João Villaret

Quem foi João Villaret, figura incontornável do teatro português?

João Villaret, ator, encenador e declamador de poesia, faleceu há 60 anos.

Há 60 anos, Portugal perdeu João Villaret, que morreu a 21 de janeiro de 1961, aos 48 anos. A sua voz ainda ecoa na memória cultural portuguesa, para sempre marcada pelo homem que foi ator, encenador e declamador.

João Henrique Pereira Villaret nasceu a 10 de maio de 1913, em Lisboa. O seu percurso foi, desde logo, marcado pelo teatro. Aos 15 anos, entrou no Conservatório Nacional de Lisboa, onde recebeu formação e a influência de figuras importantes: os atores Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro.

A primeira peça em que entrou foi Leonor Telles, de Marcelino Mesquita, no Teatro Nacional D. Maria II. Três anos depois da sua morte, Raúl Solnado deu o seu nome ao teatro que inaugurou, o Teatro Villaret.

“Romeiro, Romeiro, quem és tu?”

Depois de pertencer ao elenco da companhia de teatro Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro, João Villaret entrou nos Comediantes de Lisboa, de António Lopes Ribeiro. O seu gosto pelo teatro e representação ultrapassava as limitações de um só género. Villaret provou, assim, que era possível conciliar o teatro dramático com o de revista. O ator participou em revistas como Lisboa Nova (1952), Melodias de Lisboa (1955), e Não Faças Ondas (1956).

Uma das peças de teatro mais célebres em que participou foi ‘Tá Bom ou Não ‘Tá? (1947), sobre a história do fado, imortalizada pela apresentação do tema Fado Falado — que mais não é do que um fado em que a letra, em vez de ser cantada, é declamada. Mas também se destacam, no seu percurso, peças como A Recompensa (1937), de Ramada Curto, ou Esta Noite Choveu Prata (1959), de Pedro Bloch.

João Villaret deu vida a várias personagens importantes da história e literatura portuguesa, quer em cima dos palcos, quer no grande ecrã. São marcantes as suas interpretações no cinema de D. João VI (Bocage, 1936); Bobo (Inês de Castro, 1944); D. João III (Camões, 1946); e Telmo Pais (Frei Luís de Sousa, 1950), considerada a suamelhor interpretação de sempre no cinema. Também passou por comédias como O Pai Tirano (1941), realizado por António Lopes Ribeiro, no qual teve um papel secundário. O seu último papel foi Sebastião em O Primo Basílio, adaptação de 1959 da obra homónima de Eça de Queiroz. Enquanto encenador, foi responsável pela criação de peças como Melodias de Lisboa (1955).

“Nada a declarar, a não ser o meu talento”

villaret

“Bom dia caros espectadores. Aqui estamos para a nossa habitual conversa de domingo”. É assim que João Villaret saudava quem sintonizava a televisão para o ver (e ouvir), a preto e branco. O seu gosto pela poesia “falada” levou-o a apresentar um programa cultural na RTP (hoje disponível na RTP Play), em que declamou poemas ao som do piano, tocado pelo irmão, Carlos Villaret.

Num tom amistoso, como se fosse realmente um amigo, Villaret conversava com os jovens que lhe escreveram, expondo dúvidas sobre como escrever uma boa peça de teatro, por exemplo, num episódio de março de 1959.

“O teatro é uma arte, não é um ofício. Há que ter dentro de si o instinto dramático e a força criadora do teatro”, diz Villaret em referência a Oscar Wilde, que começou a escrever peças de teatro com nove anos. Esse talento e ímpeto de escrita e criação artística não se aprende, para Villaret “ou se nasce, ou não se nasce”.

Escrever uma peça não é a mesma coisa que dar uma receita de cozinha. Ou se nasce comediógrafo, ou não se nasce comediógrafo. No entanto, aconselho-vos, a quem tem o bichinho do teatro, que o continuem a alimentar”.

Contador de estórias

A voz grave e intensa de Villaret ficou imortalizada nas suas declamações de poesia, quais aulas de vinte minutos sobre teatro, poesia e a vida. “Aqui têm, senhores espectadores, mais esta verdade sobre o teatro: não se morre, não se rouba, nem se adormece de verdade em cena. Tem de se fingir que se adormece, que se rouba e que se morre”.

Muitos foram os poetas declamados por João Villaret. Declama ‘A Canção da Rua Deserta’ numa homenagem a António Botto, que o levou a conhecer Fernando Pessoa, que também não deixou de ser homenageado, particularmente a partir do poema ‘Mostrengo’, parte da Mensagem.

A teatralidade nas suas declamações está presente na oscilação de emoções transmitidas pelas expressões faciais. Os olhos fechados ou diretamente fixos na câmara, o meio sorriso ou os lábios cerrados, a profundidade das linhas do rosto a acompanhar a intensidade dos versos. A voz que tanto embala na sua calma como chama a atenção nas exclamações, leva o espectador a embarcar na história por detrás das palavras, a compreender o significado para além dos versos.

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