João Borsch
Fotografia: João Borsch/Instagram

João Borsch: “É um disco que reflete a minha vontade de ouvir coisas muito diferentes”

João Borsch lança esta sexta-feira (29) Uma Noite Romântica com João Borsch. O Espalha-Factos esteve à conversa com o artista que nos contou um pouco mais sobre o seu novo trabalho, sobre a sua carreira e também sobre as suas influências musicais.

Uma Noite Romântica com João Borsch é o álbum de estreia do cantor e multi-instrumentista, João Borsch. Nas plataformas digitais é possível ouvir, para já, os singles, DouradinhosBoca Cheia, Sorte a Minha e Madrugada que irão fazer parte deste trabalho.

João Borsch
Uma Noite Romântica com João Borsch

Márcia: João, como tens vivido estes últimos tempos?

João Borsch: Estes últimos tempos de pandemia deram-me muito tempo para trabalhar. Aliás, deste disco que vai sair, muito do trabalho foi feito durante o primeiro confinamento, ainda deu tempo para reestruturar e pensar em todo o propósito do disco.  Esta altura, apesar de absolutamente horrível, acabou por ser frutífera artisticamente, tal como para muitos outros artistas.

Então consideras que este período, em que tivemos de ficar mais por casa, te proporcionou mais momentos de criação?

Sim, sim! Principalmente momentos de introspeção e de perceber exatamente o que queria fazer com o trabalho e com o disco, na verdade, este período foi fulcral. Acabou por me dar tempo para  ‘deitar coisas ao lixo’, para reestruturar e pensar noutra forma em certas canções ou em certas partes das canções, ou seja, deu-me tempo para pensar no todo.

Tu escreves e compões, não é? Também produzes?

Sim, escrevo, componho e também produzo. Para além da parte instrumental que é feita por pessoal que convido, as únicas partes que não faço é a mistura e masterização, que estão a cargo do meu irmão, Pedro Joaquim Borges.

Como é o teu processo criativo?

Regra geral, começo sempre pela parte de composição, tento encontrar uns acordes que goste normalmente ao piano, às vezes à guitarra, e outras vezes até mesmo com ideias soltas ou conceitos que me venham à cabeça e começo a construir a partir daí, esta tem sido a parte mais importante, ultimamente. A letra, apesar de eu dar muita importância, é sempre a última coisa a pensar, por norma nesta fase, até já tenho uma ideia do que quero transmitir e falar na canção, por isso nem é assim tão difícil deixar para o fim. A produção é sempre um pouco orgânica da minha parte, há sempre muitas referências que vou buscar e chego mesmo a copiar partes que gosto. De certa forma, a produção é algo que eu vou pensando ao longo de todo o processo, isto é, quando ainda estou a compor, com algo ainda muito esquelético, já começo a pensar em elementos, como por exemplo os instrumentistas. Eles são escolhidos muito a dedo, porque sei exatamente o que cada um consegue adicionar à canção, gosto dessa parte de não dizer: ‘toca exatamente isto’, mas sim ver o que eles podem adicionar, além das minhas ideias.

Os instrumentistas que convidas, tu conheces?

Sim, normalmente são músicos que já conheço! A banda com quem toco ao vivo toca toda no disco e há muitos músicos madeirenses que também participam. Tenho a sorte de ter amigos que eu confio musicalmente para participarem nestes projetos.

Qual parte gostas mais, escrever, compor ou produzir?

Produzir, sem dúvida nenhuma! (Risos) Adoro ouvir todos os elementos a juntarem-se e todo o exercício mental de perceber o que falta na canção ou o que pode estar a mais, toda esta parte eu acho fascinante! Eu sinto que o meu som vem mesmo da minha produção, ou seja, das minhas escolhas a esse nível — tímbricas, de ambiente e de transições — esta é a parte em que eu, de facto, sinto que trago vida à canção.

Quais as tuas influências musicais?

Como imensa gente, tenho muita influência dos Beatles, gosto muito de bandas com abordagens um pouco mais absurdas, como System of a Down, Mr. Bungle ou The Smashing Pumpkins. Para além de bandas com que cresci, devido ao gosto musical do meu pai, como por exemplo, Queen. Na vertente mais pop adoro e ouço imenso ABBA, algo também com que cresci. Em Portugal gosto de B FachadaLuís Severo, gostei muito do último álbum dos Capitão Fausto, gosto muito do panorama musical em Portugal.

Tu és do Funchal, mudaste-te para Lisboa?

Sim, neste momento eu estou em Lisboa, aos 18 anos mudei-me para cá.

Sentes que essa mudança foi necessária?

Sem dúvida! (risos) Eu adoro o Funchal e quando vou de férias quero passar cada vez mais tempo lá. No entanto, viver em Lisboa, que eu também adoro, deu-me possibilidades de expansão e de crescimento a vários níveis, no que toca à minha carreira musical, que não teria de todo no Funchal. Como eu há outros artistas que são da Madeira e, de facto, em Lisboa conseguiram criar mais público e expandir os horizontes, como é o caso dos Men On The Couch, com quem já colaborei.

Vives exclusivamente da música?

Estou a tirar a licenciatura em jazz e música moderna, na Universidade Lusíada. A minha vida, neste momento, é cem por cento música, é estudar música, vir para casa trabalhar em música, escrever música, ouvir música (risos)…

O que nos podes contar do teu primeiro LP?

Uma das coisas que  eu queria imenso que o disco concretizasse é a diversidade e acho que isso acabou por acontecer, é um disco que reflete essa minha vontade de ouvir coisas muito diferentes e muito ecléticas. Gosto de traçar paralelos entre diferentes tipos de músicas, porque não as vejo exatamente como diferentes, muitas vezes dá para perceber que as abordagens são semelhantes, o que distingue os diferentes tipos musicais são os timbres e os instrumentos. Com isto, tento criar o meu próprio toque e acho que o disco reflete isso. Pode dizer-se que é um disco incoeso, propositadamente, existe um fio condutor que liga o álbum todo mas que à primeira vista parece não estar lá.

Porquê o nome ‘Uma noite romântica com João Borsch’?

Vem um pouco disso mesmo, da parte do inesperado e de teres criado expetativas que rapidamente vão completamente abaixo. Há um disco dos Throbbing Gristle, 20 Jazz Funk Greats, super pesadão e extremamente escuro e eles estão na capa com uma vista muito bonita e todos bem vestidos, e depois o disco não tem nada a haver, eu adorei esse conceito, por isso quis aplicar.

Estive a ouvir os três singles que estão disponíveis e todos são muito diferentes uns dos outros, é isto que podemos esperar de todo o álbum?

Absolutamente (risos). Para mim, é difícil traçar as semelhanças, pelo menos estilísticas, entre as diferentes músicas, porque há músicas completamente diferentes umas das outras. Acho que o que têm de mais semelhante, para além da minha voz, é o uso das vozes e dos coros, porque de resto, as músicas são bastante diferentes entre si.

Em ‘Boca Cheia’ dizes que já estás ‘farto de ser sensato’, a que te referes?

É engraçado, porque a música tem toda um ar um pouco cómico. Basicamente, o que estava a tentar transmitir era a perspetiva de alguém que deixou de se importar com os problemas que estão à volta dele, todos os problemas do mundo, do ambiente, de tudo estar a desmoronar, ou seja, vai ficar na sua. Não é de todo o que eu penso mas, queria que essa personagem fosse encarnada nessa canção.

Porque decidiste avançar logo para um LP?

Na verdade, eu lancei, em 2018, um EP com seis músicas. Desde então, este LP tem sido sempre o foco do meu trabalho. Eu gosto muito de álbuns, da coesão e da narrativa que essa estrutura, maior do que um EP, pode dar, assim pareceu-me lógico que um álbum seria o que teria de fazer.

Tu já apresentaste o álbum ao vivo. Como foi a experiência do contacto com o público?

Dentro dos possíveis do que pode, ou podia, ser um concerto, nestes tempos, foi muito fixe! Adoro tocar com a minha banda, confio muito neles, por isso é sempre muito divertido tocarmos juntos.  Tive o enorme prazer de as pessoas também gostarem imenso, deixou-me muito feliz que num primeiro impacto ao vivo tenha conseguido ser tão forte. No entanto, é sempre estranho, principalmente para quem toca, estar a fazê-lo para pessoas sentadas de máscara, muitas vezes não dá para perceber se o público está a gostar, tens de imaginar, e no final dos concertos não dá para falar com o pessoal para não criar aglomerados. É um situação de difícil adaptação, mas no geral continua a ser ótimo.

Achas que a pandemia veio reforçar o papel da cultura na vida das pessoas?

Sim, absolutamente! E é um pouco triste que mesmo numa altura tão complicada na vida das pessoas, em que se torna tão óbvia a importância de toda a cultura, desde literatura, música, cinema, e até mesmo entretenimento, isso não tenha mudado a perspetiva de como todos os elementos culturais e todas as artes são vistas, mais do que nunca está a ser demonstrado que são essenciais!

A ministra da cultura anunciou novos apoios à cultura, achas que serão suficientes?

Suficientes, é complicado responder. Trabalhar como músico ainda não é cem por cento a minha subsistência, mas é complicado ajudar, principalmente músicos, numa altura destas, a não ser que se façam concertos virtuais, mas a adesão não é tanta, por isso penso que a ajuda tem de passar por ajudas monetárias, como foi anunciado. A medida dos 30% de música portuguesa nas rádios, é uma medida que embora não sendo perfeita, sempre é alguma coisa, mesmo que seja mínima.

Quais as tuas expectativas para este ano?

Se há algo que o último ano nos ensinou é que as expetativas e os planos são algo um pouco frágil e volátil. Gostava imenso de tocar o disco e promovê-lo por todo o lado que puder. Nos próximos tempos, também vou começar a produzir trabalhos de amigos que são excelentes compositores e vai ser ótimo trabalhar com eles, estou muito entusiasmado com isso.

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