Alex Turner
Fotografia: Facebook

35 anos de Alex Turner, um dos bastiões do rock contemporâneo

Somos os Arctic Monkeys e esta é a ‘I Bet You Look Good On The Dancefloor’. Não acreditem no ‘hype’“. Assim, Alex Turner introduz os Arctic Monkeys ao mundo, em outubro de 2005. Com apenas 19 anos, Alex Turner e a banda inglesa sobem ao topo das paradas do Reino Unido com o primeiro single. 13 anos depois, Alex Tuner apresenta a música no Nos Alive, em Portugal: “Quando escrevemos esta música, não tinha muito significado para nós. Hoje, tem ainda menos“. Contudo, a carreira do músico prova o contrário.

Alex Turner nasce no dia de Reis, em 1986, em High Green, Sheffield, terra natal à qual faz referência em todos os concertos. Mesmo tendo nascido num lar musical, com um pai professor de música, é só no Natal de 2001, com quinze anos, que aprende a tocar guitarra. A ideia surge por parte do amigo, e colega de banda, Jamie Cook, de formar um projeto de nome Arctic Monkeys. Assim, Turner pede uma guitarra no Natal, como prenda, algo que mudaria a sua vida.

Uma infância musical em High Green

Alexander David Turner conta nascer num lar musical, com pais que não podiam ser mais diferentes. Se Penny Turner é uma professora de alemão, “fascinada pela linguagem“, David Turner é professor de física, que também dá aulas de música. Com efeito, em 2016, Turner toca ao vivo com o pai, em Berlim, e introdu-lo em alemão. Embora só tenha começado a dedicar-se à música com 15 anos, o pai ensina-lhe algumas escalas no piano. Contudo, o primeiro grande foco musical de Turner é o hip-hop. Mesmo assim, o músico é criado com uma dieta à base de The Beatles, Beach Boys e The Eagles, do lado da mãe. Por sua vez, o pai tenta introduzi-lo ao jazz e ao swing de Frank Sinatra.

Então, ao lado de Matt Helders, hoje baterista dos Arctic Monkeys, Turner começa a gravar algumas faixas de hip-hop na garagem, em conjunto com Andy Nicholson, primeiro baixista da banda. Contudo, em 2001, tornam-se fascinados com o cenário musical do indie rock, depois do lançamento do primeiro álbum de estúdio dos The StrokesIs This It.

Embora não haja uma história linear sobre a formação da banda, Turner conta que parte da ideia de Jamie Cook, um dos seus vizinhos. A eles juntam-se Helder e Nicholson, sendo que é Turner que define quem faz o quê na banda: Helders na bateria, Nicholson no baixo e Cook na guitarra. Depois de vários colegas de escola se recusarem a cantar, Turner assume-se como vocalista e guitarrista da banda.

Pelo caminho, no secundário, estuda tecnologia musical e multimédia, assim como fotografia, inglês e psicologia. Mesmo não sendo um aluno exemplar, os professores recordam-no como um rapaz popular, mas introvertido, com mais jeito para o desporto do que para a música.

O rapaz introvertido que domina o cenário musical inglês

Pouco tempo depois do seu começo, os Arctic Monkeys enchem pubs de Sheffield. Por entre concertos ao vivo, Turner trabalha como bartender, conhecendo músicos ingleses de renome, como John Cooper Clarker e Richard Hawley. Anos mais tarde, Cooper Clarke empresta o poema “I Wanna Be Yours” à banda, enquanto Hawley participa frequentemente em várias canções dos Arctic Monkeys.

Alex Turner
Alex Turner, esquerda, e Jamie Cook, direita, num dos primeiros concertos dos Arctic Monkeys

Contudo, não é nenhuma destas figuras que leva a banda ao topo das paradas inglesas, mas sim os fãs. Com efeito, os Arctic Monkeys gravam o seu primeiro CD, de forma independente, para distribuírem nos concertos. Assim, aparece Beneath the Boardwalk, nome dado pelos fãs, em plataformas como MySpace e hi5. No entanto, Turner, que ainda é um estrangeiro para as redes sociais, não se apercebe que a música está a ser distribuída desta forma. Pelo caminho, aparecem os The Kooks, contemporâneos ingleses, com quem os Arctic Monkeys travam uma rivalidade que espelha The Beatles contra The Rolling Stones.

Em finais de 2004, uma demo de ‘I Bet You Look Good On The Dancefloor’ passa na rádio BBC1. Deste modo, no início de 2005, a banda atrai atenção nacional. Assim, meses depois, a banda começa a gravar o primeiro álbum, Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not.

O álbum torna-se um sucesso estrondoso, tornando-se o álbum com vendas mais rápidas de sempre no Reino Unido. Muito deste sucesso deve-se aos fãs da banda. Deste modo, Alex Turner é apelidado de “a voz de uma geração“, pelo jornal The New York Times. No mesmo artigo, Kelefa Sanneh escreve que “as letras de Turner valem a pena a espera e valem a pena serem decoradas… Ele tem uma capacidade sem paralelos de evocar a cultura juvenil do Norte de Inglaterra sem nunca romantizar ou rebaixar“.

Os avanços e recuos de uma carreira em expansão

Depois do lançamento do primeiro disco, Alex Turner é a estrela dos Brit Awards e do Mercury Prize, o equivalente inglês aos Grammys. Assim, a banda ganha as estatuetas para Melhor Álbum Melhor Banda, nos Brit Awards, e Álbum do Ano, no Mercury Prize.

O segundo álbum da banda, Favourite Worst Nightmare aparece um ano depois, com um novo baixista, Nick O’ Malley, outro amigo de infância. Assim, a banda é, pela primeira vez, cabeça de carta do festival de Glastonburry e repete a façanha de varrer os Brit Awards. Com este segundo disco, a banda lança um dos seus maiores sucessos, o single ‘Fluorescent Adolescent’ e o tema ‘505′.

Durante este período, Turner começa uma das relações mais glamorosas do cenário indie inglês, com a modelo e estilista Alexa Chung, que duraria quatro anos. Nesta mesma altura, começa, com o amigo e músico dos The Rascals, Miles Kane, a banda The Last Shadow Puppets. Assim, os dois lançam o disco The Age Of The Understatement, que se torna tanto um sucesso comercial como da parte da crítica especializada. Em 2016, é certificado como disco de platina.

Alex Turner
Alex Turner, esquerda, e Miles Kane, direita, no ano de formação dos The Last Shadow Puppets

Mesmo assim, em 2009, com o lançamento do terceiro disco dos Arctic Monkeys, Alex Turner é afastado do panorama mainstream ao qual estava habituado a pertencer. Com Humbug, a banda experiencia pela primeira vez críticas polarizantes tanto dos fãs como da crítica. Do mesmo modo, Humbug não atinge certificação de platina tão rapidamente como os seus percussores. Para além disto, os três singles promocionais, ‘Crying Lightning’, ‘Cornerstone’ e ‘My Propeller’, embora bem recebidos pela crítica, não têm o sucesso comercial ao qual o músico estava habituado.

Contudo, o álbum marcou um período de evolução tanto para Turner, como para o resto da banda. Com efeito, o trabalho com o vocalista dos Queens Of The Stone Age, Josh Homme, torna-se crucial para a carreira em expansão do músico. Homme é um dos nomes mais respeitados da música contemporânea, pois trabalhou com lendas como Iggy Pop, John Paul Jones, dos Led Zeppelin, e Dave Grohl, dos Nirvana e Foo Fighters.

Mesmo assim, Turner continua a expandir o seu nome no cenário cultural inglês. Assim, em 2010, colabora com Richard Ayoade, no filme Submarine, para o qual faz a banda sonora, que é bem recebida por parte dos fãs e da crítica.

Um ano mais tarde, em 2011, na sequência do término da relação com Chung, compõe o quarto disco dos Arctic Monkeys, Suck It And See. Embora não tenha sido recebido por parte dos fãs, é um sucesso comercial e crítico, encaminhando a banda para o que seria o renascer da sua popularidade.

Os novos Fab Four que viajam pela América

Com AM, quinto disco dos Arctic Monkeys, Alex Turner torna-se mundialmente famoso, estabelecendo-se, firmemente, como uma das figuras mais importantes da música rock contemporânea. O álbum é um sucesso internacional, cuja fama sobrevive até aos dias de hoje, tendo atingido o estatuto de disco de ouro em Portugal.

Embora participe na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2021, Turner muda-se para Los Angeles nesse mesmo ano. Assim, a banda começa a expandir-se nos Estados Unidos, a tocar como ato de abertura nos concertos da banda de rock americana The Black Keys. Nesse mesmo ano, lançam um dos seus maiores sucessos, ‘R U Mine?’, que agora se torna um pedido obrigatório em todos os concertos da banda.

Antes de lançar AM, a banda é novamente cabeça de cartaz em Glastonburry, um dos festivais indie mais importantes, por onde já passaram bandas como Oasis ou Radiohead. Neste concerto, Turner demonstra o crescimento musical da banda, com novas versões dos clássicos dos primeiros álbuns.

Contudo, é somente em 2013 que Turner torna-se um ícone, e até mesmo um sex symbol, do rock moderno. A banda finalmente atinge o estatuto de platina, com AM, nos Estados Unidos, com a ajuda do estrondoso sucesso do single ‘Do I Wanna Know?‘. Recentemente, a música atingiu mil milhões de visualizações no YouTube e está perto de atingir o mesmo número no Spotify. Assim, os Arctic Monkeys tornam-se, praticamente, tão grandes nos Estados Unidos como em Inglaterra.

Do mesmo modo, Alex Turner viaja pela América do Sul, onde constrói um culto significativo. Assim, a banda lança um pequeno documentário no YouTube sobre a digressão que passa pelo Chile e pelo Brasil, por exemplo.

Em Inglaterra, Alex Turner volta às bocas da imprensa com o seu impressionante e polémico discurso de agradecimento nos Brit Awards. Depois de receber o prémio de Melhor Álbum, Alex Turner faz um monólogo impressionante sobre a influência do rock na música contemporânea.

“Esse ‘rock and roll’, ein? Esse ‘rock and roll’, não vai embora… Ele pode hibernar às vezes, voltar para o pântano. Eu acho que a natureza cíclica do universo onde ele existe exige essa tolerância a algumas das suas regras. Mas ele está sempre lá, esperando, à espreita, na esquina, pronto para regressar do lodo e esmagar o teto de vidro, melhor do que nunca. Sim, esse ‘rock and roll’, parece que foi embora, às vezes, mas nunca morrerá. E não há nada que possamos fazer a quanto a isso.”

Alex Turner, um bastião do rock contemporâneo

Alex Turner cumpriu com as suas palavras nos Brit Awards e continuou a expandir o género na década passada. Assim, depois da longa digressão para promover AM, Turner é convidado para trabalhar no álbum de estreia de Alexandra Savior, cantora americana que é descoberta por Courtney Love. Com efeito, Savior assina contrato com a prestigiada editora Columbia Records, conhecida por produzir nomes como Bob Dylan, ou Miles Davis. Deste modo, em 2017, chega Belladonna of Sadness, com produção de Alex Turner e James Ford, produtor de todos os discos dos Arctic Monkeys, com exceção do primeiro. Turner faz ainda parceria com Savior e coescreve metade das letras do álbum.

Antes deste lançamento, Turner reúne mais uma vez os The Last Shadow Puppets, para o disco Everything You’ve Come To Expect, em 2016. O disco recebe críticas polarizantes, mas é um sucesso comercial, tendo chegado ao número 1 no Reino Unido, e aclamado pelos fãs. No entanto, Turner e Kane adicionam um novo elemento à banda, Zach Dawes, dos Mini-Mansions. Em 2015, Turner avança a sua pegada musical ao colaborar com os Mini-Mansions na música ‘Vertigo’. Esta não é a primeira vez que Turner participa numa música de outra banda. Em 2013, por exemplo, aparece no álbum …Like Clockwork, dos Queens of the Stone Age. Ainda nos The Last Shadow Puppets, a banda recebe Jonny Marr, guitarrista dos The Smiths, em palco mais do que uma vez.

Em 2018, Turner lança com os Arctic Monkeys Tranquility Base Hotel + Casino, marcando a oitava vez que o músico tem um disco em primeiro lugar nas tabelas do Reino Unido. Embora tenha sido lançado sob o nome dos Arctic Monkeys, grande parte das músicas foram compostas individualmente por Turner, com ajuda de James Cook e James Ford. O disco representa mais uma conquista na carreira do músico, pois é o vinil mais vendido no Reino Unido desde os anos noventa.

Embora tenha tido alguns avanços e recuos, Alex Turner impressionou várias gerações anteriores, como é o caso de David Bowie, e inspirou gerações vindouras, como é o caso de Alexandra Savior. Em 2014, a Blitz  inclui Alex Turner num artigo sobre “os guardiões do ‘rock’ do século XXI“. Turner aparece a par de Jack White, Josh Homme e Dave Grohl.

Apesar de nunca ter recebido nenhum Grammy, Turner provou, em quase vinte anos de carreira, que é uma das novas lendas do rock e que se esforça para manter o género vivo. A partir da sua gaveta em High Green, torna-se um ícone para uma nova geração. O seu projeto mais recente é o álbum ao vivo Live At The Royal Albert Hall, com os Arctic Monkeys. As vendas do álbum revertem para a War Child UK. No entanto, o músico está a preparar um álbum novo com os Arctic Monkeys, que será, decerto, mais uma pequena relíquia num género de música secular.

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