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Capa de 'TYRON'. Fotografia; divulgação

Crítica. A afirmação de slowthai, uma das vozes mais fortes de Inglaterra

Se 2020 foi um ano com álbuns surpreendentemente bons, 2021 será o rescaldo do trabalho do ano que passou. Esta produtividade fora do comum parece dever-se aos confinamentos ao redor do mundo. Com a ausência de concertos, os artistas regressaram ao estúdio e ao bloco de notas. slowthai foi um dos muitos artistas que aproveitou o isolamento social para escrever TYRON, o seu segundo disco, depois do estrondoso Nothing Great About Britain.

Tyron Frampton, ou slowthai, estilizado em minúsculas, é um rapper inglês nascido em Northampton. Com 24 anos escreveu Nothing Great About Britain que, embora fosse um álbum de estreia, atingiu a nona posição das tabelas britânicas logo após o lançamento. O álbum ficou caraterizado pelas letras agressivas, sobre o descontentamento com o Brexit e com as políticas de Theresa May, ex-primeira-ministra do Reino Unido e líder do Partido Conservador, e de Boris Johnson, que atualmente ocupa o cargo. Numa atuação para o Mercury Prize, prémio atribuído ao melhor disco do Reino Unido e Irlanda, para o qual estava nomeado, slowthai causou controvérsia por aparecer com uma cabeça falsa de Boris Johnson.

Com TYRON, slowthai mantém-se tão ou mais agressivo nas suas letras e nos seus instrumentais. Maioritariamente escrito e produzido em parceria com Kwes Darko e Samo, slowthai afirma-se como alguém cuja fama se deve, não à controvérsia, mas por ser um artista dedicado ao seu som e às suas letras.

slowthai sobre slowhtai

TYRON está dividido em dois volumes. No primeiro, o nome de cada canção aparece estilizado em maiúsculas, como ‘MAZZA’ e ‘CANCELLED’. Por sua vez, no segundo, as letras aparecem estilizadas em minúsculas, como ‘nhs’ e ‘adhd’, tal como o artista estiliza o próprio nome, congruente com o facto de este ser o mais íntimo dos dois.

A capa do próprio álbum dá, à partida, algumas pistas sobre o que esperar do disco: o artista, vestido de preto, caído morto sob uma macieira com uma seta na testa e uma maçã empoleirada na cabeça. As atenções não estão mais voltadas para outros elementos, ao contrário do primeiro álbum, mas nele próprio. Aqui temos a seta na testa de slowthai, num álbum com o seu nome, Tyron, um artista que agora se debruça sobre ele próprio. Do outro lado da copa da macieira, cai um fruto, apanhado ainda em queda pela câmara. O artista parece pedir “alguém que lhe atire uma seta, pois agora as atenções estão viradas para mim“. Este conceito funciona bem na segunda metade do álbum, mas acabará por se tornar maçador na primeira.

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Capa de ‘TYRON’. Fotografia: divulgação

Uma montanha-russa em caps lock

A primeira metade do disco é uma montanha russa construída com elementos de hip-hoppunkgrime trap. Ao contrário do primeiro disco, o artista traz-nos um som mais polido e, de certo modo, mais comercial.

O primeiro volume conta com colaborações de conceituados artistas do meio como A$AP Rocky Skepta, respetivamente, nos singlesMAZZA’ ‘CANCELLED‘. Para além da letra de cada faixa ser redundante e fechada sobre si mesma, os temas não parecem pertencer a este disco. Embora, musicalmente, alinhem na sonoridade do álbum, não fazem parte do corredor de som que slowthai vai construir com as canções seguintes, uma espécie de medley que vai desde a faixa ‘VEX‘ até ‘PLAY WITH FIRE‘.

Por isso, e embora as faixas com A$AP Rocky e Skepta funcionem bem como singles e estejam muito bem conseguidas musicalmente, acabam por não encaixar no resto do álbum. Entende-se que foram colocados no disco do mesmo modo que outros singles são colocados noutros discos: para servir de suporte comercial, pois nenhuma das outras faixas do primeiro volume soaria bem individualmente numa primeira escuta. Embora existam outros discos cujos singles alinham na temática do álbum – como ‘Blinding Lights’ em After Hours de Weeknd – este não é o caso.

Outro aspeto do primeiro volume do álbum que também não funciona muito bem são as tiradas de slowthai sobre mães e Harry Potter. As contantes referências a “your mum” (“a tua mãe“) soam fora de sítio pois, mesmo sendo uma piada inofensiva, vai contra a seriedade que slowthai tenta trazer para si enquanto artista e não funciona bem como fuga cómica dada a constante repetição, e o mesmo acontece com as múltiplas referências a Harry Potter. Se o objetivo do artista era tentar estabelecer comunicação entre as faixas através do uso das mesmas referências, então falhou, pois são dois elementos do qual não se consegue extrair grande significado.

Em minúsculas, mas sem silêncio

Embora o primeiro volume do disco seja mais “barulhento”, as palavras de slowthai na segunda metade do álbum fazem mais barulho que as batidas digitais. Nesta, o artista aborda temas como o amor, as drogas e a saúde mental. Antes do álbum, slowthai lançou dois singles deste segundo volume: ‘nhs‘ e ‘feel away’.

Tal como o nome indica, ‘nhs’ é dedicada ao National Health Service, o serviço nacional de saúde público inglês. No entanto, o artista não dedica esta faixa à pandemia de covid-19 mas sim à saúde mental – um setor da saúde que acaba por ser, também, afetado pelo novo coronavírus. slowthai abre a música com “Tyron jumped the bridge, would you do the same?” (“Tyron saltou da ponte, farias o mesmo?“). Mesmo falando sobre um assunto sério e pessoal, slowthai brinda-nos com o seu sentido de humor cínico no videoclipe da música, no qual dança sobre uma torre de papel higiénico. Ao contrário de piadas sobre mães e comparações com Harry Potter, esta referência funciona porque é inteligente, mesmo que simples.

Na canção de abertura do segundo volume, ‘i tried‘, uma das melhores composições do álbum, slowthai também fala sobre suicídio, no verso “(I tried to die) The pain won’t die” (“(Eu tentei morrer) A dor não vai morrer“).

A primeira metade do disco flui bastante bem para a segunda, mesmo que a sonoridade seja diferente. O álbum tem pouco mais de trinta minutos, sendo que nenhuma música tem mais de quatro. Se o álbum se cingisse a uma só sonoridade, seria mais monótono e cansativo, pelo que o músico conseguiu conciliar bem estes dois estilos e provar que o nome slowthai não é o de um assunto de controvérsia, mas sim um artista multifacetado.

No segundo volume, slowthai surpreende com músicos que não pertencem ao hip-hop, como James Blake, com quem partilha o single feel away‘. E junta-se também a nomes menos conhecidos, como Dominic FikeDeb Never Mount Kimbie. O rapper Denzel Curry também participa na segunda metade do álbum, na faixa ‘terms‘.

Assim, slowthai cria um álbum eclético, com contribuições de nomes de lados opostos do espetro musical – do trap de A$AP Rocky ao pop de James Blake, do grime de Skepta ao universo acústico de Deb Never.

À semelhança do primeiro volume, a segunda metade do disco também funciona como uma espécie de medley, no qual as músicas conversam uma com a outra. No final do álbum, com ‘adhd‘ – sobre o transtorno de défice de atenção e hiperatividade -, slowthai escreve um crescendo que culmina num beijo de despedida entre as últimas notas da canção.

Com TYRON, slowthai mostra-nos um lado mais corajoso. Embora traga os seus versos chocantes, há uma coragem que faltava no primeiro disco. Desta vez, o artista mostra-se dedicado ao que diz e ao que faz, sem “dizer por dizer”. Ao falar sobre assuntos pessoais, slowthai entrega-se à sua audiência, tanto aos antigos como aos novos fãs da sua música. Com este disco, slowthai afirma-se como uma das vozes mais poderosas de Inglaterra – não por ser controversa, ou antissistema, mas por ser corajosa, por dizer aquilo em que realmente acredita e por não ter medo de mostrar as suas cicatrizes e demónios.

 

 

 

 

 

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