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Fotografia: EF via Freepik

Felicidade em série. Como a cultura nos pode deixar mais alegres no confinamento

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Ao ligar a televisão, é fácil de imaginar: uma montagem de imagens, com música triste e dramática, daquelas que servem de retrospetiva nos telejornais ao momento obscuro que se vive. A felicidade revela-se pouca, escondida entre as preocupações.

O cenário pode ser avassalador e o dia-a-dia, em plena época de confinamento, de digestão difícil. A informação sobre o mundo é contínua e, praticamente todos os dias, traz notícias que não queríamos receber, mas que são agora parte, pelo menos por mais algum tempo, da nossa vida enquanto sociedade.

Num momento em que é fácil ficarmos assoberbados pela crise que vivemos, surge a necessidade dos muito desejados momentos de abstração do “mundo real”. Estes refúgios, que podem variar consoante a pessoa, “são momentos que podem ajudar aqueles que têm mais dificuldades em controlar os seus próprios pensamentos desalentadores”, diz ao Espalha-Factos a psicóloga Helena Marujo, especialista em psicologia positiva.

Estes momentos, potenciadores de felicidade, podem ter várias facetas, sendo essencial como tempo para parar e “repensar prioridades”. A coordenadora do executive master de Psicologia Positiva Aplicada no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP/UL) explica que “são úteis no sentido de relembrar que há mais que uma realidade, sobretudo quando deixamos que o nosso pensamento nos leve para uma perspetiva monocórdica do dia-a-dia, em que não conseguimos pensar em mais nada sem ser no vírus, em pandemia, em problemas económicos”.

Vanessa Yan, psicóloga e coach de Carreira e Saúde, explica ao EF que estes “mecanismos cognitivos e comportamentais” permitem “alhear dos desafios do quotidiano por alguns momentos”, algo que pode ser “muito eficaz para ganharmos perspetiva e forças para continuar a lidar com a situação” e criar positividade.

A cultura como escape

A análise da cultura relativa ao aumento da qualidade de vida surge nas medições de bem-estar individual, baseadas em indicadores de várias dimensões. Incorporam a participação e integração em atividades de entretenimento e recreação, segundo medições de desempenho económico e progresso social.

O consumo de cultura recetiva – aquela em que não se participa, apenas se absorve – é descrita por publicações de saúde (como o Journal of Epidemiology and Community Health) como meio de redução de stress e agilizador da saúde mental; logo, criadores de felicidade. “A arte pode realmente ser um meio de ligação às próprias emoções e necessidades e, por isso, uma boa estratégia de coping, diz Vanessa Yan.

A psicóloga, cuja atuação se foca, entre outros aspetos, no desenvolvimento pessoal e na Inteligência Emocional, considera que produtos culturais são uma “forma de expressão dos conhecimentos e valores de uma dada comunidade, sendo também uma tentativa de entender o mundo e a nós próprios”. Ao gostarmos de nos abstrair com a televisão, o cinema, a música ou os livros, fazemo-lo da mesma forma “como os nossos antepassados gostavam de contar e ouvir histórias”. Através destas histórias, “construímo-nos a nós mesmos e podemos encontrar também soluções para os nossos próprios desafios”.

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Fotografia: Andrea Piacquadio / Pexels

Helena Marujo exemplifica: “se eu vir, por exemplo, um programa de humor que me faça rir, isso tem efeito inclusivamente no meu sistema imunitário. Temos neurotransmissores e hormonas a ser libertados na corrente sanguínea – as chamadas hormonas do bem-estar – que potenciam a endorfina e a serotonina, têm efeitos bons do organismo e são, até, protetoras da doença. Estou a cuidar da minha saúde psicológica e da física também.

“Um consumo consciente de conteúdos culturais pode ajudar na nossa autoconsciência, autoexpressão e até a melhorar as nossas relações com os outros – todas estas facetas da Inteligência Emocional”, considera Yan.

Positividade, mas sem esquecer o que nos rodeia

As especialistas alertam, no entanto, que é preciso manter atenção para a situação em que o mundo se insere, de modo a que “esses momentos não se transformem em alienação”, explica Helena Marujo. Vanessa Yan complementa e refere que “o evitamento ou negação emocional pode ser prejudicial” e causar um aumento de stress e negatividade, “sobretudo se for usado de forma recorrente”.

Para a coach, sobretudo em altura de confinamento, manter-nos informados é essencial, mas com regras: “é importante usar apenas fontes oficiais credíveis e atualizadas de informação, como a DGS e a OMS, mas esta consulta deve ser feita de forma racional, evitando consultar notícias mais do que duas vezes por dia. Quantidade não é sinónimo de gravidade“, alerta, recomendando “procurar ativamente por boas notícias, pelo menos uma vez por dia”.

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As especialistas reforçam que devemos procurar manter-nos informados, mas com regras. | Fotografia: Nathana Rebouças/Unsplash

“Temos que manter uma perspetiva crítica, informados e com conhecimento daquilo que é factual”, acrescenta Helena Marujo, realçando que, de forma equilibrada, é bom manter esse distanciamento: “por vezes podemos realmente envolver-nos em atividades, que sejam formas de não só desligar as pessoas do tal único foco, mas que as podem ajudar do ponto de vista emocional, trazendo emoções prazerosas, positivas. Conseguir diversificar o foco é uma forma saudável de viver”.

Televisão. A janela do mundo foi também o escape possível

A televisão assumiu papel principal no filme do confinamento. Em 2020, confrontados com o número limite de atividades possíveis, o pequeno ecrã serviu de janela para o mundo real. Transmitiu as notícias em tempo real, que eram – e são – uma constante, mas serviu também de cinema, de sala de teatro ou mesmo como a arena possível condensada em pequenas polegadas.

A cultura visual chegou àqueles que a procuraram através da televisão. O streaming, com cada vez mais força, reinou neste campo. 2020 foi, por exemplo, o ano de maior crescimento para a Netflix e viu a Disney+ acabar o ano com números acima dos 130 milhões pouco depois da sua estreia, estes que são os líderes de um mercado em constante expansão. Servimo-nos dos filmes e das séries, os antigos e os novos que conseguiram estrear, com as produtoras a agradecer o stock alongado de conteúdos que acabou por salvar os meses de paragem. 

Fotografia: Divulgação

Pesquisas científicas comprovam que ver televisão pode, em muitas ocasiões, ser mais triste do que feliz; em especial durante a pandemia, precisamente devido à torrente de informação negativa que chega através dos noticiários. A relação entre ver televisão e a melhoria de qualidade de vida não é clara, uma vez que “mesmo quando alguns programas de TV nos melhoram o ânimo, o efeito é temporário e, sobretudo, implica que deixámos de investir esse tempo noutros comportamentos potencialmente mais benéficos e intelectual ou fisicamente mais ativos”, explica a psicóloga Vanessa Yan.

Ainda assim, a televisão (ou proceder a estes consumos em media semelhantes) não “torna ninguém menos feliz” por si só. Atividades como ver televisão, ouvir música ou ler um livro podem ser “boas estratégias” se o indivíduo as considerar potenciadoras de bem-estar e felicidade, “mas sempre que as encaramos como meios para nos darmos a nós mesmos uma pausa, e não como um fim em si mesmo”, reforça a psicóloga e coach.

Durante o confinamento, porém, foram (e continuam a ser em muitas ocasiões) as distrações possíveis. A este clube dominado pelo streaming juntam-se os canais, generalistas e do cabo, num ano de recordes no consumo televisivo.

Em muitos casos, o conteúdo ia sempre parar ao número de novos casos, mortes e internamentos. Helena Marujo considera que, nessa situação, deve-se “fazer uma escolha sabendo porque ela é feita – intencionalmente ver um filme, ver um programa, ver uma telenovela; é uma estratégia que a pessoa sabe que funciona para o seu bem-estar. Ajuda nessa consciência de que há atividades da vida que têm aspetos saudáveis é algo essencial neste momento que vivemos”.

É nesta consciencialização que os veículos que se focam na cultura, seja a mais erudita ou aqueles que passam séries todo o dia, todos os dias, ganharam especial importância.

Culta e adulta para todos, em sinal aberto

Em sinal aberto, de serviço público e disponível para todos, a RTP2 assume-se diretamente como “culta e adulta”. A programação do canal, pouco assente na informação de atualização geral, tendo apenas um noticiário curto, é a alternativa (quer na forma, quer no conteúdo) ao que se vê nas restantes generalistas. A cultura é o ponto-chave das escolhas para a grelha, que pretende ser criativa e de divulgação de áreas das artes e do saber.

Parte das séries, documentários, filmes, concertos e artes de palco selecionadas pelo canal têm, entre si, um ponto comum: felicidade. Quem o garante é Teresa Paixão, diretora de programas do canal, que diz ao Espalha-Factos que a RTP2 é “um canal alegre”. No dia-a-dia, “às vezes conta histórias também tristes, porque elas também existem, mas é um canal cultural que tem programas que às vezes não estão nos canais culturais. Não é um canal de humor, claro, mas é um canal alegre”.

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Teresa Paixão, diretora de programas da RTP2. | Fotografia: M&P

As audiências, que nem sempre correspondem ao esperado, não são o principal foco da diretora da estação. Apesar de alguns percalços em 2020, Teresa Paixão reforça que a missão da dois durante a pandemia foi aproximar-se ainda mais da sua génese. A opção foi “ter programas em que as pessoas pensem em coisas que nunca pensaram, que se deslumbrem e que acrescente alguma coisa ao seu conhecimento. E que em alguns momentos se calhar toquem naquilo em que vivemos, até para relativizar” e trazer felicidade.

A programação cultural, que pretende “elevar” aqueles que a veem, teve e tem o objetivo de fazer a “evasão das pessoas para outras matérias que são interessantes, dar contextos para relativizar a situação e, ainda, dar-lhes informação para que se possam sustentar e ajudar a perceber melhor as restrições” e o que se passa no mundo.

A felicidade como missão de serviço público

A transmissão de felicidade e escapismo é, a par de informar, uma das missões do serviço público, considera a diretora. “O contrato de concessão diz que devemos passar cultura, inovação. Esta equipa, que é muito alegre, só encara isto se for para as pessoas sentirem o enorme privilégio que é ter aquelas coisas à sua frente. Se fizéssemos as pessoas sentir-se maldispostas, incomodadas por não compreender, não seria serviço público, porque não estávamos a contribuir em nada para ninguém”.

A escolha de conteúdos é feita a pensar em chegar a diferentes públicos de uma forma acessível e que torne a experiência de visualização destes conteúdos o mais agradável possível: “queremos que as pessoas digam «que engraçado, nunca pensei nisto»”.

Porém, acima de escape, a grelha da RTP2 pretende uma “maior perceção” do mundo, para que não se esqueça a responsabilidade social. “Quando passámos As Febres do Século, sobre a pandemia de 1918, damo-nos conta que a maioria das pandemias demoraram 18 meses a dois anos. Era um contexto diferente, mas ficamos com uma informação que nos pode dar um certo descanso. Esses programas não só são escape – vê-se outras coisas, ouvem-se outras informações, que podem contribuir para dar às pessoas uma indicação do que ainda têm pela frente”, diz Teresa Paixão.

Para o futuro, a diretora de programação do canal público pretende continuar a dar às pessoas alguma informação que pode contribuir para educação” – como fizeram recentemente com o alargamento da programação infantil do canal, de modo a acompanhar as crianças em confinamento.

“Vamos ter mais séries que são o day after: como se viveu a seguir à guerra, como o mundo se recompôs, como vamos sair disto. Vamos ter mais filmes que nunca passaram nas salas em Portugal. E vamos ter uma série, que já tínhamos mandado fazer antes da pandemia, que é sobre a história da medicina. Percebemos como a medicina vai evoluindo e cai agora bastante bem com o que vivemos”, adianta sobre as apostas futuras da RTP2 para manter vivo o estatuto de alternativa culta, adulta, infantil ou juvenil.

“Acho que nestes tempos, como na Guerra – na Guerra os teatros nunca fecharam. Não podemos ir ao cinema, mas se pudermos ver um bom filme ou um bom programa em casa, é uma forma de escapar, finaliza.

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