Artistas de rua, os anfitriões do centro das cidades

As luzes esmorecem, as palmas escasseiam, mas a rua continua a ser palco de artistas que não se privam da sensação de arrancar um sorriso a quem passa.

Os centros das cidades de Lisboa e do Porto são a segunda casa de dezenas de artistas de rua que, com o presente recolhimento obrigatório, perderam a sua principal fonte de rendimento. Antes do atual confinamento, o Espalha-Factos saiu à rua para os conhecer e perceber de onde vem a motivação para envergarem pela arte de rua.

Numa manhã de inverno, em frente ao emblemático café ‘A Brasileira do Chiado’, várias são as pessoas que param para ouvir o saxofone de Diego Lima. O brasileiro de 38 anos chegou a Portugal em 2018 e deixou-se contagiar pelo ambiente do coração da cidade lisboeta: “Vi tantos artistas de rua cá e achei o cenário inspirador para fazer este tipo de trabalho. Há uma energia que a gente dá e recebe também e isso é muito legal”, refere. O músico destaca que a parte mais interessante de atuar na rua são as crianças, pela sua autenticidade. “São puras, quando vêm, é porque gostam”, refere.

A pandemia não impediu o saxofonista de continuar a levar o jazz e a bossa nova ao Chiado cerca de cinco dias por semana. Apesar de ter outro trabalho, afirma que precisa do retorno financeiro que a rua lhe dá e que há situações que o põem em causa: “Por vezes, a polícia chega e apreende diretamente os nossos instrumentos e caixas de som”. Diego ressalva que tem outra profissão, mas que há quem dependa apenas disto. “Complica muito a nossa vida”, desabafa.

Diego Lima
Diego Lima.  Fotografia: Hugo Garrido/Espalha-Factos

No caminho em direção à Rua do Carmo, ouvem-se duas vozes poderosas. Florência Ribeiro, de 31 anos, e André Navarro, de 33, cantam ópera à porta dos Armazéns do Chiado. Ninguém fica indiferente ao talento da uruguaia e do chileno.

Os cantores líricos conheceram-se numa ópera na Argentina, em janeiro de 2018, e decidiram fazer uma tour de concertos por vários países da Europa. Acabaram por ficar em Portugal a viver e há um ano e meio que atuam na baixa lisboeta com o projeto “street ópera”. Em 2020, concorreram ao Got Talent Portugal e chegaram à final do concurso. “Foi uma ótima experiência”, recordam.

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Os artistas que estavam habituados às salas de espetáculo veem o espaço urbano a virar palco, uma vivência distinta: “Na rua vemos a emoção das pessoas, vemos as pessoas rir, vemos as pessoas chorar, vêm conversar connosco. Num palco só se consegue ouvir as palmas”, expressam. Este contacto próximo com o público trouxe memórias que jamais esquecerão: “Chegámos a receber presentes. No verão estava a cantar, estava cheia de calor e um senhor reparou e foi comprar uma garrafa de água para mim”, conta Florência, com um sorriso no rosto.

Florência Ribeiro e André Navarro (Street Ópera).  Fotografia: Hugo Garrido/Espalha-Factos

No Porto, o cenário é idêntico e o rio Douro é o pano de fundo de Bruna Costa que, acompanhada pela sua guitarra e pelo seu amplificador, atua para as dezenas de pessoas que passam junto do Cais da Ribeira. A artista natural da Maia participou no The Voice Portugal e refere que a experiência no programa a ajudou a ter a certeza que queria seguir música.

O busking (arte de rua) surgiu na vida de Bruna já em contexto de pandemia. A jovem de 20 anos que estava habituada a cantar em bares e restaurantes – que acabaram por cancelar a música ao vivo e, em alguns casos, foram obrigados a encerrar – viu na rua uma oportunidade de não ficar sem o seu trabalho: “Apesar das coisas estarem um bocado condicionadas mesmo na rua, pareceu-me o momento certo para arriscar”, admite.

A Ribeira e a Rua de Santa Catarina são os palcos de Bruna desde julho, palcos que se distinguem, segundo a artista, dos demais locais onde atuou: “Quem vai a um concerto, seja num bar, seja num jantar com música ao vivo, seja mesmo num espaço preparado para isso, vai à espera de ver música, mesmo que não seja para te ver a ti, está à espera de um concerto. Na rua, as pessoas estão lá com outro propósito: ou estão de passagem, ou estão a visitar a cidade. De repetente cruzam-se contigo. É completamente diferente”.

A artista diz que o que a faz voltar no dia seguinte são as pessoas: “Vou tendo reações e feedbacks diferentes todos os dias, chego sempre a pessoas distintas e é bonito ver a forma como cada um reage. E vou também mesmo pelas pessoas que sabem que estou lá, porque me viram e voltam para me ouvir”. Nos últimos seis meses, Bruna cruzou-se com pessoas de todo o mundo que estavam de férias em Portugal e que passaram a acompanhar o seu trabalho à distância, através das redes sociais.

Bruna Costa.  Fotografia: Hugo Garrido/Espalha-Factos

Ainda na Ribeira, uma multidão assiste a um espetáculo que junta acrobacia, flexibilidade, força e dança. Luís Martins e Inês Duarte, de 40 e 32 anos, respetivamente, são parceiros de dança desde 2017. Os professores de dança deixaram de dar aulas regulares para fazerem das ruas do Porto o seu local de trabalho e demonstrarem uma modalidade praticada por poucos, o Acroyoga.

Atuar na rua surgiu naturalmente na vida dos dançarinos: “Não foi algo pensado, mas era algo que estava dentro de nós que nos gerava brilho. Sentimos o impacto que estávamos a ter nas pessoas e que elas adoravam ver. Isso tocou-nos muito e deu-nos combustível para continuar a desenvolver o que temos vindo a construir”, conta Luís. Além disso, torna-se financeiramente mais proveitoso. “Os turistas têm bastante poder de compra”, explica.

O par que viu o auge da sua carreira com a passagem pelo Circo Mundial Mariani, distingue as particularidades que só o ambiente de rua proporciona. “Uma coisa extremamente forte é a possibilidade de termos público a 360”, sublinha Inês. A experiência é, para ambos, muito mais intimista do que em qualquer outro local: “Em cada atuação, independentemente do nosso estado de espírito, independentemente das pessoas que nos rodeiam, vai sempre haver alguém com quem conseguimos estabelecer um contacto visual intenso e sentir o impacto que está a ter em determinada pessoa”, conta Inês.

Há momentos que jamais cairão no esquecimento de Inês. “Um senhor muito robusto, que eventualmente teria muita dificuldade em transmitir emoções, aproximou-se, a olhar-me nos olhos e faz aquele gesto de força, vocês conseguem. Isso marcou-me muito”, confessa.

Luís Martins e Inês Duarte.  Fotografia: Paulo Pimenta/Público

 

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