Fonte: Michael Putland

David Bowie. As várias faces do camaleão da música

No aniversário da morte de David Bowie, recordamos aos alter-egos que marcaram o percurso musical do artista.

Cinco anos depois da sua morte, David Bowie permanece enquanto figura incontornável do mundo da música. Ao primar pela reinvenção, o artista transcendeu fronteiras entre sonoridades, compondo sempre de olhos postos no futuro.

De Ziggy Stardust a The Blind Prophet, Bowie apresentou-se como um artista que comportava múltiplas vidas em si, sempre no registo camaleónico que tanto prezava. Para assinalar o marco, o Espalha-Factos recorda os maiores sucessos dos seus alter-egos, cada um convertido em peça chave do supremo mote do cantor – “não sem para onde vou a partir daqui, mas prometo que não será aborrecido”.

Ziggy Stardust

David Bowie como Ziggy Stardust. | Fotografia: D.R.

Foi com Ziggy Stardust que o Reino Unido colocou realmente os olhos em Bowie. Foi o seu primeiro alter-ego, aquele que quebrou barreiras e que lhe permitiu navegar mais a fundo pelo mainstream da música britânica. Mas Ziggy Stardust não tinha nada de mainstream: com o cabelo pintado de vermelho e vestido da cabeça aos pés com fatos de lycra multicolor, a persona andrógina de Bowie, que podia ser tanto da Terra como de Marte, tornar-se-ia num marco de irrepreensível importância para o estabelecimento do rock’n’roll feito no Reino Unido.

Ziggy Stardust e a sua banda, The Spiders from Mars (Mick Ronson, Trevor Bolder e Mick Woodmansey) foram catapultados para o mundo da stardom, o que lhes possibilitou fazer uma digressão pela Inglaterra durante seis meses. Durante esse período, formou-se um culto à volta de Bowie, especialmente com a edição da canção Starman’, que rapidamente subiu ao Top of the Pops britânico.

Apaixonado pelo drama e o teatro, Bowie mergulhou profundamente em Ziggy Stardust, considerando inclusive que “fora de palco sou um robô. Em palco é que consigo chegar à emoção. Provavelmente por isso é que prefiro vestir-me de Ziggy e não a David”. Além do paradigma musical, Ziggy Stardust também foi uma figura importante para o próprio Bowie, que se foi descobrindo através da personagem ao encontrar elementos perdidos da sua sexualidade. Em 1973, Bowie apercebeu-se que Ziggy e David fundiam-se cada vez mais, provocando uma enorme tensão no artista que culminou no abrupto fim de Ziggy Stardust.

Sob a persona de Ziggy, Bowie lançou o disco Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, que deixou para trás dois clássicos incontornáveis como Starman’, a canção que introduziu o alter-ego à fama, e Ziggy Stardust’, uma canção autobiográfica que o apresentava como uma personagem fora da caixa, com “Screwed-up eyes and screwed-down hairdo/ Like some cat from Japan”.

Aladdin Sane

David Bowie como Aladdin Sane. | Fotografia: Divulgação

Uma continuação de Stardust, Aladdin Sane é o protagonista do sexto disco de Bowie. Este alter-ego foi pensado durante uma digressão pelos EUA em 1972 e inspirado no seu irmão que sofria de esquizofrenia. O nome é, no fundo, um trocadilho (“A Lad Insane”, em português um “um homem insano”) e a personagem é um apêndice de Ziggy Stardust.

O próprio Bowie descreveu Sane como “Ziggy Vai à America” e, no fundo, Aladdin Sane não tem o mesmo fluxo temático do anterior, demonstrando-se antes como uma continuação do seu antecessor. Igualmente teatral e chocante nas apresentações ao vivo, Aladdin vestia-se de maneira semelhante à de Ziggy. Distingue-os, no entanto, um pormenor: Aladdin Sane é facilmente reconhecido pelo raio vermelho e azul que lhe atravessa a cara na capa do disco.

Em Aladdin Sane, Bowie canta a sua obsessão pelos EUA: ‘Panic in Detroit’ é alegadamente inspirada em John Sinclair, co-fundador da White Panther Party, uma organização anti-racista que surgiu em solidariedade à Black Panther Party, e nas manifestações anti-racistas que perfilhavam os EUA, cada vez mais imbuídos num espírito de contracultura pelo fim da guerra e pelo espírito comunitário. Tal como em Ziggy, Aladdin Sane tem uma canção homónima que o apresenta: “quem amará Aladdin Sane (um homem insano?)”.

The Thin White Duke

David Bowie como The Thin White Duke. | Fotografia: Michael Ochs Archives

Depois de explorar o imponente universo de glam rock, a segunda metade dos anos 70 emerge de forma mais sombria na vida de Bowie. The Thin White Duke continua a ser lembrado como uma personagem controversa no reportório do cantor, permanentemente associada à sua crescente dependência de drogas. Entre declarações fascistas e uma obsessão por símbolos satânicos, Bowie recorda os dias de The Thin White Duke como “os mais negros da minha vida”, fomentados por um estado mental em deterioração.

A figura espectral, caracterizada pelo fato preto e cabelo aprumado, nasce das aventuras de Bowie no grande ecrã enquanto Thomas Jerome Newton, o humanoide que chega misteriosamente à Terra em The Man Who Fell to Earth (1976). Fazendo da alienação pela sociedade o seu estandarte, The Thin White Duke converte-se em narrador do álbum Station to Station, um ambicioso projeto de art rock, soul e funk.

O artista canta na pele de alguém que já sentiu tudo o que tinha a sentir, restando apenas a dormência, o romantismo vazio e o fascínio pelo oculto. A canção titular, Station to Station’, estende-se ao longo de 10 minutos, numa constante mudança de tonalidades, imersa em estranhos motivos religiosos. No pódio figuram ainda Golden Years’, próximo do registo plástico utilizado em Young Americans (1975), e TVC-15, o resultado de um surto de drogas, onde Iggy Pop imagina Bowie engolido pela televisão. A frieza de Thin White Duke traduz-se, assim, em ritmos dançáveis, sombreados pela omnipresença do misticismo.

Apesar de ainda hoje ser considerado um dos melhores álbuns de sempre pela Rolling Stone, Bowie confessa não se recordar da produção do álbum. Em anos vindouros, a depressão leva-o a retirar-se para a Alemanha, onde escreve a famosa Berlin Triology – composta pelos discos Low (1977), Heroes (1977) e Lodger (1979).

The Goblin King

David Bowie como Jareth, The Goblin King. | Fotografia: Games Radar

Algumas das personas mais famosas de David Bowie estão, de igual modo, ligados ao grande ecrã. Como esquecer o mítico Jareth, the Goblin King, do filme de 1986 Labirinto? Realizado por Jim Henson, o extravagante mundo de fantasia traz-nos Bowie enquanto rei de um mundo fora de vista, cujo estranho magnetismo leva Sarah (Jennifer Connelly) na viagem de uma vida. As indumentárias extravagantes, criaturas míticas e bebés raptados acabam por apenas complementar Jareth, a personificação do artista multifacetado existente em Bowie.

Aparte de excelentes performances para sempre associadas à infância de muitos, Labirinto brilha na sua banda sonora, assinada em grande parte pelo cantor. Da folia ao suspense, a música constrói a jornada dos personagens, quase numa adaptação pouco convencional ao clássico O Feiticeiro de Oz (1939). O número mais icónico, Magic Dance’, invoca a alegria de quem consegue levar a sua avante, ao som de ritmos New Wave retirados do cânone dos anos 80. De semelhantes influências nostálgicas, surge a balada melancólica As The World Falls Down, entoada na voz do vilão apaixonado pela sua pior inimiga.

Dominadas por fortes marcas temporais, as composições de Jareth surgem durante um bloqueio criativo para Bowie, descrito pelos críticos como a sua rendição aos clichés musicais da época. Ainda assim, a sonoridade inscreve-se no contemporâneo, ao encapsular a soltura e diversão próprias de tempos idos.

The Blind Prophet

David Bowie como The Blind Prophet. Fonte: The Independent

The Blind Prophet é o último alter-ego de Bowie. Aparece no disco Blackstar ★, lançado no dia do seu aniversário e dois dias antes da sua morte. Esta personagem aparece nos videoclipes das canções Blackstar’ e Lazarus’ e marca o fim da carreira camaleónica de David Bowie. The Blind Prophet é habitualmente associado ao medo, sobretudo quando se soube que foi durante as filmagens de Lazarus’ que foi divulgada a notícia de que o seu cancro seria terminal.

Introvertido, atormentado e ansioso são adjetivos que descrevem esta personagem, que surge com os olhos tapados por ligaduras e os olhos substituídos por botões. Muitos consideram este último alter-ego como uma mensagem de despedida aos fãs, sendo que, nas canções e vídeos onde aparece, The Blind Prophet acaba por prever a própria morte.

Canções incontornáveis de The Blind Prophet são, precisamente, Blackstar’ (“Something happened on the day he died/Spirit rose a metre and stepped aside/ Somebody else took his place, and bravely cried”) e Lazarus’, onde Bowie exclama derradeiramente “Look at me / I’m in Heaven”.

Por Matilde Dias e Kenia Sampaio Nunes
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