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Abuso sexual, psicológico e físico: a verdade sobre Marilyn Manson

Durante a última semana, várias ex-companheiras expuseram os abusos sofridos às mãos do músico

Nos últimos dias, 12 mulheres vieram a público para acusar Marilyn Manson de abuso sexual, físico e psicológico. No entanto, as acusações não se referem somente a acontecimentos recentes, pois o rasto de violência de Brian Warner, nome verdadeiro do cantor, dura há quase tanto tempo quanto a sua carreira. Manson negou as acusações, dizendo que eram uma “distorção horrível do que aconteceu“.

Tal como o caso de Armie Hammer, os testemunhos começaram por ser partilhados no Instagram. A cascata de acusações foi desencadeada na segunda-feira (1), depois do testemunho da atriz de Westworld Evan Rachel Wood. No passado, a atriz partilhou ter sofrido abusos às mãos de um ex-namorado, cujo nome não foi revelado, embora os fãs suspeitassem que se tratava de Marilyn Manson.

O nome da pessoa que abusou de mim é Brian Warner“, escreveu a atriz, no Instagram, “conhecido mundialmente como Marilyn Manson. Ele começou a aliciar-me, quando eu era ainda adolescente, e abusou horrivelmente de mim durante anos. Fez-me uma lavagem cerebral e manipulou-me até à submissão. Estou farta de viver com medo de uma retaliação, ataques ou chantagens. Estou aqui para expor este homem perigoso e a indústria que permitiu isto, antes que ele arruíne mais vidas. Estou do lado das muitas vítimas, que se recusam a ficar caladas“.

Num artigo para a Rolling Stone, a atriz contou que conheceu Manson quando tinha 18 anos e ele 36. Os dois começaram uma relação em 2006, que terminou em 2010, quando já estavam noivos.

Os abusos de Manson para com Wood estavam aos olhos de todos. Numa entrevista à Spin, em 2009, o músico disse que fantasiava “todos os dias” com “esmagar o crânio dela (Evan Wood) com um martelo pneumático“. Em 2020, um porta-voz de Manson disse que, citado pela Louder Sound, o comentário fazia parte do “espetáculo montado por estrelas de rock” e que não correspondia “a nada verídico“.

Segundo o Hollywood Reporter, no rescaldo do movimento #MeToo, foi submetida uma queixa contra Marilyn Manson, no estado da Califórnia. No entanto, a investigação foi terminada, devido à falta de provas.

Depois de Evan Wood, mais onze mulheres acursaram Marilyn Manson de abuso sexual, físico e psicológico.

Sentia-me como se fosse propriedade pessoal dele”Ashley Walters

Pouco depois de Wood ter partilhado a sua história, mais quatro mulheres falaram imediatamente sobre o seu passado com Marilyn Manson. A fotógrafa Ashley Walters começou a trabalhar com Manson em 2010, depois de este ter entrado com contacto com ela.

No início, ele pôs-me num pedestal e disse-me que eu lhe estava a salvar a vida“, conta, num post no Instagram. No entanto, não tardou até que o cantor começasse “a ditar os parâmetros da nossa realidade” e os “cenários horripilantes tornaram-se na normalidade“, o que levou a que a Walters se isolasse da “família e amigos“.

A fotógrafa conta que se sentiu tratada como “propriedade pessoal” do músico, porque este a “oferecia para encontros sexuais com amigos e potenciais colaboradores na música dele“. Marilyn Manson também costumava atirar “pratos de vidro e objetos pesadas” ao corpo de Ashley Walters, o que levou a que a fotógrafa temesse pela própria vida na presença do músico.

No post, Walters escreve que continua a sofrer de stress pós-traumático e que luta contra depressão. Acrescenta, também, que mantém contacto com pessoas “que têm os seus próprios traumas, porque estiveram sob o controlo dele (…) Torna-se claro o abuso que ele criou; que ele continua a criar noutras pessoas e eu não posso ficar parada e deixar que isto aconteça a outras. Brian Warner tem de ser responsabilizado“.

Fui abusada, aterrorizada e assustada emocionalmente”Sarah McNeilly

Pouco depois, a modelo Sarah McNeilley partilhou a sua história com Marilyn Manson. Num post do Instagram, a modelo conta que foi “aliciada” por Manson, que “se mascarou de namorado perfeito“. Pouco tempo depois, o músico começou a abusar de McNeilley, a isolá-la dos amigos, ao trancá-la num quarto e ao ofendê-la verbalmente durante horas.

Fui abusada, aterrorizada e assustada emocionalmente“, escreve McNeilley. A modelo conta que “quando se portava ‘mal'”, era “trancada em quartos e obrigada a ouvi-lo a entreter outras mulheres“. McNeilley continua com “fui afastada de certos amigos, porque ele ameaçou ir atrás deles. Ouvi histórias de que ele matava os animais de estimação das pessoas que tentaram expor as verdades sobre ele“.

À semelhança de Evan Wood e Ashley Walters, a modelo fala de abuso físico. “Ele atirou-me contra uma parede e ameaçou arrebentar-me a cara com o taco de basebol que ele tinha na mão, por tentar ajudá-lo a escolher um par de calças“. McNeilly explica que Manson “encenava problemas” para justificar as agressões.

A modelo confessa que teve “medo” de chamar” atenção para mim mesma e acabar na encruzilhada dele outra vez. Como resultado das agressões dele, sofro de problemas de saúde mental e de stress pós-traumático, que afetaram as minhas relações pessoas e profissionais, assim como a minha autoestima e metas para a minha vida. Eu acho que ele se safa, depois de arruinar a vida de outras pessoas. Estou do lado de quem falou e de quem irá falar contra ele. Quero ver o Brian a ser contabilizado pelo mal que fez“.

Fez-me acreditar que deixa-lo cortar-me, queimar-me, ou enfiar o punho na minha boca era ‘a nossa coisa'” – Ashley Lindsay Morgan

A atriz e modelo Ashley Lindsay Morgan também falou sobre a sua relação com Marilyn Manson, que se revelou “negra” logo desde o início. Assim, Morgan conta que “houve abuso sexual e físico” que ainda a afeta “todos os dias” e que agora sofre de “terrores noturnos, stress pós-traumático, ansiedade e transtorno obsessivo-compulsivo crónico“.

A atriz conta que Manson a fez sentir como se “deixa-lo cortar-me, queimar-me, enfiar-me um punho na boca fosse ‘a nossa cena’ (…) Eu sei que ele ainda faz isto a uma dezena de raparigas jovens, causando danos irreparáveis“. Assim, Lindsay Morgan diz que se “chega à frente“, para “impedir mais casos destes“.

Atou-me e violou-me, na que seria a primeira de muitas vezes – Gabriella

Identificada apenas como Gabriella na sua conta de Instagram, a artista conta que Marilyn Manson a atou com uma corda, privou-a de dormir e forçou-a a consumir drogas, durante os seus seis meses de namoro. A artista tentou-se suicidar ainda durante a relação.

A artista conta que conheceu o agressor em outubro de 2015, “quando eu tinha 22 anos e ele 46“. “No nosso segundo encontro, ele partiu um copo de vidro, num quarto de hotel, e obrigou-me a fazer um pacto de sangue com ele“. A artista partilha que durante uma digressão europeia, Manson atou-a e “violou-me, na que seria a primeira de muitas vezes“.

No post do Instagram, Gabriella denuncia atos racistas da parte de Marilyn Manson. “Ele sabia que eu tinha familiares negros e que eu partilhava o meu ADN com eles, então gozava com a minha cor“.

À semelhança do testemunho de Sarah McNeilly, Gabriella conta que Manson dizia que pertencia ao “gangue MS 13 e que podia matar quem quer que fosse“.

No final do post, Gabriella escreve “estou farta de estar calada. Não acredito que seja justo que alguém seja ilibado destas ações horríveis. Eu não sou uma vítima. Sou uma sobrevivente“.

Passava de charmoso a monstruoso– Scarlett Kapella

A fotógrafa e stripper Scarlett Kapella optou por partilhar o seu testemunho numa história do Instagram, ou seja, só ficou disponível por 24 horas. No entanto, citada pelo Huffpost, Kapella, que conheceu Manson em 2011, escreveu que o agressor “passava de charmoso a monstruoso” e que “explorava uma dinâmica de poder sem paralelos, que me deixavam aterrorizada“.

Kapella escreveu ainda que o Marilyn Manson controlava quando é que ela “falava” e que “roupa ou batom” a fotógrafa poderia usar.

Marilyn Manson é um abusador – Torii Lynn

À semelhança de Kapella, Torii Lynn optou por deixar o seu testemunho apenas visível por 24 horas, numa história do Instagram.

Citada pelo Huffpost, Lynn experienciou o abuso de Manson “na primeira pessoa“. Lojista de um estabelecimento de roupa vintage, em Los Angeles, Lynn contou que “levou-me anos a perceber o mal que ele me fez a mim e às pessoas de quem eu mais amo. Marilyn Manson é um abusador“.

Ele proferiu frases racistas e antisemitas à minha frente ” – Chløë Black

Chløë Black, artista, conheceu Marilyn Manson há 10 anos. À semelhança de Gabriella, o agressor privou-a de dormir, agredindo-a física e psicologicamente.

Tal como teria feito com Gabriella, Manson “proferiu frases racistas e antisemitas à minha frente e ainda se riu do meu descontentamento“. O músico gozava com Black por esta ouvir “‘música para pessoas negras'”.

Black temeu pela própria vida. “Uma vez, pensei mesmo que ele me fosse matar. Disse-me algo tão obscuro, tão violento e tão incriminatório que não pensei que ele me fosse deixar sair de casa com vida“.

Ele explorou-me, abusou de mim emocional e financeiramente e tentou controlar-me – Louise Kaey Bell

A escritora e artista Louise Kaey Bell partilhou no Instagram a sua “experiência com Marilyn Manson“, onde conta ter sido explorada e abusada “emocional e financeiramente”. 

 

A escritora conta: “quando falei contra ele, fui perseguida e vítima de assédio virtual“. Kaey Bell tinha apenas 19 anos.

Marilyn apontou uma arma à minha cabeça” – Love Bailey

Love Bailey é uma estilista queer que partilhou um vídeo no Instagram no qual conta a sua história com Marilyn Manson, que conheceu aos 20 anos. Bailey conta que encontrou o músico na companhia de uma atriz, que estava “totalmente fora de siNão sei se tomou pastilhas, mas ela não estava a ser coerente no seu discurso“.

A estilista conta que, quando tentou ajudar a atriz, “o Marilyn apontou-me uma arma à cabeça” e disse “eu não gosto de paneleiros“. Embora se estivesse a rir, Bailey diz que “aquilo não era uma piada“.

Até agora estive calada, mas acho que estava na hora de contar a minha história, a minha experiência“, afirma Bailey.

Há três anos atrás, partilhei aquela que foi a minha história com o Brian, que me assediou sexualmente” – Charlyne Yi

Charlyne Yi, conhecida pelo seu papel como Dra. Chi Park, na série House, contou a sua história com Marilyn Manson, em 2018.

Há três anos atrás, partilhei a minha história com o Brian, que me assediou sexualmente e teve um comportamento suprematista branco em relação a mim. Na altura, tive de desativar as minhas redes sociais, porque recebi milhares de ameaças de morte (…) e estou a ser bombardeada pelo mesmo, outra vez“, escreveu a atriz, num post no Instagram.

Segundo o Huffpost, o agressor ter-lhe-á chamado “chinoca“, durante uma visita ao set de filmagens de House.

Decidi contar-vos o que sei – Otep Shamaya

Blitz deu conta de uma nova denúncia contra Marilyn Manson, por parte da líder da banda de metal Otep, Otep Shamaya. No Facebook, a vocalista expôs a relação secreta de Manson com Lindsay Usich, com quem este chegou a casar “em segredo“.

Otep explica que teve acesso a esta informação porque namorou com uma amiga de Usich. Assim, a vocalista recorda que a ex-namorada recebia chamadas “histéricas” de Usich, nas quais contava que o músico estava “novamente a abusar das drogas, ameaçando a vida dela, atirando-lhe facas que depois ficavam enfiadas na parede e abusando verbalmente dela“.

Manson também entrava em contacto com a ex-namorada de Otep, que lhe ligava “paranóico” e “fora de si“, para contar que a mulher o andava a trair “com uma pessoa imaginária, com cabelo loiro e bigode loiro, chamada ‘Don’, que ele via nas câmaras de segurança”.

Otep termina a mensagem com “isto é de partir o coração a todas as mulheres que ele magoou e a todos os fãs que sempre o apoiaram, como eu, mas ele não é o diabo que todas as pessoas pensam que é. É apenas um drogado violento que escolhe agredir e, tendo em conta os testemunhos, abusar física e sexualmente de mulheres que pensa serem mais frágeis do que ele. Que apodreça no inferno“.

A resposta de Marilyn Manson e o que segue para o seu futuro

Sobre as acusações, Marilyn Manson foi breve na resposta. Num post do Instagram, o músico diz que “a minha arte e a minha vida são, há muito tempo, ímanes de controvérsia, mas estas acusações sobre mim são distorções horríveis da realidade“. O músico prossegue com “as minhas relações íntimas sempre foram consensuais e com parceiros que partilhavam a mesma mentalidade“.

No entanto, o futuro de Manson não parece promissor. A editora Loma Vista, pela qual lançou o seu mais recente álbum WE ARE CHAOS, e a agência de talentos CAA recusam-se a promover e a associar-se com o artista.

No TwitterLoma Vista Recordings escreve que “na sequência das acusações perturbadoras de Evan Rachel Wood e outras mulheres acerca de Marilyn Mason (…), a Loma Vista irá parar imediatamente de promover o seu novo álbum (…) e decidiu não colaborar com Marilyn Manson em projetos futuros“.

Do mesmo modo, segundo a Rolling Stone, o manager Tony Ciulla, que representou o músico durante mais de 25 anos, também se afastou do cargo.

Recentemente, Manson filmou um episódio para a série American Gods. No entanto, o canal de televisão STARZ, no qual a série é transmitida, deixou no Twitter um comunicado, para informar os fãs que as cenas com o músico serão removidas. “Devido às acusações contra Marilyn Manson, decidimos remover a sua participação num episódio que estrearia nesta temporada“.

Reações da indústria musical aos abusos de Marilyn Manson

Alguns rostos do mundo da música, tanto contemporâneos de Marilyn Manson, como artistas mais novos, já reagiram às acusações das 12 mulheres.

Em entrevista ao podcast Space Zebra, o guitarrista Wes Bordland garante que todas as acusações são verdadeiras. O guitarrista dos Limp Bizkit integrou a banda de Manson “durante uns nove meses” e garante que “ele é mesmo mau, e tudo o que disseram é verdade“. O músico acrescenta ainda que Manson “precisa de ser tratado, de exorcizar os seus demónios“.

Segundo a Blitz, o músic Trent Raznor, que lançou a carreira de Manson, lançou um comunicado sobre a polémica. Citado pela Blitz, o vocalista dos Nine Inch Nails disse que “ao longo dos anos, fui bem explícito em relação à minha aversão por Manson enquanto pessoa. Cortei laços com ele há 25 anos”. 

Na sua autobiografia, The Long Hard Road Out of Hell, publicada em 1998, Manson conta que ele e Raznor abusaram física e sexualmente de uma mulher alcoolizada, na década de 1990, quando se conheceram. Sobre esse excerto do livro, Raznor disse que “é uma mentira total” e que se sentiu “enfurecido e ofendido“, quando o livro foi publicado.

No Twitter, a cantautora Phoebe Bridgers contou um episódio da sua adolescência, quando conheceu Marilyn Manson. “Fui a casa do Marilyn Manson, quando era adolescente, com uns amigos. Era uma grande fã”. No entanto, após a visita, Bridgers explica que “parei de se fã”, quando o músico se referiu a uma divisão do quarto como “sala de violação“.

A cantautora acrescenta “a editora sabia, o manager sabia, a banda sabia” e considera “patético” só se distanciarem agora do músico.

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