Cláudio Ramos e Teresa Guilherme apresentam o reality-shows Big Brother, líder de audiências
Instagram/Big Brother TVI

Opinião. Big Brother: A nova era que não se concretizou?

Desde o dia 3 de setembro de 2000, data de estreia do primeiro Big Brother português, os reality shows são um marco regular na programação da TVI. Normalmente, conquistam fiéis e leais audiências e são de baixo custo, comparativamente com outros produtos em antena.

Por ser uma aposta recorrente, principalmente a partir de 2010, com a introdução do Secret Story – Casa dos Segredos, o formato demonstrou sinais de desgaste, tanto em audiências como em conteúdos do próprio programa. Uma grande parte do público começou a interpretar os reality shows como “lixo televisivo” e os seus participantes como pessoas desprovidas de inteligência e superficiais.

No final de 2019, quando foi anunciado o Big Brother 2020, a TVI prometeu uma “edição histórica, inovadora e surpreendente, com a inocência do primeiro dia e a essência dos dias de hoje”. Prometeu e cumpriu. A casa-estúdio da Venda do Pinheiro foi trocada por uma mansão na Ericeira e a equipa, encabeçada por Cláudio Ramos, foi renovada. Os concorrentes escolhidos para o BB2020 foram diversificados e, na sua maioria, trouxeram causas sociais nas suas malas.

Ao longo dos 98 dias do programa, foram abordados temas como o bullying, a saúde mental, o feminismo, o assédio sexual, a discriminação, o racismo, a xenofobia e a homofobia. O primeiro sinal de que o reality show de 2020 seria diferente dos anteriores aconteceu logo na estreia. O concorrente Pedro Alves, no seu vídeo de apresentação, assumiu ser “um bocadinho homofóbico” e a indignação do público fez-se sentir nas redes sociais. Cláudio Ramos confrontou Pedro com as suas declarações e o concorrente de Penafiel pediu desculpa e afirmou que se expressou de forma incorreta.

Na primeira semana de jogo na Ericeira, o concorrente Hélder afirmou preferir ser mulherengo do que ser homossexual, utilizando o colega Edmar como exemplo depreciativo. Mais uma vez, as redes sociais explodiram com este acontecimento e a produção foi obrigada a intervir. “No Big Brother, as atitudes sexistas, homofóbicas, xenófobas e racistas são inadmissíveis, tal como na nossa sociedade. (…) Hoje, Portugal acordou extremamente revoltado com o seu comentário. É esperado que esta casa seja um reflexo da sociedade, de uma forma positiva e não de uma forma negativa ou preconceituosa.”, disse a voz do Big Brother, acrescentando que a permanência de Hélder na casa ficaria nas mãos do público, através de uma votação. No domingo seguinte, 53% dos votantes decidiram que Hélder não deveria abandonar o jogo.

Estas situações promoveram o debate sobre a homofobia em canal aberto e o Big Brother 2020 tornou-se um campo fértil para a discussão de vários temas estruturais da sociedade. Provou-se que, afinal, um reality show pode (e deve) ser educativo. A temporada foi um sucesso e o Big Brother foi renovado para uma nova edição, que todos esperavam que desse continuidade à nova era de reality shows em Portugal.

Um mês após o término do BB2020, estreou o Big Brother – A Revolução, desta vez com a apresentadora original Teresa Guilherme. Visto que as duas temporadas foram realizadas no mesmo ano e com um intervalo tão curto que mais parecia um mini-break, os telespectadores tentaram encontrar semelhanças entre as edições. A casa era a mesma e o “Big” também, mas mais nada foi igual, principalmente o tratamento de assuntos sérios.

Na terceira semana da Revolução, as concorrentes Zena e Sofia fingiram uma aproximação romântica entre elas. O participante André Abrantes, que estava interessado em Zena, não gostou de saber que ela poderia ser bissexual. Em conversa com o concorrente Carlos, André declarou que “era pior se fossem dois gajos, dois gajos é mais chocante, agora duas mulheres…”. Além disto, o concorrente da Ericeira fez um comentário irónico, alusivo a relações sexuais entre mulheres com “guerra das tesouras, muito fixe, vai ser bué divertido”. Apesar da situação ter inflamado as redes sociais e a hashtag #ForaAbrantes ter sido trending topic no Twitter, não foi aplicado nenhum tipo de sanção.

O Big Brother 2020 e o Big Brother – A Revolução são duas temporadas irmãs que em quase nada são parecidas, portanto ninguém sabia muito bem o que esperar do Big Brother – Duplo Impacto. O BBDI juntou seis concorrentes do BB2020, dois participantes do BBR, quatro concorrentes da velha guarda e uma semi-anónima. Cláudio Ramos e Teresa Guilherme estão a tentar encontrar o equilíbrio na apresentação e o jogo está cada vez mais feroz na casa mais vigiada do país.

Estas edições com ex-concorrentes são sempre muito marcadas pela vida real e pelo que os participantes fazem quando as câmeras e os microfones ainda não estão ligados. Desta vez, não temos a informação toda, mas conseguimos deduzir algumas coisas: a pseudo-relação entre Helena e Gonçalo foi combinada antes de entrarem; Savate já tinha planeado ir contra Rui e Pedro Soá na primeira oportunidade; e, obviamente, Anuska e Hélder já se tinham envolvido intimamente cá fora.

Um alvo: os comentadores

Também foi fácil deduzir que alguns destes concorrentes entraram com o objetivo de descredibilizar os comentadores. Ainda não tinham passado cinco horas desde a entrada no Duplo Impacto e Helena, Teresa, Rui e Pedro Soá já estavam a atacá-los na primeira reunião, sendo que Helena nem sequer tinha sido comentada por eles anteriormente.

Aliás, Helena foi comentadora em alguns reality shows e era ofensiva, chegando a proferir vários comentários homofóbicos sobre o casal Tiago e Luan no Secret Story 7. Estão a tentar proteger-se dos comentadores atacando primeiro, naquela que é uma das piores estratégias em 20 anos de reality shows. Se não queriam estar expostos à opinião do público e dos comentadores, deviam ter recusado o convite.

Joana Diniz, percebendo que tem o apoio de alguns colegas contra os comentadores, introduziu o nome do Pedro Crispim num jogo, para a Helena adivinhar quem seria. A Helena perguntou se era homem e a Joana Diniz respondeu “é… tem dias” e riu-se, acompanhada por Rui. O primeiro palpite da Helena foi José Castelo Branco. Seguiram-se vários insultos da Joana, do Rui, da Teresa e, quando Helena acertou, aproveitou para dizer que o Pedro é execrável. Não se consegue compreender o discurso de ódio que a Joana Diniz e a Helena têm em relação ao Pedro Crispim, que não era um espectador de reality shows e nem devia saber da existência delas antes desta edição.

Os insultos em grupo contra um comentador do programa são moralmente condenáveis, mas Joana Diniz foi a concorrente que esteve pior. Instigou o acontecimento, proferiu várias ofensas e ainda um comentário homofóbico. Esta é uma situação que não pode ser branqueada, porque perpetua a homofobia existente na sociedade e transmite aos telespectadores que comentários homofóbicos são aceitáveis em 2021. E não são.

Ana Garcia Martins, a Pipoca Mais Doce, concorda comigo e iniciou a última Gala a exigir que a Joana fosse responsabilizada pelo que fez. Para não perderem a colaboração da rainha do comentário mordaz, tinham de a confrontar. E foi o que fizeram. E seguiu-se o pedido de desculpas mais esfarrapado que vi na vida, feito pela Joana Diniz, que ainda aproveitou para atacar os comentadores mais uma vez.

Mais tarde, quando a Pipoca realçou a fraqueza daquele pedido de desculpas, Cláudio Ramos desculpabilizou a ex-cunhada e considerou que não foi homofobia. Portanto tivemos, em horário nobre, uma mulher heterossexual a tentar explicar a um homem homossexual o que é a homofobia. Cláudio, que no longínquo BB2020 disse aos concorrentes que não aceitaria que atacassem ninguém da sua equipa, esqueceu-se disso e ele próprio afirmou que os comentadores deviam ter cuidado com o que fazem. Sim, o mesmo Cláudio que passou quase 20 anos a ser comentador.

Será que a nova era de reality shows em Portugal começou e terminou com o Big Brother 2020? Em breve saberemos.

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