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Fotografias: Anthony Hopkins em 'O Pai' (Divulgação/Landmark Media) | Carey Mulligan em 'Promising Young Woman' (Divulgação/Focus Features) | Gary Oldman em 'Mank' (Divulgação/Netflix)

Golden Globes 2021. Conhece os nomeados para Melhor Filme Dramático

A cerimónia dos Golden Globes de 2021 realizar-se-á este domingo, dia 28 de fevereiro. A entrega dos prémios será apresentada por Tina Fey, na Rainbow Room, em Nova Iorque, e Amy Poehler, no The Beverly Hilton, na Califórnia. Como sempre, os nomeados para as diversas categorias são escolhidos pela Hollywood Foreign Press Association com o intuito de premiar o melhor da televisão e do cinema americano do ano de 2020.

Os nomeados deste ano para a categoria de Melhor Filme Dramático são O PaiMank, Nomadland – Sobreviver na América, Promising Young Woman Os 7 de Chicago. Em vésperas da entrega de prémios, o Espalha-Factos traz-te uma análise de cada um dos filmes nomeados para esta categoria, para saberes o que esperar.

Mank, o filme com mais nomeações para os Golden Globes

David Fincher, realizador de Mank, começou a sua carreira aos 19 anos como assistente de cameraman em O Regresso de Jedi, o terceiro filme da trilogia original de Star Wars, estreado em 1983. No entanto, só começa a trabalhar como realizador quase uma década mais tarde, com Alien 3, depois de uma temporada a realizar videoclips para artistas como Madonna, George Michael Michael Jackson.

Odiado pela crítica mas amado pelo público, Fincher fez nome com clássicos como Sete Pecados Mortais Clube de Combate nos anos 90. No entanto, ao contrário de realizadores seus contemporâneos, como Quentin Tarantino, talvez fosse difícil acreditar que o jovem Fincher chegaria a ter um filme nomeado para uma gala como os Golden Globes, visto os seus filmes serem tão mal recebidos pela crítica.

No entanto, na última década, David Fincher realizou filmes incrivelmente populares que se tornaram clássicos instantâneos, como A Rede SocialEm Parte Incerta, assim como a série Mindhunter, mais recentemente. Hoje, Fincher continua a reinventar-se e regressa com algo novo na sua carreira, um filme biográfico intitulado Mank.

Mank, tal como o título indica, conta a história de Herman J. “Mank” Mankiewic, interpretado por Gary Oldman, o argumentista de um dos filmes mais aclamados de sempre, Citizen Kane – O Mundo a Seus Pés. O argumentista escreveu, praticamente, todo o guião de Citizen Kane, mas teve de partilhar os créditos com o produtor, realizador, e protagonista do filme, Orson Welles, que reescreveu algumas partes do argumento.

Mank pode ser visto como uma metáfora para o estado da arte em Hollywood nos anos 40, debilitado e sem pernas para andar. Embora seja visto como um dos melhores filmes norte-americanos de sempre, Citizen Kane não foi bem recebido pela crítica e muito menos um sucesso comercial, e só começou a receber reconhecimento quase vinte anos depois – curiosamente, o mesmo aconteceu com Clube de Combate, de Fincher. Talvez não seja evidente, mas os percursos de Mank e de Fincher têm muito em comum, o que torna este filme incrivelmente intimista e especial na carreira do realizador até porque foi, aliás, escrito pelo próprio pai do realizador, Jack Fincher.

Como sempre, o olhar de Fincher é exímio. O que ele faz por detrás das câmaras é muito diferente de outros realizadores seus contemporâneos. Fincher destaca-se por conseguir orquestrar os movimentos dos atores com os movimentos das câmaras, sem que a audiência tenha de enfrentar momentos mortos no ecrã, porque há sempre algo a acontecer. Fincher lê um guião e sabe quando e onde é que a câmara deve subir ou descer, onde vai usar uma panorâmica, ou onde é preferível utilizar um plano geral.

O realizador consegue comunicar com toda a gente no set, desde os atores aos operadores de câmara. É um perfecionista e um apaixonado pelo cinema, que consegue trabalhar com guiões que não são seus e traduzir a palavra escrita para a ação.

Tudo isto está presente em Mank. Uma boa realização é sempre garantida num filme de Fincher. Mank não é um filme para todos os gostos, mas os fãs de Citizen Kane e da obra de David Fincher não sairão desiludidos.

Promising Young Woman, um dos filmes mais importantes dos Globos de Ouro

Emerald Fennell estreia-se como realizadora em Promising Young Woman, que conta uma história de vingança mais importante do que parece. Antes de trabalhar realizadora, Fennell é conhecida do público como atriz, tendo aparecido em The Crown no papel Camilla Shand, e em filmes como Anna Karenina A Rapariga Dinamarquesa. Como argumentista, escreveu seis dos vinte e seis episódios de Killing Eve, série criada por Phoebe Waller-Bridge. É também autora de quatro livros e está a preparar um novo musical com Andrew Lloyd Webber. Por outras palavras, Fennell tem um currículo invejável.

Promising Young Woman conta a história de Cassandra (Carey Mulligan), que todas as semanas vai a um bar, finge estar bêbada, vai com um homem para casa e ensina-lhes uma lição. Traumatizada pelo suicídio da sua melhor amiga, Nina, que foi violada enquanto estava inconsciente quando as duas estudavam medicina na faculdade, Cassandra tenta vingar a morte da amiga ao desafiar estes predadores sexuais que se acham inocentes. Contudo, a trama intensifica-se quando Cassandra reencontra Ryan (Bo Burnham), um antigo colega de faculdade que lhe recorda o violador de Nina. Embora Ryan pareça ser um “bom rapaz”, Cassandra descobre uma parte do seu passado que motivam uma história de vingança.

Promising Young Woman é um dos melhores filmes de 2020, desde o elenco ao guião. Não há uma falha a apontar nem nenhum “mas”. Carey Mulligan prova que é uma das melhores atrizes do seu tempo, num dos melhores papéis da sua carreira.

A história de Promising Young Woman é das mais importantes nos Golden Globes deste ano. Emerald Fennell chama a atenção para os “bons rapazes”, que dizem não saber que a mulher que levam para casa estava “assim tão bêbeda” e que “ela não disse não”. Mais que tudo, é uma história necessária em 2021. Fennell acusa também os cúmplices dos violadores, que protegem os amigos e não pensam na pessoa que foi violada, e que se defendem com desculpas como “isso já foi há muito tempo” ou “eu nem sabia bem o que se tinha passado”. Fennell toca com o dedo na ferida, porque alguém o tem de fazer.

Margot Robbie, protagonista de Bombshell: O Escândalo, filme sobre o mesmo tema, é também produtora deste filme. Em 2019, Bombshell foi desvalorizado por parte da crítica mas, assim como Promising Young Woman, são dois filme com histórias importantíssimas que precisam de ser contadas.

Os 7 de Chicago, o passado marca presença nos Golden Globes

Para alguém que queria trabalhar com teatro, Aaron Sorkin revelou-se uma das figuras mais importantes tanto do cinema norte-americano contemporâneo, como também da televisão, com a criação de Os Homens do Presidente e The Newsroom. Sorkin trabalhou maioritariamente como argumentista ao longo da sua carreira, chegando a receber o Oscar para Melhor Argumento Adaptado com A Rede Social. Em 2017, estreou-se como realizador com Molly’s Game, com Jessica Chastain Idris Elba. O seu segundo filme enquanto realizador, Os 7 de Chicago, está agora nomeado para Melhor Filme de Drama nos Golden Globes deste ano.

O filme conta a história verídica do julgamento de sete ativistas que protestaram contra a Guerra no Vietname na cidade de Chicago, durante a convenção do Partido Democrático norte-americano. Embora os ativistas se conhecessem vagamente uns aos outros, foram acusados de conspiração e de terem iniciado um motim que levou a um confronto violento com a polícia. Em conjunto com estes sete ativistas, foi também julgado Bobby Seale, líder e fundador dos Black Panther. Desde o início do julgamento que Seale avisa não ter nada a ver com os restantes ativistas e que não tem o advogado presente para o defender. No entanto, o juiz ordena que ele seja julgado em conjunto com os restantes ativistas.

Quando Sorkin escreveu o guião em 2007, talvez não imaginasse que uma das frases mais importantes do filme fosse Bobby, consegues respirar?”. O advogado dos sete ativistas, William Kunstler, faz esta pergunta a Seale depois de este ter sido amordaçado e acorrentado durante o julgamento. Sem saber, Sorkin acabou por fazer alusão ao assassinato de George Floyd em 2020, às mãos de um polícia. É incrível como a realidade dos Estados Unidos nos finais dos anos 60 se continua a repetir até hoje, e como uma história passada há cinquenta continua relevante.

Globos de Ouro
Bobby Seale, no julgamento dos 7 de Chicago / Fonte: Library of Congress

Fred Hampton, membro dos Black Panther, serviu de “pseudo-advogado” de Bobby Seale, mas foi assassinado pela polícia durante o decorrer do julgamento. Quando Seale diz, em tribunal, que Hampton fora assassinado, foi amordaçado e espancado. A cena, em si, não é chocante. O que é chocante é que uma cena destas não esteja restrita ao cinema, a um filme sobre os anos 1960 mas que a realidade da violência policial continue a ser uma realidade quotidiana.

Existe outra marca do passado no nosso presente, também retratada no filme de Sorkin. Durante os confrontos entre a polícia e os manifestantes, os agentes de autoridade retiram a pequena placa com o nome do uniforme antes de começaram a espancar a multidão. O mesmo aconteceu em Portugal no verão de 2020, durante protestos pacíficos contra o despejo de um infantário abandonado que fora ocupado por pessoas em situações de pobreza. Ao Expresso, um voluntário disse que alguns polícias “vinham fardados, outros sem uniforme“. Forças policiais parecem continuar a ter carta branca para operar como quiserem enquanto anónimos, se assim preferirem, sem sofrerem consequências pelos seus atos.

Os 7 de Chicago é um dos filmes mais pesados nomeados para os Golden Globes e, a par de Promising Young Woman, um dos mais relevantes.

Nomadland – Sobreviver na América, um recorte de literatura norte-americana

Nomadland é o maior projeto da carreira de Chloé Zhao até agora. O filme é inspirado no livro da jornalista Jessica BruderNomadland: Sobreviver na América no Século XXI, um trabalho de investigação sobre a vida nómada americana. O filme foi escrito, realizado, produzido e editado pela própria Zhao, que foi premiada com o Leão d’ Ouro no Festival Internacional de Cinema de Veneza.

O filme conta a história de Fern (Frances McDormand), que decide comprar uma autocaravana e fazer-se à estrada depois de ter ficado desempregada e viúva. Pelo caminho, arranja empregos sazonais e encontra outros nómadas que se dedicaram a este estilo de vida. Por esta altura, é seguro dizer que McDormand vai ficar para a história como uma das grandes atrizes norte-americanas dos nossos tempos, pois não há nada que ela não faz. Não há personagem demasiado difícil para ela, ou guião demasiado complexa. McDormand aparece e a sala cala-se e se há algo de errado no filme, não será a sua performance.

Nomadland lembra verdadeiras peregrinações da literatura norte-americana de viagem, autores como Mark TwainErnest Hemingway Jack Kerouac. A personagem nómada de Fern lembra, por exemplo, o errante Sal, de Pela Estrada Fora, de Kerouac. Por outro lado, Nomadland também se afigura a um documentário, pois vários dos atores não interpretam personagens, mas eles próprios. É a própria Swankie que interpreta Swankie, e o próprio Bob Wellls que dá vida ao vlogger Bob Wells.

No entanto, é um pouco fútil rotular Nomadland com estas etiquetas, porque o filme merece mais, por ser uma lufada de ar fresco como foi Parasitas, no ano que passou. É um filme muito original e diferente dos restantes que estão nomeados para esta categoria nos Golden Globes. A voz jovem de Chloé Zhao, neste filme, dá-nos vontade de ver tudo o que a realizadora fez anteriormente e motiva-nos a continuar a acompanhar o seu trabalho, pois conseguimos perceber que há aqui alguém com um olhar muito especial.

O Pai, um retrato impressionante sobre demência

Florain Zelle, um dos melhores dramaturgos do nosso tempo, estreou-se no cinema em 2020 com O Pai, uma adaptação cinematográfica de uma das suas peças. O filme conta a história de Anthony (Anthony Hopkins), que sofre de demência, e de Anne (Olivia Colman), a sua filha, que volta a morar com o pai por causa da sua condição. À medida que vai envelhecendo, Anthony começa a duvidar das suas capacidades, das intenções da filha e da própria realidade.

Ao longo do filme, vamos tendo acesso ao estado mental de Anthony, que tenta explicar à família o que está a sentir, a batalha interior que luta contra a doença. Tal como a peça, o filme foi bem recebido pela crítica, que elogiou o retrato da demência pintado por Zelle. O Pai é uma ode às nossas mentes, assim como à nossa sanidade mental, algo que podemos tomar por garantido, mas que facilmente pode desaparecer.

A história de Anthony toca-nos porque todos conhecemos alguém se tenha sofrido, ou sofra, com uma doença mental. E, tal como outras doenças, as doenças mentais podem desenvolver-se sem nos darmos conta. É importante prevenir e tomar conta das nossas mentes como tomamos conta do nosso corpo, porque o cérebro é um órgão que tem de ser cuidado, tal como o coração ou o fígado.

Anthony Hopkins é um veterano do cinema, cujo nome não precisa de introduções. Como seria de esperar, Hopkins dá outra grande interpretação neste filme, uma das melhores da sua carreira. O eterno Hannibal Lecter prova, novamente, que consegue interpretar qualquer papel e que está à altura de qualquer guião que lhe seja posto nas mãos. O Pai é um retrato cru e honesto, sendo, a par de Nomadland, um dos filmes mais originais nesta edição dos Golden Globes.

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