do público estava já matematicamente impossibilitado de vencer, pelo que a vitória recaiu sobre aqueles que tinham ficado em segundo em ambas as votações. Também temas como ‘VOLTE-FACE’ e ‘Na Mais Profunda Saudade’ marcaram uma grande diferença entre júri e televoto, com a segunda a sair beneficiada.

Confere os votos totais da final do Festival da Canção 2021:

  1. ‘Love is on my Side’ – 20 pontos – 10 do júri e 10 do público
  2. ‘Por um Triz’ – 20 pontos – 12 do júri e 8 do público
  3. ‘Dancing in the Stars’ – 17 pontos – 5 júri e 12 do público
  4. ‘Contramão’ – 13 pontos – 8 do júri e 5 do público
  5. ‘Na Mais Profunda Saudade’ – 10 pontos – 3 do júri e 7 do público
  6. ‘Saudade’ – 10 pontos – 4 do júri e 6 do público
  7. ‘Joana do Mar’ – 9 pontos – 6 do júri e 3 do público
  8. ‘VOLTE-FACE’ – 9 pontos – 7 do júri e 2 do público
  9. ‘Não Vou Ficar’ – 5 pontos – 1 do júri e 4 do público
  10. ‘Dia Lindo’ – 3 pontos – 2 do júri e 1 do público

Posto isto, é importante afirmar que o modelo escolhido pela RTP para a divulgação dos votos não é de todo o mais justo, e muito menos o mais representativo do real peso dos votos junto das canções. Ao transpor as votações dos jurados de 1 a 12, retira-se completamente a distância que os temas tiveram uns dos outros. Por exemplo, quatro pontos separavam Carolina Deslandes dos The Black Mamba, sete destes para Sara Afonso, 29 do mais votado do público para a vencedora do júri. Estas pontuações refletem a vontade dos jurados, vontade essa que tem as suas divergências entre os temas.

Ao passarmos tudo isto de 1 a 12, e fazendo o mesmo com o televoto, acabamos por novamente assistir a empates desnecessários (nesta edição, foram logo três). Mais ainda, ao não deixarmos os votos especializados com a sua dimensão real, e não fazendo o mesmo com o televoto, acabamos por nunca saber ao certo quem realmente ganharia se as pontuações fossem objetivamente mais profundas, como de resto acontece na Eurovisão. Se por exemplo os votos que separam Carolina Deslandes dos The Black Mamba no televoto fossem menos expressivos do que aqueles que os separaram no júri, então a cantora poderia ganhar, ainda que neste caso isso fosse difícil. Mas olhe-se também para o caso do NEEV, se os seus 12 pontos representam uma massiva votação do público, então isso poderia ter sido suficiente para ele acabar em segundo e não em terceiro lugar.

Deixa-se um apelo, para que numa próxima edição do Festival da Canção se repense o método de divulgação dos votos, uma vez que é caso recorrente de empates, com a edição de 2018 a representar o cúmulo desta situação. Nesse ano, Cláudia Pascoal teve 10 pontos dos jurados e 12 dos espectadores e Catarina Miranda exatamente o contrário. Pelas regras, o empate deu a vitória à intérprete de ‘O Jardim’ e ficamos sem saber se, por exemplo, a diferença de votos fora menor no televoto. Nesse caso, a vitória poderia facilmente recair na voz de ‘Para Sorrir Eu Não Preciso De Nada’. Numa competição como esta, é muito importante que estas dúvidas não fiquem no ar.

A noite da música portuguesa

Como vem sendo habitual, o Festival da Canção tem nos últimos anos fugido felizmente ao seu propósito máximo e apostado em inúmeras homenagens e momentos únicos que dificilmente são hoje presenteáveis na televisão nacional. A homenagem a Carlos do Carmo, falecido este ano, pelas vozes de Ricardo Ribeiro, Ana Moura e Camané foi simplesmente fantástica, ao passo que Dino d’ Santiago provou mais uma vez a sua mestria ao dar uma nova roupagem ao clássico ‘Os Putos’.

Como se já não fosse suficientemente um privilégio assistir a este momento, eis que os Clã, com Filipe Sambado e Cláudia Pascoal (com uma ótima vestimenta) recriam alguns dos temas que marcaram as carreiras de José Afonso, José Mário Branco e Sérgio Godinho, este último que de surpresa interpretou o tema com que canta a pandemia. É de saudar a estação pública pela realização de documentários sobre vários dos nomes da nossa música, porque acabam mesmo por ficar para a posteridade e podem ser usados em momentos solenes como este.

O Festival da Canção não deixa de ser acima de tudo um concurso musical, não um programa de música. O objetivo final é o de escolher uma música para representar o país numa competição. Contudo, assim que acaba o desfile de canções, os momentos que se seguem fazem-nos esquecer o intuito da transmissão e apenas apreciar o que de melhor o país tem para oferecer em termos musicais. Existe, sim, um muitíssimo importante celebrar da música portuguesa.

Finalmente, mencionar os temas ‘A Vida sem Acontecer’ e ‘Cheguei Aqui’, que seguramente podiam ter feito parte desta Grande Final, e dar os parabéns à RTP por ter melhorado de vez os problemas relativos ao som. Apenas um reparo no que diz respeito ao staging, que ainda fica muito aquém em alguns temas, retirando-lhes potencial.

Resta-me desejar boa sorte aos The Black Mamba para Roterdão. São os nossos representantes e, por isso mesmo, sem “clubismos”, espero que o país vos apoie, como deve.

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