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Fotografias: D.R./CNN

Reportagem da CNN vencedora de um Emmy conta com dois jornalistas portugueses

'Maduro's Blood Gold' foi divulgada pelo canal de televisão norte-americano em agosto de 2019.

Maduro’s Blood Gold, reportagem de 2019 da CNN sobre a corrupção no governo de Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, venceu um Emmy de Notícias e Documentários. Na equipa estão Vasco Sousa Cotovio e Isa Soares, dois jornalistas portugueses.

A peça, que reúne os resultados de uma investigação de seis meses, aborda a ligação a gangues criminosos e o sistema corrupto de exploração de minas de ouro do qual Maduro beneficia. Em português O Ouro de Sangue de Maduro, foi divulgada pelo canal de televisão norte-americano em agosto de 2019 pelo programa The Lead with Jake Tapper – Isa Soares dá a cara e Vasco Cotovio é também um dos investigadores e produtor.

Recentemente, Maduro’s Blood Gold foi distinguido com um News & Documentary Emmy Award na categoria de Melhor Reportagem de Negócios, Consumidor ou Economia pela Academia Nacional de Artes e Ciências norte-americana. A reportagem estava também nomeada para uma segunda categoria – Melhor história num programa de notícias.

Vasco Cotovio, jornalista na CNN em Londres desde 2014, declarou à agência Lusa que esta reportagem contribuiu para um abrir de olhos no resto do mundo face ao que está a acontecer na Venezuela: “O que nós vimos a nível internacional é que passou a prestar-se mais atenção a este tipo de movimentos de ouro, tanto pelos Estados Unidos como pela União Europeia, que começaram a usar uma linguagem semelhante àquela aplicada à extração de diamantes em África, os chamados diamantes de sangue”.

Para além disso, Cotovia acrescentou que “passou a haver mais atenção e mais pressão sobre o governo venezuelano para que isto deixasse de acontecer, mas, no terreno, como o poder continua nas mãos de Maduro, não mudou”, defendendo que o caminho para a mudança ainda é longo.

Os desafios da reportagem

Vasco e Isa, ambos portugueses a trabalhar na CNN mas com caminhos bastante distintos, viajaram para a Venezuela para realizar a peça, sendo que ultrapassaram vários desafios de forma a dar vida à reportagem premiada. Um deles foi entrar numa mina de 50 metros de profundidade, na região de Orinoco, onde tiveram de descer durante dois minutos em direção ao centro da terra, atividade que o gabinete de análise de risco da CNN os desaconselhou a realizar.

Acerca desta experiência, Isa Soares revelou à revista Sábado que “entrar na mina foi um perigo, o sistema para descer era muito básico, só umas cordas. E eu não conhecia aqueles homens. Só pensava: ‘O que me vai acontecer quando estiver lá em baixo? Será que posso subir?’ Pensei o pior.

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Isa Soares na mina venezuelana. | Fotografia: Reprodução/CNN

Desta forma, para aliviar a tensão e ganhar a confiança dos mineiros, Isa e Vasco revelam que o truque é falar sobre o português Cristiano Ronaldo: Começa logo uma conversa sobre se o Messi é melhor ou não. Ajuda a desarmar“.

Para além disso, uma vez que a Venezuela é atualmente palco de vários confrontos, os jornalistas explicaram que sentiram algum receio durante a viagem; no entanto, tal não os impediu de prosseguir a reportagem. Uma das situações mais alarmantes foi quando Vasco e Isa se cruzaram duas vezes com homens encapuçados com metralhadoras na mão dentro de carrinhas pick-up, contam à imprensa. A visita à zona mineira foi igualmente rápida: “estivemos muito pouco tempo na zona porque há muitas guerrilhas. Ficámos um dia e uma noite e nunca dissemos que éramos da CNN”, explicou Isa Soares à Sábado.

O sistema corrupto de Nicólas Maduro

Tal como os diamantes de sangue, aqui temos o ouro de sangue. Maduro trata aquela zona como se fosse património dele. As pessoas são quase escravas. Vivem num clima de tensão e de medo. Correm riscos todos os dias“. A declaração de Vasco Cotovio à Sábado resume o problema que a reportagem da CNN pretende expor.

Desta forma, o ouro que é extraído das minas da Venezuela por mineiros que vivem em condições precárias é contrabandeado. Posteriormente, esse ouro é vendido clandestinamente e as receitas da venda beneficiam Nicolás Maduro. Adicionalmente, durante o processo de extração de ouro, os mineiros são forçados a conviver com gangues armados e militares venezuelanos, que alegadamente desrespeitam os direitos humanos e a proteção ambiental.

Vasco Cotovio acrescentou à Lusa que, embora a reportagem tenha tido impacto para a consciencialização do problema, “estivemos lá em dezembro e o que vimos é que a situação não está melhor. Apesar dos esforços comunidade internacional para serem feitas mudanças políticas, a situação económica continua a deteriorar-se pela pandemia de Covid-19“.

As carreiras destes jornalistas portugueses na CNN

Não são os únicos portugueses a integrar a redação de um dos maiores canal de notícias do mundo, mas são dos que mais estão a dar cartas em trabalhos de escala global.

Vasco Sousa Cotovio licenciou-se em Comunicação Social e Cultural pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa e tem um mestrado em Relações Internacionais pela Universidade Queen Mary, em Londres. Depois de uma passagem pela redação da SIC Notícias, junta-se à redação britânica da CNN em 2014, inicialmente na editoria de desporto.

Atualmente parte da equipa de recolha de notícias e produtor no terreno, Cotovio foca-se no report das áreas europeia, africana e do Médio Oriente, ao produzir peças e reportagens em diversos formatos e para diferentes plataformas do canal.

Apesar de ser a primeira vitória nos Emmy, já esteve nomeado em 2017 pela sua cobertura aos ataques terroristas em Manchester durante um concerto da artista Ariana Grande. Fez também parte da equipa que trabalhou na cobertura do assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi, que recebeu um prémio duPont-Columbia em 2020.

Isa Soares nasceu e cresceu em Lisboa e vive atualmente em Londres, para onde se mudou aos 11 anos. Estudou na cidade, onde concluiu um bacharelato em Estudos Hispânicos e Lusófonos pelo King’s College e um mestrado em Relacões Internacionais e Económicas pela Universidade de Bristol.

Começou a carreira em 2004 como produtora na CNN, mas acabou por se tornar correspondente internacional. Cobriu acontecimentos como os ataques terroristas em Barcelona, as eleições pela independência da Catalunha, o rescaldo do furacão Irma em Porto Rico, a crise económica na Grécia ou a vitória de Portugal no EURO2016. Antes do Emmy, Isa Soares venceu o prémio AIB pela sua cobertura à crise dos refugiados no Mediterrâneo.

Além de correspondente, é uma das pivôs do programa Your World Today with Isa Soares and Cyril Vanier, que habitualmente vai para o ar nas noites de segunda a sexta-feira na CNN internacional – mas está fora do ar desde 2020 por mudanças na programação provocadas pela situação pandémica.

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‘Your World Today with Isa Soares and Cyril Vanier’ | Fotografia: Reprodução/CNN

Recentemente, Isa Soares e Vasco Cotovio voltaram a trabalhar juntos numa série de reportagens realizadas em Portugal. Em janeiro, acompanharam equipas do INEM e mostraram o funcionamento da unidade de cuidados intensivos do Hospital de Cascais durante os meses de maior pressão nos serviços de saúde, causada pela nova vaga da pandemia.

com Tiago Serra Cunha

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