Rita Sanches: “o processo de produção é sempre um conjunto de memórias do que ouvimos”

‘Fala-me De Ti’ é o single de estreia de Rita Sanches, vencedora da edição de 2019 do The Voice Portugal, no qual ganhou um carro e um contrato discográfico com a Universal. O amor pela música começou muito cedo, junto do pai a ouvir tocar bossa-nova na guitarra. Cresceu entre o mundo das Artes — que a levou até Nova Iorque, sozinha, aos 21 anos — e o da Gestão. Pragmática, prefere focar-se no presente e deixar os projetos futuros para o tempo que aí vem.

O Espalha-Factos falou com a Rita sobre o significado do single, a criação do videoclipe, a sua experiência no The Voice e ainda algumas ideias pessoais sobre os primeiros passos na “apresentação de uma identidade” na música.

O teu primeiro single saiu no dia 3 de janeiro. Como foram os últimos dias e como estás a lidar com o feedback que tens recebido?

Tem sido muito bom, estou muito contente. É mesmo gratificante sentir que estou finalmente a lançar uma canção original porque também é a apresentação de uma identidade e tenho recebido bom feedback.

‘Fala-me de Ti’ é sobre conhecer alguém a fundo, para além da imagem que temos no dia-a-dia, como já explicaste. Sentes que este tema é pouco falado? É um tema que te toca particularmente?

Assim de repente não me consigo lembrar de nenhuma canção que explore realmente este tema. Acho que também foi o facto de estarmos na pandemia, de ser um desafio grande para todos, em que começaram a vir ao de cima muitas lutas interiores. Comecei a aperceber-me de pessoas próximas que aparentavam estar muito bem e que, afinal, tinham muitas coisas a acontecer. Antes, com a rotina do dia-a-dia, eu estava muito presa para o poder ver. Isso começou a inquietar-me e levou-me a escrever para, idealmente, pôr as pessoas a refletir.

Como foi o processo de criação da música?

Por acaso até foi muito espontâneo e fluído. Há canções que eu começo a escrever e que depois tenho muita dificuldade em acabar. Normalmente, o problema é conseguir escrever uma letra suficiente que nós gostemos. Com esta, escrevi muita letra e depois tive de cortar. Foi, de todas as canções que eu já compus, a mais diferente porque eu costumo compor sempre com a guitarra e esta foi das primeiras que eu compus com o piano. Também imaginei uma onda mais eletrónica, que eu não imagino para as outras, porque são mais acústicas, mais bossa-nova. Mas a ‘Fala-me De Ti’ fez-me sentido que fosse assim e foi um processo bom.

Em conversa com a MTV, disseste que “não temos de ficar agarrados a um só estilo”. Queres comentar a transição de um percurso ligado a musicais para uma onda mais de pop eletrónico?

Eu estudei representação e, portanto, gosto muito desse lado também, mas, como cantora, não me fazia muito sentido. Gosto mais dos musicais quando estou a atuar enquanto atriz, mas, enquanto cantora quero fazer coisas que eu oiça como espectadora. Eu oiço muito mais este género de eletrónica, jazz, bossa-nova. É uma mixórdia [risos] mas eu acho que as pessoas não têm de estar presas a um estilo e eu apercebi-me de muitos cantores que deixam o seu cunho mais pela forma como cantam do que necessariamente pelo estilo da canção que cantam. Não sinto que esteja presa por ter começado por este estilo, quero também explorar muitos outros e que a minha identidade se defina mais pela forma como canto do que propriamente pelo estilo que apresento.

Rita Sanches - "Fala-me de ti" | Final - The Voice Portugal
Apresentação do single Fala-me De Ti na final do The Voice Portugal 2020

Porquê começar com a ‘Fala-me De Ti’, tendo em conta que já tinhas outra música preparada para ser lançada em março?

A canção que nós tínhamos quase finalizada falava sobre rotina. Entretanto [entrámos no primeiro confinamento] e achámos que o tema deixou de fazer sentido. Ainda pensámos em lançar em setembro, mas até setembro acabei por me inspirar e compor várias canções que me fizeram sentido lançar antes. A outra ficou em “stand by” mas espero que no futuro ainda saia. Mas, para começar, fez-me sentido este tema, até porque estou a falar da vontade de conhecer alguém e estou a apresentar-me ao mesmo tempo.

De onde retiras inspirações para escrever?

Eu acho que o processo de produção é sempre, de alguma forma, um conjunto de memórias daquilo que nós ouvimos. Há certas alturas em que ando a ouvir tanto o artista x e y que, quando componho, percebo o que estava a ouvir. Eu acho que isso é bonito e acaba por ser um conjunto de influências inconscientes. Acho o que faz e define a minha composição são os artistas que ouvi nestes últimos tempos.

Quais são os artistas que tens ouvido ultimamente?

Ao nível da música portuguesa, o Janeiro é uma das minhas grandes referências. Também gosto muito da Carolina Deslandes. Internacionalmente, gosto muito do Tom Misch, da Angéle, Rex Orange County. São as minhas grandes referências. Acho que acaba por ser um “casamento” entre essas influências todas para esta música em particular [risos].

Cantar em português sempre foi um objetivo desde o início ou foi uma mudança que sentiste que tinhas de ter?

Lá está, no início [da adolescência], não ambicionava necessariamente que aquelas músicas fossem ouvidas. Era mais porque eu gostava e tinha necessidade de fazer isso e queria imitar o que os meus grandes ídolos faziam. Comecei por escrever em inglês porque eu ouvia mais música nessa língua. Mais tarde, quando comecei a perceber que [escrever] realmente também se tinha tornado uma forma de expressão, aí só me fazia sentido escrever em português. Por muito que esteja confortável com o inglês, acho que não há forma mais genuína de me expressar do que a minha própria língua nativa.

Rita Sanches - The Voice Portugal

Há coisas que levas da escrita das primeiras canções para as mais recentes?

A nível de escrita, não sei se está muito próximo. Mas, em relação aos acordes, há claramente uma linha que une todas as canções. São aqueles acordes assim mais bossa-nova que me chamam mais, até porque o meu pai tocava muitas canções assim. Eu comecei a aprendê-los e, apesar de na altura não saber propriamente como se chamavam, tinham um som diferente que eu gostava. Repito-os muito porque são os que acho mais bonitos.

Como foram as gravações do videoclipe?

Sendo o primeiro videoclipe, foi toda uma experiência nova. O realizador é o Fred O’Dary, que também é o meu noivo, então passámos muito tempo juntos, o que foi ótimo porque nos deu tempo para debater várias ideias e criar um conceito com que estivéssemos os dois orgulhosos. Fiquei muito contente por ter a sorte de ter um talento muito grande ao meu lado, para além de ter construído uma equipa com uma energia tão boa à minha volta. O André Branco, o bailarino, também foi incrível. Fez a coreografia e mergulhou de cabeça para este projeto. Portanto, acho que correu muito bem e estou muito contente com o resultado.

De que modo é que a história do casal, aliada à predominância da cor vermelha, foi pensada?

Quando escrevi a canção estava especialmente focada na quantidade de vezes que vemos coisas acontecerem ao nosso parceiro que não esperávamos porque estamos tão presos à nossa rotina que deixamos de estar abertos àquilo que se está a passar com eles. Daí ter surgido a ideia de trazer um casal em que no início não têm cumplicidade, estão ao lado um do outro, mas cada um no seu mundo. O objetivo é a cumplicidade ir-se desenvolvendo ao longo do videoclipe para, no fundo, mostrar que começa a haver abertura e mais espaço para se conhecerem melhor. No final do videoclipe já têm alguma cumplicidade. Irmos ganhando expressão ao longo do videoclipe foi uma coisa propositada. O vermelho é uma cor que eu acho que é viva, é forte e fazia-me sentido para um tema como este, especialmente por ser um bom contraste com o ambiente da ação. Dava a vida que eu queria que o videoclipe tivesse.

Venceste a edição de 2019 do The Voice Portugal e apresentaste o teu single no palco do programa, na Final desta edição. Qual foi o momento mais feliz e o mais desafiante que tiveste durante o The Voice?

Eu acho que o melhor do The Voice é termos oportunidade de experimentar vários estilos, de ter mentores que já têm muitos anos de experiência a dar-nos dicas que ficam para a vida. Eu ainda me lembro muitas vezes de coisas que o [António] Zambujo me disse, de cada vez que interpreto uma canção. Também é termos oportunidade de cantar com um nível de produção muito alto que provavelmente só passados muitos álbuns é que podemos voltar a ter. Por outro lado, acho que o maior desafio é uma exposição muito grande que se ganha da noite para o dia. Eu, pessoalmente, não sou a maior fã de exposição pública. Gosto de manter a minha privacidade. Nestes programas de televisão, sendo competições, as pessoas não estão ali para ver o artista especificamente, mas para ver o artista em relação aos outros. Portanto, nós acabamos por ser mais um a ser comparado. Mas, no geral, foi uma experiência muito boa, conheci pessoas que levo para a vida e que gosto muito. No fundo, é um bom workshop: em dois, três meses experiencias o que é uma carreira mesmo na música, com o melhor e o pior. O melhor no sentido das atuações com esta produção tão grande. O pior na parte da exposição e a parte da crítica do público, que também está sempre presente na vida de artistas. Está ali tudo.

Falaste há pouco que és uma pessoa que não gostas de exposição. O que é que te ajuda a lidar com isso?

Eu acho que é uma coisa que ainda estou a aprender. Apesar de ter tido alguma no The Voice, também não foi imensa. Ainda por cima nós, raparigas, estamos tão diferentes no dia-a-dia, por não termos aquela maquilhagem e penteados, nem toda a gente nos reconhece. Acho que é uma coisa a que a pessoa se vai habituando, não sei se há forma de aprender. Relativamente a redes sociais, se calhar não sou tão espontânea porque sei que agora não tenho só pessoas que conheço a seguirem-me e, portanto, cabe a mim pensar naquilo que quero partilhar e no que eu quero mostrar às pessoas. É importante também mantermos a nossa privacidade, por isso acho que aprendi a filtrar melhor o que quero e não quero partilhar.

Participar no The Voice sempre foi um objetivo?

Não [risos]. O The Voice apareceu um mês depois de ter voltado de Nova Iorque e foi um bocadinho difícil porque já tinha feito alguns trabalhos lá e, de repente, estava aqui a começar do zero. A forma como a indústria funciona em Portugal é muito diferente em relação a Nova Iorque. Nessa altura ainda estava a perceber como é que aqui tudo funcionava. Achei que participar no programa era uma boa oportunidade de dar a conhecer o meu trabalho, não só como cantora, mas também como atriz, daí ter escolhido uma canção de teatro musical [‘Maybe This Time interpretado por Liza Minelli no musical Cabaret – Adeus Berlim].

 

Rita Sanches é a vencedora de "The Voice Portugal" - Holofote

Acabaste a licenciatura em Gestão aos 21 anos e depois foste para Nova Iorque estudar representação. Como é que foi sair assim da zona de conforto?

Foi das melhores coisas que me aconteceu. Sair da zona de conforto foi muito importante para conhecer mais artistas de todo o mundo, com culturas e experiências tão diferentes. Ter ido sozinha também me obrigou a desenrascar-me e a adaptar-me mais depressa porque não tinha muito a que me agarrar e acho que isso foi muito bom e levo coisas para a vida. As Artes [em Nova Iorque] têm uma perceção diferente do que cá. Há um estatuto do ator, um estatuto do cantor. Existem muitos sindicatos, no fundo, que defendem os direitos dos artistas. Para além da perceção que as pessoas têm de ser muito melhor, valorizam muito mais. Estar no meio dessa onda foi muito bom. Em Portugal sentia falta de dizer que queria seguir isto e ser compreendida e apoiada.

Como é que a gestão e a música se complementam?

Para já, penso que gestão é e vai ser muito útil para mim, até porque [carreiras musicais] não deixam de ser coisas que nós temos de gerir. Ganhei muito com o curso e ainda hoje o uso bastante. Claro que o que me move é a música, mas a forma como nos queremos apresentar não deixa de ter muita estratégia por de trás. A maneira como nos mostramos aos agentes e às próprias pessoas da indústria tem muito de marketing também. No fundo, não é muito diferente de uma start-up. Nesse sentido, pensamos no que podemos investir para que o nosso serviço seja o melhor possível. Por exemplo, continuo a ter aulas de canto e quero continuar porque sei que tenho uma margem muito grande de progressão e quero aprender mais e mais. É como olhar para a carreira de fora e perceber o que falta para fazer a música chegar às pessoas do modo que eu quero e no impacto que terá quando for lançado.

Começaste a ter aulas de canto com 14 anos depois de receberes um “não” numa audição. Para ti, os “nãos” são tão importantes como os “sins”?

Sim, até nem sei quais marcam mais a pessoa, talvez os “nãos”. Claro que nós vivemos para aqueles “sins”, mas às vezes são os “nãos” que nos obrigam a parar e a pensar o que não correu bem, o que pode correr melhor e o que nos falta fazer. Para mim, esse “não” foi crucial para começar a ter aulas de canto e para finalmente perder o medo e estar à vontade para cantar à frente das pessoas. Tive vários outros “nãos” que foram muito importantes de trabalhos, não só na música, mas também na representação, que me obrigaram a perceber porquê e como é que podia melhorar. Também nos ensina a relativizar as coisas e perceber que, no final de contas, somos só mais um. Cada um é único à sua forma mas há muita gente à nossa volta e é bom pormo-nos no nosso sítio e continuarmos com humildade, independentemente dos sucessos ou insucessos que a carreira vai tendo.

Que mensagem deixarias à Rita Sanches que cantava em bares, em adolescente?

[risos] Acho que lhe diria para continuar a trabalhar, a cantar, a ter aulas, a compor e partilhar cada vez mais o seu trabalho. Acredito mesmo que se as pessoas trabalharem, abandonam o medo e ganham coragem para começar a partilhar tudo aquilo que fazem, eu acredito que as coisas acabam por acontecer. Até pode demorar bastante tempo, mas acredito que se há resiliência e se há trabalho e persistência, as coisas acabam sempre por acontecer.

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