Anya Taylor-Joy em Gambito de Dama
Fotografia: Phil Bray/Netflix

‘Gambito de Dama’, ‘Unorthodox’ e ‘Normal People’. Rostos femininos num mundo masculino

Em 2020, três séries trouxeram-nos protagonistas femininas que vivem em mundos dominados por homens. Como podem as suas jornadas servir de inspiração?

Em 2020, a Netflix produziu uma das séries mais populares do ano, Gambito de Dama. A série explora a vida de Beth Harmon (Anna Taylor-Joy), uma jogadora de xadrez que sonha em ser campeã do mundo. No entanto, a série aborda um tema mais complexo que o movimento de peças em 64 quadrados num tabuleiro: o trajeto de uma mulher numa área dominada por homens.

Gambito de Dama não é a única série no streaming que, em 2020, explorou o percurso de uma protagonista feminina numa área predominantemente masculina. O ano que passou trouxe-nos também Unorthodox Normal People, séries que exploram uma temática semelhante.

A dama no tabuleiro de xadrez

No xadrez, a Dama é simultaneamente a peça mais poderosa e a mais vulnerável do jogo. Como Garry Kasparov, grande-mestre e ex-campeão mundial de xadrez, salienta num segmento da Wired, “a Dama é a peça mais forte, mas também se pode dizer que é a peça mais fraca pois, quando é atacada, tem de se movimentar“.

Esta ambivalência está bem presente na personagem de Beth Harmon, uma força no jogo de xadrez, mas que, tal como a Dama, outras peças tentam destronar. No entanto, Beth consegue desconstruir estes oponentes e fazer xeque-mate. Nas palavras de William Horbeg, produtor da série, Gambito de Dama é sobre “a jornada emocional de Beth e sobre as adversidades que ela ultrapassa enquanto alguém que está sozinha no mundo, sem qualquer tipo de apoio, enquanto alguém que luta contra a dependência, enquanto uma mulher num contexto histórico específico, que tem de enfrentar um mundo patriarcal.

Gambito de Dama
Imagem: Phil Bray / Gambito de Dama (Netflix)

Assim como no xadrez, em que o objetivo é capturar o Rei, Beth também enfrenta vários “reis” do xadrez: Harry Beltik (Harry Mellin), campeão local, Benny Watts (Thomas Brodie-Sangster), campeão norte-americano, e Vasily Borgov (Marcin Dorocinski), o campeão do mundo.

Só depois de Beth derrotar Beltik Benny é que estes homens se dispõem a tentar ajudá-la a tornar-se melhor no jogo. No entanto, como Beth descobre, nada é assim tão simples, pois tanto Beltik como Benny estão interessados em relacionar-se com ela. Mesmo assim, Beth consegue trazer ao de cima as melhores intenções destes dois, que acabam por se tornar dois dos seus melhores amigos.

A jornada de Beth é um retrato perfeito da experiência feminina no mundo do xadrez – ou noutros mundos predominantemente masculinos -, tanto na década de 1960 como atualmente. Numa entrevista com Dick Cavett, em 1972, o campeão mundial de xadrez Bobby Fischer fala de Nona Gaprindashvili, uma das poucas mulheres autorizadas a jogar xadrez com homens, mas entra em contradição quando diz que o xadrez é um desporto inclusivo quando, na verdade, é um desporto onde existe segregação de sexos. Aliás, existe um Campeonato Mundial Feminino de Xadrez – o que se deve, tal como noutras modalidades desportivas, a razões económicas.

A busca pela emancipação

Unorthodox é a história de Etsy (Shira Haas), uma jovem que faz parte da comunidade judaica hassídica em Nova Iorque. A comunidade oprime-a, especialmente depois do seu casamento com Yanky (Amit Rahav), a partir do qual Etsy perde, por completo, qualquer liberdade que ainda tinha enquanto solteira.

A série traça, em quatro episódios, o percurso de Etsy enquanto “fugitiva” da comunidade. A sua busca pela liberdade faz com que deixe o marido Yanky e os seus avós para ir até Berlim, onde vive a sua mãe Leah (Alex Reid) – que conseguiu fugir de um marido alcoólico e da comunidade conservadora ortodoxa, e que sempre a encorajou a deixar Williamsburg.

unorthodox
Imagem: Unorthodox (Netflix)

Graças a flashbacks, vemo-la perder a possibilidade de explorar a sua maior paixão, tocar piano , testemunhamos a segregação de homens e mulheres – como no dia do casamento, com uma cortina -, assim como a vemos ser obrigada a usar uma peruca. Mas o mais importante na sua história não é aquilo que ela perde e, sim, os obstáculos que ela enfrenta e os passos que dá para se conseguir emancipar. Ao longo da série, Esty vai retomando a liberdade que lhe foi sendo retirada, num percurso de autodescobertas sucessivas que mostram a sua perseverança.

 As lições de uma vida normal

Baseado no livro homónimo de Sally Rooney, Normal People conta a história de Marianne (Daisy-Edgar Jones) e Connell (Paul Mescal), duas pessoas que, apesar de terem sido criados na mesma cidade, nada têm em comum à primeira vista. Ainda durante a escola secundária, apaixonam-se, mas falhas de comunicação acabam por ditar o fim da relação.

Reencontram-se na universidade, que encontra Marianne completamente mudada. Outrora envergonhada e vítima de bullying pelos colegas da escola, Marianne mostra-se agora segura de si. Acompanhamos o seu crescimento, a sua emancipação sexual, relações abusivas e a maneira como Marianne as ultrapassa. Ao longo da trama, Marianne colhe lições de vida, ao mesmo tempo que cultiva uma relação on and off com Connell, que acaba por encorajar, espelhando nele todo o progresso que conquistou.

As jornadas destas três protagonistas servem de inspiração por serem únicas e distintas. A relevância destas séries está em retratarem três figuras em três contextos, assim como períodos históricos, diferentes. De modo algum o percurso de Beth Harmon se espelha no de Marianne – a não ser a sua luta pessoal pela sua emancipação, como mulheres, num mundo masculino.

Traçar o seu caminho num mundo adverso

Assim, as três personagens inspiram quem assiste às suas histórias porque estas séries se focam em mulheres, sem se focarem no género. As protagonistas não são escritas apenas como mulheres, mas como pessoas, algo que ainda falta em muitas séries contemporâneas.

Claro que existem particularidades das personagens que advêm do facto de serem mulheres, e seria impensável tal não ser refletido na história. Mas as séries excelsam por saberem escrever personagens femininas em cenários diferenciados sem numa fazer delas vítimas, mas heroínas das suas próprias histórias – e da sua própria vida.

E, mais que tudo, elas são inconfundíveis, únicas, tratadas de forma individual. Beth, Etsy Marianne marcam a diferença não por serem mulheres, mas por serem Beth, Etsy Marianne, personagens únicas, de vontades próprias e vincadas, realistas, e que conseguem, apesar de tudo, e graças a si mesmas, criar um lugar em espaços predominantemente masculinos.

com Kenia Sampaio Nunes

 

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