Luca Argel
Fotografia: Kristallenia Batziou

Luca Argel: “A História devia servir como prevenção contra certas tragédias”

Luca Argel edita esta quarta-feira, dia 17 de fevereiro, o seu novo projetoSamba de Guerrilha. Em conversa com o Espalha-Factos, o artista brasileiro, residente no Porto há mais de dez anos, revela que esta é uma tentativa de mostrar “o que é o samba”“o que ele representa, quais são as possibilidades dele, tanto musicais, quanto políticas também”.

O que é para ti o “Samba de Guerrilha”? De onde nasceu todo o conceito?

O Samba de Guerrilha é a minha tentativa de mostrar o que é o samba para mim, estou a tentar explicar o que é o samba para mim e o do que ele é capaz na minha imaginação, o que ele representa, quais são as possibilidades dele, tanto musicais, quanto políticas também. Esse projeto surgiu não como um álbum, eu inicialmente não tinha ideia de gravar um álbum com essas músicas, essa foi uma ideia que foi amadurecendo ao longo de cinco anos. À partida ,esse projeto foi, e ainda é, um projeto de concerto-workshop, um concerto informal, em que eu dialogo com as pessoas, conto histórias, toco as músicas. E também já ganhou outros formatos. Ganhou o formato em rádio, em revista, em seminário na universidade… Ele teve várias encarnações e o álbum é a mais recente delas.

Luca Argel
Fotografia: Kristallenia Batziou

Os dois temas lançados primeiro parecem apresentar quase uma luta viva contra o racismo e a ditadura. Achas que esta luta é cada vez mais importante no contexto em que vivemos?

Sim, sim. Infelizmente é. E infelizmente essas músicas, que são bem antigas já — já têm 50 anos ou quase 50 anos as duas —, continuam atuais. Elas continuam atuais naquilo que elas demandam, que é a igualdade, respeito e liberdade, sobretudo. O ‘Almirante Negro’ é uma música que, ainda por cima, fala de um facto que aconteceu há mais de 100 anos e a gente ainda enxerga os mesmos problemas, a herança desses problemas de há centenas de anos ainda persistindo hoje em dia. Então, eu acho que o próprio conceito do álbum infelizmente não envelheceu, porque os problemas não envelheceram, continuam persistindo.

Qual é a mensagem mais importante que queres transmitir às pessoas com este álbum?

São várias mensagens. Do ponto de vista político, eu acho que a mensagem principal é um repto anti-racista, é denunciar o racismo estrutural, o racismo histórico e mostrar como é que o samba, a história do samba e alguns sambas específicos são testemunhos de que esse racismo existe e tem consequências que a gente sente até hoje.

Do ponto de vista mais estético, mais puramente estético, a minha intenção é tentar apresentar o samba a partir de um outro ponto de vista, principalmente tendo em consideração o público português, que é um público que não necessariamente tem a mesma relação afetiva e a mesma intimidade com o samba que os brasileiros. Os brasileiros possivelmente já conhecem muitas daquelas músicas e muitas daquelas histórias, mas os portugueses não necessariamente. Alguns, eu tenho a certeza que conhecem, mas não a generalidade. E eu, como já trabalho com o samba há muitos anos em Portugal, noto que existe um estereótipo construído em redor do samba, muito ligado ao Carnaval, àquelas imagens que a gente vê na televisão na época do Carnaval, dos desfiles, das escolas, daqueles carros alegóricos, de mulatas sambando… Que é um lado muito importante do samba, e existe, mas ele é só uma fração do que o samba representa. Ele tem uma história muito mais profunda e tem um repertório muito mais sofisticado, muito mais complexo, que a maioria das pessoas não conhece. Então a minha ideia com o álbum também é expandir o horizonte das pessoas em relação ao samba, conhecer um outro lado dele e escutá-lo de uma outra forma, com outros instrumentos, com outro tipo de arranjos.

Foi um desafio adaptar o samba para públicos não brasileiros?

Sim. Esse é um desafio constante que eu tenho, não só com o meu trabalho a solo, mas também com o trabalho de todos os grupos que eu faço parte. Essa tentativa de tocar samba, mas não se restringir ao público brasileiro, não cair num lugar que para nós acaba sendo muito tentador de fazer música de imigrante para imigrante, porque essa identificação é mais fácil, não precisa de fazer muita força para que ela aconteça. O desafio maior é tocar samba para pessoas que vêm de um outro background de lugar, de experiência musical, cultural até, e eu, como brasileiro em Portugal, assumo muito esse desafio de tentar dialogar com o público português, independentemente se ele tem familiaridade ou não com o samba. Eu acho que o samba tem força suficiente para mostrar o seu valor e para ser apreciado por qualquer pessoa.

Como foi pegar em vários sambas que já existiam e torná-los um bocadinho mais teus?

Foi muito gostoso. Foi um prazer muito grande fazer isso, porque todas as músicas são músicas que eu adoro e, quando a gente faz um arranjo para uma música, a gente acaba ficando ali naquele momento, virando um pouco de co-autor dela, porque isso de tentar inventar uma nova roupagem para as músicas é um trabalho criativo, de criação tanto quanto escrever uma música.

Em alguns momentos não foi fácil. Algumas músicas, o ‘Almirante Negro’, por exemplo, é um tema que eu já há muitos anos tinha na cabeça uma ideia de arranjo para ela, que eu queria em algum momento fazer. Tinha isso já muito claro, um conceito, que sons usar, o que fazer em cada parte da música… Isso já era um desejo que eu tinha e ela já existia dentro da minha cabeça. Mas outras músicas do álbum, tipo o ‘Direito de Sambar’, do Batatinha, é uma música que eu queria incluir no álbum, achava que ela conseguia amarrar bem a narrativa da história do Samba de Guerrilha, naquele lugar do álbum, mas a primeira tentativa que eu fiz de gravar não deu muito certo. Não fiquei muito satisfeito e então pedi ajuda ao Carlos César Mota, que é o percurssionista que me acompanha, para ele criar um arranjo de percurssão. E depois, em cima do arranjo dele, é que coloquei outros instrumentos.

Nem sempre é fácil dar essa volta nas músicas. Eu nem sei, até agora, se eu mudei o género das músicas, se elas deixaram de ser samba musicalmente. Eu acho que não, mas a minha proposta foi sempre tentar esticar ao máximo a corda e tentar aproximar as músicas de um limite do que pode ser considerado samba e do que já não é mais samba. Quanto mais próximo desse limite, melhor.

Depois do Bandeira e do Conversa de Fila, este álbum parece ser um bocadinho o romper com um registo algo doce para procurar outros caminhos. O que levou a esta mudança?

Eu acho que o Samba de Guerrilha, pela própria proposta conceptual dele, não é um álbum que funcionaria só com voz e violão. Eu acho que ele perderia muita força. Já os meus outros álbuns, não, porque a ideia deles era dar destaque total ao núcleo da canção, à letra e à melodia e o resto, tudo o que tem à volta, tentei reduzir o mínimo possível.

Acho que esta mudança é uma consequência do que eu quero com cada projeto e também tem outro fator, que é de ordem prática, mas que é importante mencionar, que o Bandeira e o Conversa de Fila são álbuns que eu gravei pensando no palco, em como eles funcionariam ao vivo. Eu tinha muito interesse em fazer álbuns cujos concertos fossem muito portáteis, muito fáceis de circular pelo país, de viajar. Nesse objetivo, deu bastante certo, porque eu consegui tocar muito com os dois álbuns e, o facto de ser só voz e violão, no caso do Bandeira, ou então voz, violão e uma certa percurssão, muito reduzida, facilitou muito o transporte, viagens, até palcos, tocar em palcos menores, com menos condições… Eram álbuns que cabiam em qualquer sítio. O Samba de Guerrilha não. O Samba de Guerrilha eu gravei sem ter ideia de como vou traduzir isso no palco. Quando a gente puder começar a fazer concertos eu, não sei como é que vou fazer. Estou até um pouco preocupado, mas paciência. Na hora dou um jeito.

Na apresentação do disco, ele é descrito como “uma viagem no tempo”. Achas que é mesmo disso que as pessoas precisam neste momento em que vivemos?

Eu acho que muita gente precisa, sim, porque conhecer a história que está para trás é muito importante para a gente não repetir os mesmos erros. Eu acho que a gente vê isso muito nitidamente hoje em dia, a repetição de erros que a gente já viu dando errado antes, já viu onde certos tipos de comportamento levam e continuam cometendo os mesmos erros. Por isso, eu acho que a História deveria servir para isso, deveria servir como uma espécie de prevenção contra certas tragédias, certos erros.

Algumas coisas a gente não consegue prever, tipo pandemias. A gente não consegue prever. Essas tragédias acontecem sem que a gente tenha força para prevenir. Mas outras coisas a gente tem condições de enxergar o problema futuro que aquilo vai gerar. Eu acho que as questões que o Samba de Guerrilha levanta são coisas completamente previsíveis, porque são coisas que se vêm repetindo há mais de um século. Espero que pessoas que não conhecem essas histórias ganhem e absorvam mais ferramentas para espalhar essas ideias e para argumentar contra pessoas que reproduzem comportamentos racistas, por exemplo.

Luca Argel
Fotografia: Kristallenia Batziou

O disco reúne mais do que apenas música, conta também com narração, ilustração e poesia. De onde surgiu a vontade de juntar todas estas vertentes num só trabalho? Como foi isso, muito complicado?

Foi, foi complicado. Deu muito trabalho, até porque fui eu que coordenei tudo sozinho. Mas tive pessoas muito talentosas trabalhando comigo. As ilustrações, por exemplo, algumas delas já estavam feitas há muitos anos, porque eu já publiquei o Samba de Guerrilha num formato de artigo, numa revista chamada Cão Celeste. Nessa revista, o artigo foi ilustrado por um ilustrador de Lisboa que é o José Feitor. Algumas ilustrações dessa altura foram recuperadas e acabaram parando dentro da edição física do projeto e ele adicionou mais algumas. Depois tive uma outra pessoa que deu um formato para isso tudo, editou os textos, fez a diagramação toda direitinha. Os vídeos foram coisas que eu deixei na mão de pessoas mais competentes do que eu, dos realizadores. Até uma certa altura, eu acho que a minha função foi mais de um treinador da equipa. Já tinha o disco gravado, mas as outras coisas eu ia só dando as direções para as pessoas e depois montava tudo de novo.

Neste disco, trabalhaste também com artistas como Vinicius Terra, Frankão, Telma Tvon e Karla da Silva. Como foi a experiência de trabalhar com cada um deles?

Foi muito tranquilo, porque são todos amigos muito queridos. O Vinicius Terra está no Brasil, então esse trabalho foi mais à distância. Aqui, com a Karla e o Frankão foi também muito tranquilo, porque os dois estão aqui no Porto e vieram aqui em casa gravar. Na verdade, a Karla veio, o Frankão gravou num estúdio que ele tem lá na casa dele. Mas é assim, eu já trabalho com o Frankão há oito anos quase, no Samba sem Fronteiras. Então foi muito fácil trabalhar com eles. A Karla há menos tempo, porque ela chegou há menos tempo aqui, mas também já fizemos muita coisa juntos, a gente acabou de lançar uma música juntos, nossa primeira parceria.

A parte das colaborações foi muito tranquila. Eu já sabia com quem queria trabalhar e sabia que ia ser fácil.

Que expectativas tens acerca deste trabalho que é lançado de forma tão diferente dos restantes trabalhos musicais?

Eu espero que as pessoas ouçam bastante o álbum e espalhem bastante o álbum. Sei lá, depois que lanço um álbum, gosto de deixar ele ganhar vida própria nas mãos dos outros. Gosto de ver músicas sendo apropriadas até. Nesse caso já é um álbum de versões, mas quando são músicas autorais eu gosto de ver as versões que as outras pessoas fazem das minhas músicas. Nesse caso, as versões já fui eu que fiz, mas sei lá, as pessoas podem pegar nessas versões e fazer ainda outras.

Mas talvez a minha expectativa principal seja conseguir colocar esse álbum no palco de uma forma interessante e que seja possível fazer concertos em breve. Gosto muito de tocar ao vivo e acho que a expectativa que eu jogo em cima dos álbuns é que eles gerem mais concertos, que as pessoas queiram ir a um auditório, ou ir a um festival, ou ir a algum sítio para assistir aquilo sendo tocado ao vivo.

Como te está a afetar este novo confinamento? Ficaste com projetos e eventos por concretizar?

Sim, muitos. Acho que toda a gente. Eu tinha concertos que iam acontecer agora no início de março e que foram cancelados e que já eram adiamentos de concertos de 2020, que já tinham tido duas datas em 2020, passaram para 2021 e agora tivemos de cancelar. Então é muito frustrante. Nessa altura do confinamento, eu já estou numa de não criar muitas expectativas com as coisas que aparecem. Se acontecer, ótimo, estou no lucro. Mas se não acontecer e for cancelado, pronto, já é o habitual, estamos sempre sujeitos a isso.

Como está a cultura nesta fase? A pandemia está a ser um perigo para a cultura?

Com certeza. Já há muitos profissionais da cultura que não estão tendo rendimentos, estão tendo que mudar de área, arranjar outros trabalhos, procurar outras coisas para fazer, porque não têm trabalho simplesmente. Acho que os apoios que chegam do Governo, e eu tive alguns desses apoios e foi o que me possibilitou chegar até ao final de 2020, demoram muito a chegar. As respostas demoram sempre muito a chegar e vêm sempre cheias de condicionantes.

A gente está falando de uma categoria, os profissionais da cultura, em que existe um nível de informalidade muito grande e um nível de precariedade muito grande. Nem todo o mundo tem atividade aberta, tem situação regularizada nas Finanças e Segurança Social para poder aceder a alguns apoios. E isso não é um problema das pessoas, porque as pessoas são irresponsáveis. Isso é um problema geral do setor, que as relações de trabalho que existem nele não estão feitas para proteger os trabalhadores quando acontece alguma coisa desse género.

Então, eu acho que o setor da cultura está sofrendo muito, já perdeu muitas estruturas, certamente está perdendo muitos profissionais, vai sair diminuído desse período de pandemia e eu não estou vendo infelizmente o Estado a agir no sentido de tentar corrigir esses problemas estruturais do setor para que não se repitam. Está aí essa coisa da História que se repete. São problemas previsíveis, que já no início da pandemia foram identificados. Já estamos no segundo ano de pandemia e é muito previsível o que vai acontecer se o Estado não agir e, mesmo assim, as coisas não acontecem, está tudo muito lento. É desesperador assistir isso.

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