Rádios Livres, um momento na história da rádio em Portugal
Rádios Livres, um momento na história da rádio em Portugal

Dia Mundial da Rádio. E quando fazer rádio era coisa de ‘piratas’?

Década de 1980 em Portugal. O movimento das rádios livres em Portugal é particularmente intenso. Amigos reúnem-se para debater ideias, pagam a conhecidos por equipamento barato, amador e fácil de desmontar. Quase todas as localidades têm a sua própria rádio, mas nenhuma é legal. 

Foi preciso esperar pela Lei da Rádio de 1989 para que fossem legalizadas, num processo que muito teve de controverso e que deixou muitas rádios para trás. Ainda assim, a legalização das rádios pirata marcou para sempre o contexto radiofónico português, tornando possível que hoje possam operar, dentro da lei, mais de 300 rádios em Portugal.

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Uma rádio “para dar voz aos que não a têm”

Artigo de jornal da época

Luís Bernardo não gosta do termo “pirata” para designar as rádios livres, pela conotação negativa associada. Prefere pensar na origem da Rádio Íris como uma “iniciativa que foi feita no verão de 1985 em que um grupo de amigos” para “dar voz” aos habitantes da cidade de Samora Correia, no distrito de Santarém.

Com o gira-discos de uma pessoa, com o microfone de outra e com o leitor de cassetes de outra pessoa, a Rádio Íris foi para o ar”, conta um dos seis fundadores da Rádio Íris, legalizada em 1989, depois de ter vencido o alvará público e do seu projeto ter sido aprovado contra outros três de outras rádios livres do concelho de Benavente. A Íris venceu “por unanimidade”, diz.

Apesar de “Íris” ser a deusa egípcia da comunicação, o nome deriva do termo “Serviço de Informação Regional Independente”, lido ao contrário. Os primeiros tempos foram passados num estúdio improvisado montado num sótão, até se mudarem para a atual morada da redação. Ao contrário do que aconteceu com outras rádios pirata espalhadas pelo país, a Rádio Íris teve o apoio das autoridades políticas regionais da zona, que a viam como uma oportunidade de promover as suas ações, tal como a população, que encontrava na rádio uma maneira de “encontrarem soluções para os seus problemas”, quer sejam “buracos nas ruas” ou “problemas de abastecimento de água e energia”, explica Luís Bernardo.

Em 1987, Luís Bernardo foi um dos organizadores de uma reunião nacional de rádios livres, em Samora Correia. Esta e uma série de outras reuniões foram passos em direção da criação do Instituto das Rádios Locais, futura Associação Portuguesa da Radiodifusão, da qual a Rádio Íris, hoje, é “o sócio número um”, refere Luís Bernardo, com orgulho.

Da clandestinidade à legalidade

Rádio Caroline foi a primeira rádio pirata, emitia de um navio britânico, na década de 1960

Hoje em dia, a Associação Portuguesa da Radiodifusão [APR] apoia e representa todas as rádios nacionais, locais e regionais. Ainda enquanto Instituto das Rádios Locais, teve como objetivo preparar as rádios para o processo de legalização, composto por um concurso público para o qual todas as rádios tiveram de encerrar temporariamente a 24 de dezembro de 1988, algumas calando-se para sempre. Segundo o JPN, as condições do concurso eram tão restritas que muitas rádios não tinham recursos, o que fez com que apenas metade delas resistisse à legalização: 314 estações vencedoras dos alvarás públicos e de direitos de emissão.

Dessas 314, está a Rádio Diana FM, de Évora, fundada pelo atual presidente da direção da APR, José Faustino. Inicialmente com ideia de formar um jornal, o jornalista conta que a ideia de fazer uma rádio partiu de si, convencendo os amigos a formar “uma rádio meio de fantochada”, como a classifica nos primeiros tempos de existência. 

A grande maioria das rádios livres eram feitas por amadores, tendo sido um canal para a crescente profissionalização do setor. Ao início, tinham um tempo de emissão muito curto: no caso da Diana FM, ao início, a emissão durava três horas, das 22h às 1h, tendo-se posteriormente estendido para o período da tarde e da manhã.

O tempo reduzido de emissão, numa fase inicial, pode ser explicado, por um lado, porque as rádios eram alimentadas por pessoas “que tinham as suas próprias atividades profissionais e faziam rádio nos tempos livres”, explica José Faustino, e para fugir às autoridades. Algumas pessoas, refere o jornalista, tiveram de andar “a correr com o material atrás, num jogo de gato e rato”.

Ainda assim, muitas foram “toleradas” por as autoridades perceberem que era um “movimento inevitável“. “Não fazia sentido, num regime democrático, não haver possibilidade de licenciar as rádios“, comenta José Faustino.

TSF: Contra a hegemonia dos “dois grandes”

Francisco Sena Santos, foto de Comunidade Cultura e Arte

Em Portugal, só emitiam diariamente as chamadas duas irmãs: RDP (com vários canais, RDP-1, RDP-2, Rádio Comercial e RDP-Internacional) e a RR (com o Canal 1 e a RFM)”, explica o jornalista Francisco Sena Santos, referindo-se às duas emissoras legais em Portugal, em contraste com a ilegalidade das rádios locais existentes na década de 1980.

Francisco Sena Santos foi um dos fundadores da TSF, depois de se ter despedido da RDP, em dezembro de 1987. “Em dezembro de 87 despedi-me da RDP, juntamente com o Emídio Rangel, o Carlos Andrade, o David Borges e a Teresa Moutinho para pormos no ar a TSF. Iniciámos a emissão em 29 de fevereiro de 1988”.

Nunca nos considerámos rádio pirata – mas uma rádio privada, independente na prática jornalista, em luta pela legalização”, explica o um dos “pais” de uma das maiores rádios portuguesas atualmente.

Rádios Pirata e Rádios Universitárias: irmãs ou primas afastadas?

Inês Martins, foto de ESCSFM

Passados mais de 30 anos do movimento das rádios livres, Inês Martins, jornalista estagiária da Antena 1, conta-nos a importância das rádios universitárias para dar aos jovens a oportunidade de, tal como em tempos, terem um primeiro contacto com a rádio sem serem profissionais. 

Na ESCS FM (rádio da Escola Superior de Comunicação Social) foi onde eu percebi que gostava muito de rádio e que me via a fazer isso na minha vida profissional. Gostei muito de lá estar e foi lá onde eu aprendi a maior parte das coisas que sei hoje, porque a troca de conhecimento entre os mais novos e os mais velhos ajudou-me a perceber muita coisa – quer a nível de como é que se escreve para rádio, a entoação, a dicção, etc. Fiz programas de animação, programas de música e cheguei a ter lá um podcast. Depois, comecei a descobrir que aquilo de que eu gostava mesmo era informação, por isso posso dizer que estar numa rádio universitária mudou o rumo da minha vida.

Quanto às possíveis semelhanças entre as rádios livres e as rádios universitárias, Inês só vê uma: “Acho que o único ponto onde as rádios universitárias e as rádios livres se podem tocar é no facto de não serem acreditadas”.

Hoje, as rádios vêm-se lado a lado com outro movimento que está a mudar a forma de pensarmos conteúdos radiofónicos: os podcasts. O mundo da rádio e da comunicação social está sempre em mudança, e o movimento das Rádios Livres em Portugal de forma alguma esgotou toda a inovação que pode existir dentro de um setor em permanente transformação.

Artigo com Inês Lacerda

Edição Especial de Notícias da Semana no Dia Mundial da Rádio:

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