Daft Punk
Fotografia: Nabil

Daft Punk. A viagem ao passado que criou o futuro (atual) da pop

A 22 de fevereiro, os Daft Punk, um dos grupos mais importantes da música eletrónica e de dança das últimas duas décadas, anunciou o seu fim. O Espalha-Factos faz uma viagem pelo tempo e recorda-te os melhores momentos da dupla que tem movimentado as pistas de dança desde 1993.

A nostalgia enquanto veículo de emoções na música dos Daft Punk

Lembro-me de, enquanto uma criança ignorante dos problemas do mundo, percorrer o troço da Nacional 327 que liga Vila de Cucujães a Ovar, nesses dias solarengos longos de verão longínquo. Preso por um cinto, no banco de trás do velho Astra dos meus pais, o leitor de cassetes ia trocando entre sons mais antigos, da época de adolescência dos meus pais, e alguns dos êxitos mais recentes.

No meio dessas cassetes, existia uma que contava com uma faixa que se iniciava como se uma festa estivesse prestes a acontecer, e cuja melodia se aproximava e distanciava, mas mantendo uma componente repetitiva que estimulava-me a tentar libertar-me dos cintos de segurança que me seguravam e dançar. Ouvia-se, no refrão: One More Time, e lá vinha a melodia imparável. Apesar de não compreender o que estava a ser cantado, era impossível ignorar o quão contagiante era a música que estava a ser ouvida. É das primeiras memórias que me lembro associadas a música.

Anos mais tarde, já enquanto um adolescente com acesso à Internet e, em especial, ao Youtube, cheguei ao vídeo de ‘One More Time’, dos Daft Punk. “Bonecos fofos”, pensei na altura, enquanto me deliciava com aquela melodia. Agora, no entanto, a música tinha nome e uma banda. ‘One More Time’, fora da sua componente musical e descritiva, é a faixa de abertura do segundo disco dos Daft Punk, grupo de eletrónica francês formado por Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter, Discovery.

Daft Punk - Discovery
Lançado em 2001, Discovery viu os Daft Punk abraçar a nostalgia da infância e o seu amor pela música e criatividade.

E porque é que estamos aqui a falar de viagens de carro que se passaram há cerca de 20 anos e de passagem do tempo? Porque um dos grandes temas e componentes essenciais de Discovery é a nostalgia. Em 2001, Thomas Bangalter, em entrevista à revista Remix, falava precisamente da nostalgia da infância. “Este álbum tem muito a ver com a nossa infância e das memórias do estado em que estávamos nessa altura da nossa vida. É sobre a nossa relação pessoal com esses tempos.” No entanto, chega de nostalgia – já lá voltamos – e vamos falar de música.

O caminho musical de Homework até Discovery

Daft Punk - Homework
Em Homework, os Daft Punk apresentavam uma coleção de músicas que levaram a house ao mainstream da eletrónica.

Para isso, dêmos um passo atrás de 2001 para 1997, ano em que os Daft Punk se estreiam, com Homework. É um disco extremamente importante na história da eletrónica e da house, levando os Daft Punk para a linha da frente da música de dança a nível global, especialmente com singles como ‘Da Funk’, ‘Revolution 909’ ou ‘Around the World’, que serviriam de base para o desenvolvimento de sons explorados em Discovery.

E Homework é um disco de dança puro, que às vezes fica ligeiramente ofuscado pelos singles que dele saíram e que dominaram a pista de dança. Faixas do disco como ‘Alive’, ‘High Fidelity’ ou ‘Rock’n Roll’ conseguem atingir a qualidade dos singles, permitindo-lhes a entrada no panteão da música de dança. No entanto, e apesar do quão cheio de qualidade está Homework, é um trabalho que peca por soar mais a uma coleção de canções que foram agregadas ali do que a um disco compacto, com uma história com princípio, meio e fim.

Surge, então, Discovery. À semelhança do seu antecessor, Discovery surge enraizado na música house, com o seu aproveitamento do funk e disco da década de 70, como vísivel em ‘Harder, Better, Faster, Stronger’, faixa seminal do grupo. No entanto, em Discovery passa a existir uma (maior) desconstrução das regras musicais da eletrónica. Se em ‘One More Time’ já nos apercebemos disto, em ‘Aerodynamic’ passa a tornar-se ainda mais óbvio. Por entre o groove funk surge um solo de guitarra que ecoa a nostalgia de arenas preenchidas pelos épicos do hair metal, como Eddie van Halen ou Yngwie Malmsteen, com o seu tapping que tem tanto de irreverente como de piegas.

Aliás, muita da produção levada a cabo em Discovery tem esse objetivo. Colocar a música a soar massiva, como se estivessemos presentes na tal arena, como se pode ouvir na batida gigante e pulsante de ‘Superheroes’, onde os arpeggios influenciados pelo rock progressivo encontram nova vida, soando a como se o superherói da nossa série favorita estivesse prestes a aparecer no nosso ecrã. A nostalgia está aqui a regressar, mas há que voltar ao presente.

sampling e o amor à música dos Daft Punk em Discovery

A arte do sampling, ou seja, a técnica de re-utilizar outras músicas ou sons como parte de uma composição, sempre foi vastamente utilizada na música house, desde os seus primórdios em Chicago, até aos dias de hoje. Os Daft Punk não são exceção, e em Discovery os samples são tratados de forma exímia, servindo como parte do processo da descontrução musical levada a cabo pelo duo. O grande exemplo disto é a faixa ‘Face to Face’, que conta com co-produção e vocais do produtor Todd Edwards.

Em ‘Face to Face’, várias camadas são cirurgicamente trabalhadas – há, pelo menos, cinco samples utilizadas em ‘Face to Face’ – para criar algo extremamente cativante. Contando com um dos melhores hooks do disco, ‘Face to Face’ apresenta-se como uma modificação da música house para criar algo que faz a ponte entre os ritmos do disco com a pop. E este tipo de momento não é único no disco. Veja-se o exemplo da energética e grooveyCrescendolls’, da repetição melódica de ‘High Life’, ou da romântica e lamechas ‘Digital Love’, onde os hooks se multiplicam até culminar num solo que nos volta a lembrar os maestros das arenas do rock dos anos 80, e que até nos deixa a questionar se está a ser tocado por um teclado sequenciado ou por uma guitarra elétrica.

Esta é uma dúvida que vai surgindo ao longo de vários momentos de Discovery, e tem uma razão de ser. Neste trabalho, os Daft Punk juntaram música criada com a ajuda de sequenciadores a música tocada com instrumentos reais e ao vivo, criando sons que tanto soam orgânicos e espontâneos como se tivessem sido criados em computador. Um dos exemplos mais notórios é ‘Something About Us’, onde a sua groove funk se junta ao downtempo para capturar o passado de forma tão sublime que, em momentos, quase que antecipa o surgimento da vaporwave anos mais tarde.

A história de Discovery e a liberdidade criativa procura pelos Daft Punk

E, quando a nostalgia de ‘Something About Us’ se abate sobre nós, já se conhece o suficiente de Discovery para nos apercebermo-nos que há uma narrativa a ligar estas canções. É uma viagem pelo mundo do passado dos Daft Punk, mas ao mesmo tempo, é uma viagem que revela o seu amor para com a arte de criar música.

O clímax desta viagem é apresentado na faixa ‘Veridis Quo’ – um anagrama para Discovery – onde os sintetizadores épicos, mas sonhadores e distantes, soam como se de uma ópera se tratasse. É porque, de alguma forma, Discovery é uma ópera, e esta imagem revela-se ao visualizar o filme de animação que acompanha o disco. Intitulado de Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem, a longa-metragem realizada por Kazuhisa Takenouch e supervisada pelo maestro Leiji Matsumoto foi produzida e escrita pela banda. Sem diálogo e com o uso mínimo de efeitos sonoros, o enredo de Interstella 5555, que gira em torno do rapto de uma banda de extraterrestres, vai sendo revelado pela junção entre a música de Discovery e os visuais de Kazuhisa.

Interstella 5555
A acompanhar Discovery, a longa-metragem Interstella 5555 apresenta-se como uma forma de demonstrar a ética habitual de trabalho na indústria do entretenimento da qual os Daft Punk se tentavam distanciar.

E há paralelos a ser feitos entre a história de Interstella e a indústria de entretenimento. Ao longo dos anos, vários são as histórias de artistas cuja indústria abusou deles, colocando a sua criatividade a um canto perante a busca incessante de vendas e lucro. Os Daft Punk, nesse aspeto, sempre foram um grupo que privilegiou controlo sobre o seu processo criativo, de terem a liberdade para serem eles próprios e criarem a música que queriam e quando queriam. Bastante punk, diga-se. “Temos muito mais controlo do que dinheiro. Não se pode ter tudo. (…) Controlar aquilo que fazemos é liberdade. As pessoas tem de deixar de pensar que um artista que controle aquilo que faz é uma coisa má”, explicava Bergalter, em 2001, numa entrevista à Yahoo Music.

Daft Punk
Design original dos fatos que passariam a ser imagem de marca dos Daft Punk. Fotografia: Tony Gardner

Uma das formas do grupo obter controlo sobre a sua própria narrativa criativa foi a forma como se apresentavam ao mundo, revelada no caminho para o lançamento de Discovery. Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bergalter passaram a apresentar-se como figuras humanóides, vestindo fatos de robot nas suas sucessivas aparições públicas. “O objetivo era criar uma identidade para eles que podia ter longevidade. Eles tinham a ideia de que queriam ser robots para incorporar nos vídeos para Interstella 5555, e depois ter os robots a ganhar vida para o novo álbum [Discovery]”, conta Tony Gardner, responsável pelo design das fatiotas do grupo, num artigo deste mês da Creative Boom.

A influência progresssiva dos Daft Punk no mundo da música e da cultura popular

Com Discovery e com a sua fatiota de robot, os Daft Punk iniciaram um processo de influência na cultura pop e no mundo da música cujo efeitos ainda se sente hoje. Após Discovery, a banda lançou mais dois discos, um álbum ao vivo e uma banda sonora, para o filme Tron: Legacy, em 2010. Primeiramente, em 2005, lançaram o sucessor de Discovery, Human After All.

Daft Punk - Human After All
Divisivo entre fãs e críticos, Human After All apresentava um lado mais abrasivo dos Daft Punk, mais próximo do techno que da house.

Bastante divisivo entre fãs e críticos, Human After All é um disco bastante diferente e menos imediato quando comparado com o seu antecessor. Adapta uma produção menos polida, mais ruidosa e abrasiva, e com uma palete sonora mais próxima do techno e industrial, e as músicas assentam muito mais em loops e repetições de melodia que se propagam durante a sua duração. E aqui reza o “problema” com Human After All: ao ouvirmos este disco, é provável que este se torne rapidamente vagoroso na sua extenção. No entanto, há bons momentos, como é o caso da faixa que dá nome ao disco, ou ‘Television Rules the Nation’.

Human After All  é um trabalho que demonstra a coragem dos Daft Punk em fazerem sempre algo de diferente, mantendo-se fiéis a si mesmos e aos seus objetivos. Em 2001, Bangalter referia exatamente isso: “Nunca queremos fazer a mesma coisa duas vezes”. E nunca o fizeram.

Por esta altura, a influência dos Daft Punk já se começava a notar, mas ainda estaria longe de estar completamente realizada – e ainda nem hoje está. Em 2007, Kanye West, na altura a mudar a forma como o rap se podia apresentar ao mainstream, apresentava ‘Stronger’, um dos singles de Graduation. West utilizou uma sample de ‘Harder, Better, Faster, Stronger’ na criação da faixa, mostrando que a influência dos Daft Punk no mundo da música estava a ir além da eletrónica. E quem seria Kanye no seu percurso musical se nunca tivesse incorporado a eletrónica no seu processo criativo?

Ao mesmo tempo que Kanye criava uma das suas mais notáveis faixas, os Daft Punk iniciavam Alive 2006/2007, uma digressão – a primeira desde 1997, e última do duo – que faria esquecer a receção morna que Human After All tinha recebido. Desta digressão, resultou um disco ao vivo, Alive 2007, que é, sem grande margem de dúvidas, um dos melhores álbuns ao vivo de eletrónica já gravados, representado o expoente máximo da criatividade dos Daft Punk como artistas e produtores. Com esta digressão, onde o palco em estilo pirâmide se tornava o centro das atenções, os Daft Punk iriam influenciar a cultura do EDM que iria ter o seu boom daqui a poucos anos.

Palcos megalómanos, construídos à medida da estética de cada DJ, começaram a tornar-se um dos principais elementos do género. Os seus fatos de robot  permitiram e influenciaram outros artistas, como deadmau5, a apresentarem-se como algo não-humano, de forma a personalizar a sua música à personagem criada. Mas o jogo dos Daft Punk vai muito além da eletrónica.

pop sem ser pop que estava à frente do seu tempo

Ao longo da década passada, uma nova era da pop tem vindo a surgir. Lentamente, tem-se inserido no mainstream, e parece finalmente estar a atingir o seu expoente máximo neste início da década de 2020. Se olharmos para Future Nostalgia, de Dua Lipa, o maior disco de 2020, a influência de Discovery – mas não só, não esquecemos Kylie Minogue – é notória na criação dele. Dua Lipa e os seus colaboradores retiram influências ao passado, trazem-nas para o presente e trabalham-nas para conferir um som futurista, mas que é, ao mesmo tempo, nostálgico. Tal e qual como os Daft Punk realizaram em Discovery, e a influência deste disco e dos Daft Punk na pop ainda só agora se está a fazer notar.

E os próprios Daft Punk fizeram parte deste movimento que recriaram como a pop podia soar: elegante, cativante, nostálgica e futurista ao mesmo tempo. Em 2013, Random Access Memories, daria mais uns hinos para o panteão da história da música ao grupo. Afastando-se da eletrónica pura de Human After All, e em vários momentos a soar como o sucessor espiritual de Discovery, R.A.M., como ficou conhecida, leva-nos numa viagem até às pistas de dança do final da década de 70, onde o disco reinava – mas atualizando-o, incutindo-lhe manipulação de sons que os Daft Punk fazem tão bem.

Daft Punk - Random Access Memories
Lançado em 2013, Random Access Memories viu os Daft Punk darem mais espaço a instrumentação orgânica e menos a sequenciadores.

R.A.M. é um disco extremamente bem construído, e até há o argumento que pode ser feito que, em termos de estrutura, é o disco mais bem conseguido dos Daft Punk. Desliza-se entre as faixas de forma suave e gradual, e vai-se explorando a história do disco e do funk via a contribuições de artistas como Nile Rodgers, Giorgio Moroder, Julian Casablancas, dos The Strokes, ou Panda Bear, dos Animal Collective. Rodgers contribui em algumas das melhores faixas do trabalho como ‘Lose Yourself to Dance’, com a sua groove interminável, e que conta também com a colaboração de Pharrell Williams – ambos presentes em outra faixa do disco, ‘Get Lucky’: quem não se lembra do verão de 2013? – ou ‘Give Life Back to Music’, faixa de abertura do trabalho, que logo nos apresenta a sonoridade que nos vai deliciar os ouvidos, com os seus toques de funk e rock progressivo a juntarem-se às manipulações vocais dos Daft Punk.

Tal como em Discovery, R.A.M. consegue ser cativante como a pop, mas não é pop propriamente dita. Os Daft Punk nunca foram um grupo pop, atenção. O que aconteceu foi que, em consequência da qualidade inerente aos seus trabalhos, várias das suas músicas constituíram-se em hinos reconhecidos por grande parte das pessoas, desde o ouvinte casual até ao crítico de música mais pretensioso. Fazem parte das nossas memórias, não é?

O final da história e um obrigado sincero

Random Access Memories seria a última carta que os Daft Punk nos teriam para oferecer. Apesar de vários rumores de que nova música estaria ao virar da esquina desde 2013 para cá, e algumas colaborações, nada de novo surgiria. Até que, no passado dia 22 de fevereiro, o grupo lançava no seu canal de Youtube um vídeo intitulado de Epilogue, contendo cenas da longa-metragem assinada pela banda em 2006, Electroma. Ao invés da tão esperada nova música, era o anúncio do fim do grupo, ao som de ‘Touch‘, faixa de R.A.M.. A 22 de fevereiro de 2021, os Daft Punk tornavam-se, finalmente, humanos.

O porquê, aqui, não importa. O que importa é toda a obra deixada, as memórias que nos foram criadas por um dos artistas cuja influência na cultura pop e no mundo da música ainda se está a fazer sentir. Se estamos perante uma situação como outro dos grandes da dança contemporânea, os LCD Soundsystem, que terminaram e regressaram mais tarde, também não sabemos. O que sabemos é que, por agora, a história deu-se por concluída. E foi muito bonita, ao ponto de a nostalgia já tomar conta de nós quando nos lembramos da música dos Daft Punk. Lembrar, de vez em quando, pode ser um exercício muito bom.

Comecei esta narrativa a apresentar a história de, no velhinho Astra, ouvir ‘One More Time’ pela primeira vez. E termino-a invocando um verso de ‘One More Time’ que considero crucial no meu desenvolvimento enquanto indivíduo.

Music’s got me feeling so free

We’re gonna celebrate’

E, por isso, só posso dizer uma coisa: obrigado. Não serei o único a sentir já esta nostalgia – espero. Esperemos que, um dia, celebremos todos juntos. Mais uma vez.

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