Britney Spears canta em evento de Ano Novo

Britney Spears. A princesa enclausurada na torre de marfim

O documentário Framing Britney Spears, produzido pelo The New York Times e distribuído pela FX e Hulu, consolida ao longo de quase uma hora e meia um retrato duro sobre a vida da cantora.

Princesa da pop e um dos nomes incontornáveis na viragem do século, a artista foi responsável por, numa época em que as boys bands dominavam os charts, voltar atrair os olhares para as artistas femininas a solo. Entre 1998 e 2004, dominou e influenciou o mercado musical em todo o mundo, abrindo caminho para uma legião de novas artistas e popularizando as jeans de cinta descida e os piercings no umbigo.

No entanto, esta não foi a única marca que deixou. Nos anos que se seguiram, depois da separação de Justin Timberlake – com quem formava o casal emblema da pop – e após o casamento falhado com Kevin Federline, embrulhada na disputa legal pela custódia dos filhos Sean Preston e Jayden James, o mundo pôde assistir com estupefação à sua autodestruição, muito ajudada, senão mesmo causada, por uma imprensa vampírica e por uma sociedade aberta e inconscientemente misógina. O testemunho de Daniel Ramos, pautado por uma total ausência de empatia ou assunção de culpa, é a evidência disso mesmo. Daniel trabalhava como paparazzo e, nas palavras dele, nunca lhe pareceu que Britney Spears não quisesse que eles estivessem ali.

Ninguém falava de ansiedade, ninguém tinha awareness sobre saúde mental. Estávamos no início do século, os talk-shows faziam piadas sobre a sexualidade da artista, os entrevistadores perguntavam-lhe sobre a sua virgindade ou afirmavam, de ânimo leve, que toda a gente falava sobre as suas mamas. A mulher de um governador chegou a afirmar que, se pudesse, dava um tiro em Britney Spears, pela sua má influência sobre as crianças. Foi há 13 anos, mas parece que foi há séculos.

É nessa sequência que, em 2008, a sua vida e património passam a ser tutelados e geridos pelo pai, Jamie Spears, e por um batalhão de advogados e outros consultores. Foi nesse mesmo ano que assistimos a um comeback glorioso, cheio de prémios e com novos trabalhos e tours, depois de um 2007 problemático, em que atacou paparazzi, rapou o cabelo ou circulou errática, retratada descuidada e em trajes menores. No entanto, terá sido este comeback um verdadeiro regresso?

Britney Spears na capa da Rolling Stone de dezembro de 2008
“Yes She Can!” titulava, triunfante, a Rolling Stone em dezembro de 2008.

A Miss American Dream é socorrida para, logo em seguida, ser enjaulada. Ainda a convalescer de uma depressão pós-parto, torna-se escrava de si mesma e dos que a rodeiam. A empresa Britney Spears suga, até ao tutano, a pessoa e a artista. É esse retrato que Framing Britney Spears nos traz, permitindo ao mundo, em 2021, relembrar quem foi a rapariga que conquistou o mundo e que, depois, o viu virar-lhe as costas.

Um modelo de negócio lucrativo

A tutela de Britney Spears é um modelo de negócio. E parece-se efetivamente com um negócio. Por outro lado, nunca se lhe veem feições de uma medida de proteção da tutelada. Os responsáveis por cuidar da cantora dizem que não é capaz de sobreviver sozinha, mas impeliram-na a fazer centenas de concertos em todo o mundo e lançar a mais lucrativa residência de sempre em Las Vegas.

Manter Britney controlada é lucrativo. A artista, mesmo agora que está ‘parada’, continua a render milhões em merchandise e direitos de autor. Ainda que sem vontade de promover o trabalho, e aparentemente em piloto automático, como aconteceu aquando do mais recente álbum de originais, Glory, a cantora continua a vender milhões em todo o mundo. É do seu quinhão desses milhões que o pai e os restantes responsáveis da tutela não querem abdicar. A máquina tem de continuar a funcionar.

Em 2018, Britney Spears recusou prosseguir com Domination, nova residência multimilionária em Las Vegas. Pouco tempo depois, no início de 2019, foi internada num hospital psiquiátrico, num processo altamente nebuloso que é agora dado a conhecer pelo documentário e que nos faz questionar até que ponto esta tutela, determinada pela lei, não impossibilita o mais sagrado dos direitos individuais: a liberdade. Britney não parece ter qualquer autodeterminação.

O documentário, com o selo de qualidade do NYT, guia-nos pelo percurso solitário desta prisioneira, acompanhado do lado de fora por milhares de fãs que, militante e resistentemente, pedem que se liberte Britney Spears. À medida que avançamos na história, percebemos que nunca vamos entrar na torre de marfim, e também nos apercebemos que ouvimos cada vez menos a voz forte e firme daquela Britney que, aos 10 anos, cantou ‘Love Can Build a Bridge‘ no concurso Star Search.

Felicia Culotta, assistente de longa data da cantora-compositora, é um rosto familiar para a maioria dos fãs e explica que dá o seu testemunho neste documentário para que possa relembrar as pessoas “porque é que se apaixonaram por ela em primeiro lugar“. Será que esse mundo que quis ter Britney há mais de 20 anos, e do qual fizemos parte, será capaz de lhe devolver o controlo da sua própria vida?

Britney Spears
Fotografia: AP / Todos os direitos reservados

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