Fran Lebowitz
Fotografia: Divulgação/Netflix

Fran Lebowitz. Quem é esta mulher descaradamente inconformista?

A escritora é a protagonista de 'Faz de Conta que Nova Iorque é uma Cidade', documentário da Netflix realizado por Martin Scorsese.

Fran Lebowitz é a protagonista de Faz de Conta que Nova Iorque é uma Cidade (Pretend it’s a City), que estreou na Netflix a 8 de janeiro. O documentário, de sete episódios, dá forma aos pensamentos de Fran, abordando tópicos que vão desde turistas até às artes, passando pelo dinheiro ou pelo metro de Nova Iorque. É realizado por Martin Scorsese, amigo de longa data da protagonista, um facto bem ilustrado ao longo de toda a série documental.

Afinal, quem é Fran Lebowitz, esta escritora de 70 anos que fala até que alguém a interrompa e nos responde de maneira divertida?

Infância e educação

Fran Lebowitz nasceu em 1950 em Morristown, na Nova Jérsia. Pertence a uma família judia, no entanto não teve um bat mitzvah, nem frequentou a escola hebraica – andou numa escola dominical até aos 15 anos, onde teve problemas por ter dito ao professor que não acreditava em Deus. Numa entrevista ao New Jersey Jewish News, Lebowitz definiu a sua identidade judaica como “étnica ou cultural ou como as pessoas lhe chamam agora. Mas não é religiosa”.

Fran descobriu o amor pelos livros muito cedo, mas na escola era uma aluna fraca em quase todas as disciplinas, principalmente em álgebra (à qual chumbou seis vezes). Numa tentativa de melhorar as notas, os pais mudaram-na para uma escola episcopal feminina, da qual Lebowitz foi expulsa aos 17 anos. Numa entrevista recente ao New Jersey Monthly confessou que teve uma infância feliz em Morristown, mas não o mesmo não aconteceu durante a adolescência. Planeava desde os 13 anos mudar-se para Nova Iorque, o que acabou por se concretizar quando completou 18.

Os primeiros anos em Nova Iorque

Aos 18 anos, os pais mandaram-na viver com uma tia em Poughkeepsie, onde ficou durante seis meses. Em 1969, Fran mudou-se para a cidade de Nova Iorque e viveu em quartos de amigos e dormitórios em Boston, para ganhar algum dinheiro escreveu trabalhos para alunos. Aos 20 anos, decidiu alugar um apartamento e para se conseguir sustentar trabalhou como empregada doméstica, motorista, taxista e escritora de pornografia. Num dos episódios do documentário da Netflix conta que nunca quis trabalhar como empregada de mesa porque a relação sexual com o gerente era um pré-requisito, em muitos casos.

A sua primeira aventura como colunista começa na revista Changes, pequena publicação sobre política e cultura radical-chic fundada por Susan Graham Ungaro, onde Lebowitz, com apenas 21 anos, escrevia críticas de livros e filmes. Em 1972, Andy Warhol contratou-a para escrever para a revista Interview, da qual ele era editor. A partir daí, destacou-se pelo humor ácido, mordaz e inegavelmente crítico sobre a vida urbana e contemporânea. Seguiu-se um temporada na revista Mademoiselle. Durante este período conheceu e travou amizade com muitos artistas, como Peter Hujar ou Robert Mapplethorpe.

Fran Lebowitz e Andy Warhol
Fran Lebowitz e Andy Warhol. | Fotografia: D.R.

Lebowitz destacou-se não só pela rabugice desafiadora que imprime nos seus textos mas também pela sua atitude e forma de vestir – camisa branca, calças Levi’s 501blazer da marca Anderson & Sheppard, botas de couro e cigarro na boca – com o objetivo de reestruturar a imagem da mulher escritora que não é necessariamente feminista, nem escreve, apenas, para um público feminino.

A carreira de escritora e o bloqueio artístico

The Fran Lebowitz Reader
Fotografia: Divulgação

Em 1978, publicou o primeiro livro – Metropolitan Life, um conjunto de ensaios cómicos que tinham sido publicados nas revistas Interview Mademoiselle. Em 1981 sai Social Studies, outra coletânea dos textos publicados nas revistas com as quais colaborou. Anos mais tarde, juntaram os  dois livros num só, The Fran Lebowitz Reader.

Após a publicação do segundo livro, Fran entrou numa crise de bloqueio artística que durou uma década, até à publicação de um livro infantil, Mr. Chas and Lisa Sue Meet the Pandas, em 1994. Desde aí tem trabalhado em vários projetos de livros que não foram concluídos. Numa entrevista ao InsideHook em 2018, Fran afirmou que “parte da escrita é desacelerar o pensamento. Porque pensar é apenas algo que acontece, como inspiração, e é por isso que posso falar – porque não tenho que pensar sobre isso. E escrever é trabalho, o que eu detesto”.

A vida depois da escrita

No entanto, ninguém acha que a história de Lebowitz seja a de um talento prodigioso desperdiçado. Para além dos seus dons para a escrita sarcástica e observação social, é uma oradora exímia, que em alguns passos de retórica consegue elucidar as questões mais complicada, sempre de forma divertida

Devido ao bloqueio artístico, passou a viver de aparições na televisão e palestras. Participou várias vezes no programa Late Night with David Letterman e interpretou a juíza Janice Goldberg na série Law & Order.

Atualmente, ainda escreve para a revista Vanity Fair, para onde foi contratada em 1997 como editora colaboradora e colunista ocasional, faz digressões como oradora pelo país todo e, frequentemente participa no programa The Tonight Show, apresentado por Jimmy Fallon.

Fran Lebowitz no Tonight Show | Fotografia: Divulgação

A série Faz de Conta que Nova Iorque é uma Cidade não foi a primeira vez que Lebowitz colaborou com Martin Scorsese. Public Speaking, um documentário de 2010 da HBO, juntou os dois amigos em colaboração pela primeira vez, onde Fran afirmou, relativamente à nova carreira como oradora: “É o que eu queria durante toda a minha vida. Pessoas a pedirem a minha opinião sem me poderem interromper”. Seguiu-se uma participação no filme O Lobo de Wall Street, em 2013.

A roupa que usa já é uma imagem de marca, tal como o seu humor acutilante. No entanto, Fran também se destaca pela enorme coleção de livros (cerca de 11 mil) e pela sua relutância em usar tecnologia, incluindo telemóvel e computador. Fuma muito, é uma acérrima defensora dos direitos dos fumadores, mas não consome álcool nem drogas desde os 19 anos.

Fotografia: Patrick McMullan

A sua vida pessoal confunde-se com a sua carreira, na qual fez muitos amigos – uma das mais próximas e com quem teve uma longa relação foi a escritora Toni Morrison. Numa entrevista à revista Interview, em 2016, Fran confessou, ‘Sou a melhor filha do mundo. Sou uma ótima parente. Acredito que sou uma ótima amiga. Sou uma namorada horrível. Sempre fui”.

Conhecida pelas piadas inteligentes, humor de observação e opinião sobre uma grande variedade de tópicos, como Nova Iorque, a gentrificação, arte, literatura e política. Esta é Fran Lebowitz. Ao longo de sete episódios, pode ser vista no seu estado natural em Faz de Conta que Nova Iorque é uma Cidade, já disponível na Netflix.

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