SYRO

SYRO: “A minha alma já grita por concertos, por sentir o calor das pessoas”

Diogo Lopes começou cedo a sua carreira profissional. Antes de ser conhecido por SYRO, foi baterista da banda Caelum. A percussão entrou na vida do músico aos 12 anos, depois de ter assistido a um concerto dos The Musical Box, banda de tributo oficial aos Genesis. A personificação do ídolo Phil Collins na bateria levou Diogo a aprender o instrumento.

Em 2018, o músico e compositor do Barreiro assume uma carreira a solo e em janeiro de 2020 ganha grande destaque com o tema Perto de Mim, que já conta com mais de sete milhões de visualizações no Youtube.

SYRO lançou recentemente o tema Casa e esteve à conversa com o Espalha-Factos.

SYRO é o teu nome artístico. Numa entrevista referiste que precisavas de alguém que vestisse as canções que o Diogo escreve. Porquê?

Porque sempre achei que o Diogo é uma pessoa mais vulnerável, mais despida, mais humana… e quis criar esta persona, que é o SYRO, para dar a cara e passar mensagem que o Diogo escreve. Sei que não estaria muito à vontade para me apresentar em nome próprio e por isso decidi criar esta persona artística.

A música fez parte da tua vida desde cedo. Começaste a tocar bateria aos 12 anos. Nessa altura, o gosto pela precursão acompanhava a paixão por cantar?

Eu acho que até canto há mais tempo do que toco bateria, na verdade. O gosto por cantar sempre cá esteve… lembro-me de ser miúdo e inclusive existem vários vídeos em que estava todo maluco a ouvir música, a cantar. Lembro-me de ser criança e meter os DVDs de karaoke sozinho, com os meus amigos… Mas se há uns anos me dissesses “olha, vais ser cantor”, eu dizia que não, o meu instrumento principal é bateria. Gosto muito de cantar, mas nunca me passou pela cabeça ser cantor. O processo foi muito natural, nunca houve aquela cena de “quero ser cantor, quero chegar àqueles palcos”. Comecei a meter canções cá fora, comecei a ver que estava a correr bem, comecei a gostar cada vez mais do que estava a fazer e pronto… nasceu o SYRO.

Licenciaste-te em Jazz e Música moderna. Além da vontade e do talento, que papel é que vês na formação musical para um cantor ou para um músico?

Eu acho muito importante e depende do que um músico quiser fazer com essas valências e onde é que quer chegar. Poderá ser mais ou menos relevante ter este tipo de formação ou outro tipo de formação. Acho que formação é sempre muito importante… já lá vão os tempos em que só porque cantas bem deves ser cantor, não concordo com isso.

Obviamente que existem casos de talentos naturais sem qualquer tipo de formação, que claramente nasceram para fazer aquilo, mas uma boa formação é indiscutivelmente necessária para todo o tipo de artista, de músico. Gosto muito de me ver como um atleta de alta competição, porque tem de estar constantemente a treinar para se manter capaz de conseguir fazer as suas provas. Eu licenciei-me em jazz e música moderna, não em considero, de todo, um músico jazz, mas sem dúvida que me deu algumas ferramentas muito importantes, tanto em estúdio como nos meus arranjos live que faço para os meus concertos, como diretor artístico. Sem dúvida, que é necessário.

Integraste vários projetos como baterista, como a banda Caelum, mas, como diz o teu primeiro tema, não “deixaste passar” uma carreira a solo. Sempre foi um sonho ou percebeste isso através deste contacto direto com o mundo da música?

Eu passei muitos, muitos anos enquanto baterista, fiz muita estrada como baterista, fiz muito estúdio como baterista, mas comecei a sentir a necessidade de ter o meu próprio espaço de expressão. Sempre escrevi canções para outros artistas, para os Caelum, e às tantas comecei a sentir que havia algumas coisas que queria dizer que não encaixavam nos projetos que estava e isso alimentou o bichinho de querer começar a ter o meu próprio espaço, o meu próprio projeto onde pudesse dizer e mostrar as coisas que eu queria individualmente e acho que essa é uma das grandes razões que em levou a criar o SYRO.

O teu primeiro singleDeixa Passar – integrou a banda sonora da novela Valor da Vida da TVI, a tua música começou também a passar na MTV. Qual é que é a sensação de ver as tuas músicas e as tuas composições a deixarem de ser só tuas para passarem a ser de todos?

É um sentimento incrível. Quando faço canções há sempre um processo de consumir muito o nosso trabalho, quase até ao ponto de exaustão e saturação… ao ponto de “já não consigo ouvir mais a canção”. Quando a música sai e chega às pessoas e começo a perceber que a canção também faz sentido para quem está a ouvir, e não só para quem a fez, parece que ganha toda uma nova vida. Lá se vai aquela saturação que sentia quando a canção era só nossa. O facto de estar em telenovelas, na rádio, é muito importante, porque sem dúvida que a música foi feita para chegar às pessoas e essas plataformas não são nada mais do que uma maneira de poder catapultar o nosso trabalho para as pessoas e fico sempre muito grato por ter essa oportunidade.

És o compositor de todas as tuas canções…

Eu faço parte da composição de todos os meus temas e em quase todos tive uma equipa de songwriters, de produtores, porque acredito muito na sinergia entre várias cabeças a pensar. Não sou fã de sessões muito povoadas, mais do que duas ou três pessoas já é demais, mas tenho pessoas em quem confio muito. Dependendo da canção, dependendo do que quero, sei quais são as pessoas certas para me dar inputs positivos sobre o meu trabalho. Apesar de ser muito proativo nos inputs de produção, preciso sempre de um produtor que esteja comigo para me ajudar a vestir a canção. Um produtor, para além de ser uma pessoa que nos dá uma base harmónica, é também alguém que nos ajuda a decifrar a visão da canção, onde é que queremos chegar com ela e acho que, hoje em dia, já não existem canções sem produtores e gosto muito de me fazer acompanhar por outras pessoas no processo de estúdio.

Escreves temas para outros artistas. Vês-te a interpretar uma música escrita por outra pessoa ou achas que só faz sentido se fores tu a compor?

Não, de todo. Eu acredito em boas canções. Por acaso, até hoje, fiz parte da composição de todos os meus temas, mas não tenho problema nenhum em interpretar uma canção escrita por outros, se fizer sentido, se for uma boa canção… aliás, eu escrevo tantas canções para outros interpretarem e darem a própria vida e cunho pessoal, por isso seria um bocadinho hipocrisia da minha parte se não conseguisse fazer o inverso.

Há um ano eram vários os concertos marcados, nomeadamente em festivais de verão, que confessaste que gostas, mas acabaram impedidos pela pandemia. Como é que lidaste com isso?

É terrível. Felizmente não tenho passado mal, mas vejo casos próximos de malta que, de facto, está a passar dificuldades com toda esta situação. Acho que está na altura de fazermos um esforço coletivo para, rapidamente, voltarmos à normalidade. Espero que muito em breve os concertos retomem, já tenho alguns marcados para este ano, mas não sei se vão acontecer… estamos todos a viver um dia de cada vez e é continuar a planear a nossa vida como se fosse tudo acontecer. Se não, cá estaremos para nos adaptarmos.

“Espero que o que estou a fazer hoje não seja igual ao que vou fazer amanhã”, uma frase tua. O que é que podemos esperar daqui para a frente, nomeadamente em termos de sonoridade?

Estou a fazer agora o meu primeiro álbum. Planeava lançá-lo no fim de 2020 mas decidi adiar, por razões óbvias. Acho que não faz sentido lançar uma longa obra, ainda por cima tão especial como o primeiro disco, sem ter a oportunidade de promovê-lo devidamente em concertos, até porque quero lançar este disco e depois quero sentir o calor das pessoas pessoalmente, ter o carinho, conseguir falar com elas, perceber o feedback. Mas, acima de tudo, e olhando para todos os singles que tenho posto cá fora, este disco vai ter muitas surpresas, muitas sonoridades distintas. Eu próprio continuo a reinventar-me e a reencontra-me ao longo das canções que vou fazendo e acho que este disco vai contar uma história bonita. Vejo os discos como um episódio, como uma história com princípio, meio e fim. Este disco vai ter muitas sonoridades distintas e acho que vou surpreender, para o bem ou para o mal (risos). Quero mostrar às pessoas que o SYRO não é só os singles que tem posto cá fora… eu chego a escrever funk brasileiro, consumo muita música clássica, venho do rock, portanto tudo isso existe em mim e quero dar “migalhinhas” de tudo o que sou neste disco.

O teu novo tema – Casa – sai numa altura curiosa, porque é onde todos estamos, em casa, mas sei que a génese reporta a uma fase da tua vida em que a tua morada se dividia em várias.

O Casa curiosamente saiu no dia, e não foi de todo planeado, em que tivemos de voltar a confinar, a voltar para casa… não foi uma ação de marketing (risos), foi uma coincidência. O feedback tem sido muitíssimo positivo e fico muito contente. Apesar de todas as adversidades que estamos a viver, a malta ainda tem disponibilidade mental para ouvir música, para procurar música, para manter o contacto com os artistas que gosta.

Este é um tema que remonta a uma altura da minha vida em que andava muito “nómada”, andava sempre a saltar de casa em casa… do meu pai, da minha mãe, da minha ex-namorada, muitos quartos de hotel porque andava em tour na altura, também estava a gravar um disco com os Caelum, portanto também passava muitas noites em estúdio e toda essa azáfama e agitação faziam-me sentir “Onde é que está a minha verdadeira casa? Onde é que posso repousar e sentir-me no meu porto-seguro?” e foi esse misto de emoções que me fez escrever esta canção.

E em termos de concretização, qual é o teu próximo “porto seguro”?

Neste momento o meu porto seguro é mesmo em casa, até porque lá fora está agreste, anda “bicho” por aí e aqui é o meu verdadeiro porto seguro. Se tivesse que escolher um sítio onde me iria sentir realmente em casa, até porque a saudade já bate muito, seria no palco.

A minha alma já está a gritar por concertos, por sentir o calor das pessoas. O meu primeiro grande sucesso foi a Perto de Mim, foi a canção que mais chegou às pessoas, que mais me catapultou profissionalmente e, apesar de já ter tido uns showcases, infelizmente, com esta pandemia, ainda não tive a oportunidade de estar num grande palco com milhares de pessoas à tua frente, depois de ter lançado esse tema, que já é mais das pessoas do que meu. Tenho a certeza de que no dia em que voltar a pisar o palco e cantar esta canção vai ser um momento mágico e sinto-me muito triste por, até agora, ter sido privado de poder viver este momento. Portanto o meu próximo porto-seguro é o palco.

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