pieces of a woman
Imagem: Divulgação/Netflix

Crítica. ‘Pieces of a Woman’, um retrato de dor e de luto

Pieces of a Woman estreou em setembro de 2020, no 77.º Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde esteve em competição e acabou por vencer o prémio de Melhor Atriz para Vanessa Kirby. Lá fora, teve uma estreia limitada nos cinemas no final do ano passado antes de ficar disponível na Netflix na quinta-feira, 7 de janeiro.

Um trabalho a quatro mãos do casal húngaro Kornél Mundruczó e Kata Wéber, o filme foi realizado por ele – o primeiro em língua inglesa – e o argumento escrito por ela, e ainda contaram com Martin Scorsese como produtor executivo. Pieces of a Woman conta-nos a história de Martha (Vanessa Kirby) e Sean (Shia LaBeouf), um casal de Boston à beira da paternidade, cujas vidas mudam para sempre quando um parto domiciliar termina em tragédia, começando assim um longo caminho emocional de uma mãe que tem de lidar com a perda de um filho e, ao mesmo tempo, com as consequências que esse luto causa nas suas restantes relações familiares.

Da vida real para o grande ecrã

Foi a experiência pessoal de Mundruczó e Wéber que inspirou o filme. O realizador e a argumentista passaram pela experiência de um aborto espontâneo e, talvez por isso, o filme seja cru e emocionalmente violento, uma violência que chega quase a ser física na impressionante cena do parto – 24 minutos filmados num plano-sequência sem cortes que coloca o espetador como parte integrante da cena e que, através da excelente atuação de Vanessa Kirby, é capaz de transmitir ao espetador uma experiência sensorial profundamente arrasadora.

Pieces of a Woman
Martha (Vanessa Kirby) e Sean (Shia LaBeouf) no momento do parto. Imagem: Pieces of a Woman (Netflix)

Mas não são só as imagens que são impactantes. Os sons também são muito fortes: primeiro, o som do batimento cardíaco do bebé, depois, a necessidade de se ouvir o choro que quando irrompe pelo quarto transmite alívio mas que é seguido pela ausência de choro, juntamente com o barulho da ambulância. Sons que transmitem o caos, a preocupação e, por último, a completa ausência de som, indicador da tragédia que acabou de acontecer.

Uma ponte em construção onde trabalhava Sean é usada para marcar a passagem do tempo ao longo de todo o filme, que usa salto temporais marcantes para mostrar a degradação da relação do casal. Cada um está a lidar com a perda de uma maneira diferente, chegando mesmo a ser o antípoda uma da outra. Martha reprime a dor, parecendo quase sedada, enquanto Sean externaliza todos os sentimentos de uma forma quase violenta e, juntamente com mãe de Martha, Elizabeth (Ellen Burstyn), são eles que abrem um processo contra a parteira, Eve (Molly Parker), contra a vontade de Martha.

No entanto, e apesar da história introduzir esse elemento, o filme acaba por fugir, felizmente, ao clássico final em tribunal, sendo uma história muito mais focada no lado pessoal e emocional do trauma por que passam as mulheres e os casais que passam por esta tragédia, como esclareceu Kirby à revista Variety. “Saber que teria de perceber, de entender a psicologia deste tipo de luto ao mesmo tempo que estaria a homenagear todas as mulheres com quem falei e que passaram por situações semelhantes, foi uma responsabilidade. (…) Eu sabia que devia às mulheres tentar retratar [a situação] da forma mais verossímil possível.”

 

Pieces of a Woman é bem mais do que uma mera crítica aos partos caseiros. É uma jornada emotiva, onde as emoções não são jorradas pelos personagens mas transmitidas pelo realizador de forma simbólica, indireta ou metafórica, o que torna o filme, apesar de duro, também bonito. O final é dúbio, inconclusivo. Mas o que noutro filme seria problemático, aqui faz todo o sentido. O espetador pode retirar a sua própria conclusão, a partir da sua própria história de vida.

pieces of a woman
7.8

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