A Grande Escavação

‘A Grande Escavação’: uma jóia escondida da Netflix

A Netflix começa o ano com um dos filmes mais consistentes lançados pela platafomra

A Grande Escavação é o novo drama histórico da Netflix, adaptado a partir do romance do mesmo nome, escrito por John Penston. Ao longo de duas horas, o filme, realizado por Simon Stone, conta a história da escavação de Sutton Hoo. Neste drama, Ralph Fiennes, conhecido por interpretar Lord Voldemort, veste a pele de Basil Brown, um arqueólogo autodidata ao serviço de Edith Pretty (Carey Mulligan).

O filme conta com um elenco de luxo, com Lily James, no papel de Peggy Piggott, e Ken Stott, como Charles Phillips, ambos arqueólogos. Por sua vez, a estrela de Emma, Johnny Flynn, aprece como Rory Lomax, um fotógrafo, que documenta a escavação e que começa um romance com a personagem de James.

Um argumento com diálogos mudos e sentimentos precipitados

O argumento de Moria Buffini é uma das componentes mais fortes do filmes. A argumentista, já com experiência em adaptar romances para o grande ecrã, cria diálogos mudos, nos quais as personagens falam através de olhares e de toques. Uma das melhores partes do filme é o breve romance entre Peggy Pigott Rory Lomax. As personagens vão-se revelando uma à outra com pequenas histórias sobre a sua infância e monólogos sobre os seus ofícios.

Do mesmo modo, Buffini aproxima-se das personagens de Mulligan e de Fiennes com calma, revelando aos poucos o seu passado e presente, prendendo o espectador ao ecrã.

Como todo o bom drama histórico, a argumentista tem a capacidade de nos fazer interessar por algo que, provavelmente, nunca pensamos. Neste caso, arqueologia e tesouros anglo-saxónicos. A emoção das personagens ao descobrir anéis cobertos é palpável e partilhada por quem vê. Embora esta possibilidade de empatia com as personagens seja mérito do elenco, também é partilhada com a argumentista. Buffini escreve diálogos numa linguagem acessível, que convêm emoções que todos partilhamos.

No entanto, alguns momentos do filme são precipitados e incoerentes. Por exemplo, nos primeiros minutos, a personagem de Fiennes é engolida por um monte de terra, pondo em causa a sua vida. Contudo, é bastante evidente que uma das personagens principais não pode morrer no primeiro quarto de hora. Existem outros momentos em que Buffini sufoca o espetador com emoções e situações sem nexo, que atrasam o desenrolar da trama.

Banda sonora genérica para atuações brilhantes

Um dos grandes trunfos de A Grande Escavação são as atuações brilhantes de todo o elenco. Ralph Fiennes é candidato a ter uma merecia nomeação para Oscar pelo seu papel como Basil Brown. Do mesmo modo, Carey Mulligan entrega-se ao papel de Eidth Pretty, uma personagem díficil, tendo em conta o seu passado e condição de saúde. É notável o esforço de Mulligan, assim como a pesquisa que teve de fazer, para interpretar uma personagem condicionada por problemas de coração. Tal como Fiennes, é candidata a receber nomeação para Oscar. Lily James também aparece muito bem na pele de Peggy Piggott, dando continuidade a uma carreira jovem, mas bem sucedida, podendo ser candidata ao Oscar para Melhor Atriz Secundária.

A Grande Escavação
Lily James, enquanto ‘Peggy Piggott’, em ‘A Grande Escavação’

A grande revelação do filme é Johnny Flynn. O músico estreou-se no seu primeiro grande papel em Emma, ao lado de Anya Taylor-Joy. Embora tenha um papel mais simples, revela-se uma boa aposta por parte da Netflix.

No entanto, estes esforços dos atores são interpelados por uma banda sonora genérica, que não acrescenta nada ao filme, com música pouco original. O compositor Stefan Gregory falha em oferecer complemento às prestações brilhantes dos atores, aliadas a diálogos bem escritos por parte da argumentista. As secções de cordas, que dominam a banda sonora, cedem aos clichés dos dramas históricos, não trazendo nada de novo para cima da mesa, num filme que se destaca pela originalidade.

Do mesmo modo, a cinematografia, a cargo de Mike Eley, e a realização de Simon Stone andam de mãos dadas no universo do banal e mais do mesmo.

O desenterrar das tensões políticas e sociais da Inglaterra

O filme começa em 1939, numa aldeia perto de Londres, com a inevitabilidade da Segunda Guerra Mundial à porta. Subtilmente, o filme convém a ansiedade de uma guerra.

Contudo, não há uma mensagem política no filme, o que é apropriado. A história aborda um projeto que poderia ter sido interrompido face à guerra, o que mostra uma sobreposição do passado face ao presente. Então, as personagens entram numa emocionante luta contra o tempo, para conseguirem terminar o que começaram, antes do Blitz, o bombardeamento alemão sobre Londres.

Do mesmo modo, o filme joga com as tensões sociais vividas em Inglaterra. Por exemplo, o papel de Peggy Piggott na investigação é subvalorizado por esta ser mulher, visto que só é recrutada por ser “leve“, ou seja, não iria causar estragos. Do mesmo modo, a vontade de Charles Phillips tenta sobrepor-se à vontade de Edith Pretty, que se vê sugada para uma área dominada por homens.

Por outro lado, a personagem Charles Phillips tenta mostrar dominância pelos seus diplomas, ao invés do seu conhecimento, em relação a Basil Brown, interpretado por Fiennes. Esta personagem é um arqueólogo autodidata, pois Inglaterra não garantia educação até ao ensino secundário para todos até 1944. Assim, Brown, o melhor arqueólogo da investigação, vê-se enxovalhado pelos seus superiores, não em conhecimento, mas em diplomas.

Em suma, A Grande Escavação destaca-se pela originalidade que traz ao cânone dos dramas históricos. Embora não tenha dimensão emocional que outros filmes do género, é um lufada de ar fresco por parte da Netflix, com um elenco brilhante e um argumento de mestre.

A Grande Escavação
7.5
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