Alice Cooper

Crítica. ‘Detroit Stories’ mostra um lado novo de Alice Cooper

Alice Cooper faz parte de uma espécie em extinção de músicos que só para de compor e de dar concertos quando morrer. Frequentemente apelidado de Padrinho do Shock Rock, Cooper produz música desde 1964, ou seja, desde os seus 18 anos de idade. Em 2o21, o músico lança Detroit Stories, um álbum que junta composições originais e versões de temas de Lou Reed, Bob Seger & The Silver Bullet Band e MC5

Com a banda homónima, Alice Cooper lançou sete álbuns, quatro dos quais foram certificados com platina, nos Estados Unidos. A solo, lançou 21 álbuns, com destaque para Trash. Na televisão e no cinema, tem uma presença constante desde 1970. Então o que é que Detroit Stories consegue acrescentar à sua carreira?

É fácil descartar os trabalhos mais recentes dos veteranos do rock ‘n’ roll, como Alice Cooper, dizendo que os seus melhores anos estão para trás, e que por isso não vale a pena escutar os seus discos. Será que também Detroit Stories está ao nível dos primeiros álbuns de Alice Cooper? É tão enriquecedor e inovador quanto os seus outros discos? Honestamente, não, pois o som do disco é bastante previsível, simples e uma repetição do que já foi feito antes. Sendo assim, vale a pena ouvir este álbum? Isso dependente, pois quem é fã da música de Alice Cooper e deste estilo de música não ficará totalmente desapontado.

A boa música, tal como a arte, provém da rutura. Não conseguimos progredir se ficarmos presos às estéticas do passado. Num post que anuncia o lançamento do álbum, na página oficial do músico, no Instagram, Cooper escreve “Cala-te e toca rock ‘n’ roll”. Esta frase define grande parte da atitude. Mesmo assim, não é justo dizer ao artista para pendurar as luvas, neste caso as palhetas, porque é muito interessante ver um músico com esta idade a lançar novos temas originais e a dar concertos. Ainda é possível aprender muita coisa com estes artistas da velha guarda.

Um álbum previsível em que todas as músicas soam ao mesmo

Em entrevista à Forbes, Alice Cooper diz que o disco “é principalmente guitarradas e rock ‘n’ roll“. Esta descrição, embora simplista, não deixa margem para dúvidas e corresponde, em grande parte, à sonoridade do disco. O músico defende que este registo é o que define o nome e identidade de Alice Cooper. Embora esta afirmação identitária seja legítima, não deixa de ser limitadora, ou seja, o músico não beneficia por se cingir a um único género musical. A sua música torna-se maçadora, pois é repetitiva. Aliás, no passado, Cooper marcou a diferença por explorar uma sonoridade algo diferente. Em Detroit Stories, parece que o músico impôs limitações às suas composições, porque as faixas soam todas ao mesmo.

Com isto, não quero dizer que o álbum não tem uma personalidade consistente. Alice Cooper ilustra as suas músicas com uma foto, exageradamente editada em Photoshop, da cidade de Detroit, vigiadas pelos seus olhos, maquilhados com sangue. As letras do álbum coincidem com o título, pois o músico conta, na verdade, histórias passadas na cidade de Detroit. Aliás, homenageia os músicos da cidade, como Bob Seger e os MC5. Mesmo assim, é possível escrever um álbum com personalidade consistente sem que os temas não soem todos iguais.

 

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Um dos contemporâneos de Cooper, Bob Dylan, lançou, no ano passado, Rough and Rowdy Ways, com temas que pareciam peças que encaixavam e pertenciam ao mesmo puzzle. Contudo, num puzzle, embora as peças pertençam a um todo, variam no seu encaixe. É impossível construir um puzzle com peças todas iguais. Em Detroit Stories, Alice Cooper tentou construir um puzzle em que a grande maioria das peças são idênticas, o que não é possível.

Alice Cooper consegue compor um álbum divertido, mas com letras absurdas

É possível perceber se os músicos se divertiram, ou se tiraram prazer, a compor ou a gravar um álbum. Ao ouvir Detroit Stories é percetível que Alice Cooper tirou gozo da gravação do disco.

Nas músicas “Independence Dave“, “Drunk In Love“, “Wonderful World“, “Hanging on by a Thread (Don’t Give Up)” e “Shut Up and Rock“, conseguimos ouvir a satisfação de Cooper em tocar as guitarradas que conduzem o álbum. Embora estes temas soem a versões baratas de discos como Apetite for Destruction, dos Guns ‘n’ Roses, e Back in Black, de AC/DC, há uma certa satisfação em ouvi-los. A energia que estas músicas transpiram chega até nós, mas rapidamente ficamos fartos deste registo.

No entanto, embora os solos e riffs de guitarra e breaks de bateria sejam animadores e divertidos, as letras das canções são completamente absurdas, até mesmo para Alice Cooper. Por exemplo, a música “Drunk In Love” começa com “I saw you baby, and I pissed my pants” (“Eu vi-te e mijei-me nas calças”), para depois entrar num refrão com “Who’da thunk I’d be drunk as a skunk and fallin’ in love” (“Quem diria que eu estaria bêbedo como uma doninha e a apaixonar-me”). Do mesmo modo, a canção “I Hate You” parece um poema descartado pelo poeta punk John Cooper Clarke, mas no mau sentido.

As únicas canções que escapam a esta coletânea de composições absurdas são “Hanging on by a Thread (Don’t Give Up)” e “Wonderful World”, nas quais Cooper encontrou um espaço para enviar uma mensagem de esperança ao mundo.

Detroit Stories não é o melhor álbum de Alice Cooper, muito menos será visto como um dos melhores álbuns do ano. No entanto, para quem gosta de rock ‘n’ roll da velha guarda, assim como dos trabalhos de Cooper, encontrará em Detroit Stories uma viagem de 50 minutos para um mundo governado por riffs de guitarra barulhentos e refrões absurdos, como o músico nos habituou, ao longo de mais de 50 anos de carreira.

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