Euphoria
Fotografia: HBO/Divulgação

Crítica. ‘Euphoria’: A realidade pelos olhos de Jules (e Hunter Schafer)

O segundo episódio especial de Euphoria foi disponibilizado antecipadamente esta sexta-feira (22) na HBO Max e estreia oficialmente este domingo (24), também na HBO Portugal.

Depois da pandemia da Covid-19 ter adiado a segunda temporada da série da HBO, dois episódios especiais foram gravados para compensar a espera dos fãs. O segundo, intitulado Fuck Anyone Who’s Not a Sea Blob, mostra-nos a perspetiva de Jules (Hunter Schafer) sobre os eventos da primeira temporada e a sua relação tumultuosa com Rue (Zendaya).

Gravado em contexto pandémico, este segundo episódio é, à semelhança do anterior, minimalista, focando-se principalmente num único diálogo. Será que é mais do mesmo? Ou há algo de único na visão de Jules?

O outro lado

Como dito no início desta crítica, as estruturas dos dois episódios especiais têm, à primeira vista, traços muito semelhantes. Rue fala com Ali, um psicólogo simbólico, sobre os seus problemas, enquanto Jules fala com uma psicóloga verdadeira. No entanto, Fuck Anyone Who’s Not a Sea Blob distingue-se bastante do seu antecessor. Se o episódio focado em Rue era uma discussão entre a visão negativa da protagonista e a realidade frontal de Ali, esta segunda parte mostra-nos uma autocrítica e reflexão de Jules. É muito mais próximo de um monólogo do que de um diálogo, em que a adolescente confronta a sua identidade e os seus traumas.

O estilo também acaba por ser muito diferente. Enquanto que o episódio de Rue é à base da palavra, com apenas uma intermissão musical a meio, o segundo especial conta com uma banda sonora rica que reflete o estado emocional de Jules durante o decorrer da conversa. Principalmente à base de coros, há espaço para canções populares como Liability de Lorde e um dueto entre Billie Eilish e Rosalía – Lo Vas a Olvidar’.

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Em termos narrativos, este episódio passa-se no mesmo dia, porém horas mais cedo do que o especial de Rue. Em cerca de 50 minutos, Jules mostra-nos a sua perspetiva sobre os eventos da primeira temporada de Euphoria. Pela primeira vez, o espectador pode ver o outro lado dos eventos, que revelam que não é só Rue a sofrer – as pessoas mais próximas também sofrem com a sua toxicidade.

Não obstante, isso não isenta Jules de culpa. A adolescente admite, igualmente, ao longo do episódio vários traços que influenciaram negativamente a sua forma de tratar os outros e a si própria. Das limitações sociais que a deixaram mais isolada e com uma capacidade reduzida de se interligar com outras pessoas – sem ser pela ilusão do mundo digital. O episódio não avança a narrativa de Euphoria para a frente (apesar de introduzir alguns pontos a serem abordado na segunda temporada), mas é ótimo para os fãs conhecerem melhor Jules.

A voz ficcional que fala da realidade

Este episódio foi realizado, como o anterior, por Sam Levinson, criador de Euphoria. Já o argumento foi escrito a meias entre Levinson e Hunter Schafer, a atriz que interpreta Jules. Talvez, por isso, é que o episódio assuma tanto uma postura de autorreflexão da personagem. Porque é nítido que muitas das coisas que saem da voz de Jules, estão na verdade a ser ditas por Schafer.

Euphoria
Fotografia: HBO/Divulgação

Tal como o episódio anterior, Fuck Anyone Who’s Not a Sea Blob também lida com várias matérias sérias. A procura pela nossa verdadeira identidade, o isolamento, a perda de contacto real em favorecimento de um mundo virtual e o outro lado do vício – se Rue mostrava o lado de um toxicodependente, Jules é o exemplo de quem tem de lidar com pessoas que lidam com a adição. Fala também da divisão entre pais e filhos, muito comum na adolescência, e como os nossos traumas parentais influenciam muito escolhas que, à partida, não teriam interligação.

Claro está, há também uma parte fundamental de reflexão sobre o que é ser mulher, o que é um verdadeiro corpo feminino (se é que há um) e a transição transsexual. Hunter Schafer é, tal como Jules, uma mulher trans e tem tido um papel importante na representação da comunidade tanto em sociedade, como no mundo artístico. É de louvar que a série aborde este tema sem exageros ou momentos forçados, sem cinismo comercial. Isso deve-se à participação de Schafer no processo criativo. O espetador comum fica a saber mais sobre a realidade trans e quem de facto a vive certamente compreenderá melhor o episódio do que esta crítica é capaz.

Em termos visuais, Fuck Anyone Who’s Not a Sea Blob é mais complexo do que o especial de Rue. Há flashbacks, cenários imaginários, misturas entre o verdadeiro e o inventado. Um momento, em particular, de filmagens na praia, com a linda banda sonora de fundo, é de uma beleza extraordinária.

Não há um especial melhor do que outro. Ambos apresentam métodos diferentes para contar as perspetivas distintas das duas grandes personagens de Euphoria. Zendaya e Hunter Schafer mostraram todo o seu talento em menos de uma hora e a série mostrou porque é das mais populares da HBO. O pior é ter de esperar, muito pacientemente, pela próxima temporada e o novo reencontro entre Rue e Jules.

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Euphoria: Fuck Anyone Who's Not a Sea Blob
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