Carlos do Carmo celebra 75
MARIO CRUZ / LUSA

Um noturno silêncio. Carlos do Carmo falece aos 81 anos

Carlos do Carmo, com 81 anos, faleceu na sequência de uma intervenção cirúrgica para tratar um aneurisma na aorta abdominal. Premiado internacionalmente e consagrado pelo público português, o fadista era uma das vozes mais emblemáticas e reconhecidas deste género musical.

Nascido em 1939, em Lisboa, tinha abandonado os palcos em 2019, quando completou 80 anos. De acordo com a Universal, que o representava, estava atualmente a preparar o lançamento do seu novo álbum de estúdio. Há mais de 40 anos, desde 1980, que gravava regularmente, sendo voz de fados cantados por várias gerações, como ‘Lisboa, Menina e Moça‘, ‘Estrela da Tarde‘, ‘Canoas do Tejo‘ e ‘Os Putos‘.

Senhor de um dom inigualável, Carlos do Carmo deu vida às palavras como ninguém. Muitas vezes visionário, nunca abdicou de levar o Fado para outras dimensões, de lhe introduzir novos instrumentos, de evangelizar novos poetas, de manter o nível“, sublinha a editora.

Carlos do Carmo foi também um dos mais importantes e empenhados embaixadores da candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade, que foi vencedora há 10 anos, em 2011. Em 2014 recebeu o Grammy Latino de Carreira, coroando uma carreira que encheu salas de espetáculos em todo o mundo.

Quando abandonou os palcos, explicou ter tomado a decisão, que “não foi difícil“, em 2018. “São 57 anos a cantar, quase no mundo inteiro. São poucos os países onde não cantei. Foi muita viagem, [foram] muitos hotéis, muitos palcos, é muita coisa e é uma altura boa de acalmar. E como gosto muito de ouvir cantar bem, ainda me vou desforrar a ouvir quem canta bem“, afirmava à Lusa.

Uma vocação inadiável

A Enciclopédia da Música Portuguesa no Século XX define Carlos do Carmo como sendo “um dos maiores referenciais” do género musical. Sublinha que “as transformações que operou foram influenciadas pelos seus gostos musicais que incluíram referências externas“. Uma dessas referências, sempre assumida, foi Frank Sinatra, que não hesitou em qualificar como “o melhor fadista” que tinha ouvido, aos 78 anos, quando atuou pela primeira vez em Nova Iorque e depois de ter sido descrito pela rádio pública NPR como “Sinatra do fado“.

O artista era filho da também fadista Lucília do Carmo e do livreiro Alfredo Almeida, que tinham um plano para si que era bem distante da música. Em 1956, tinham-no mandado estudar línguas e gestão hoteleira na Suíça. No entanto, a vocação musical acabaria sempre por despontar e em 1963 gravou Loucura, um fado da mãe, num disco do Quarteto de Mário Simões. Iniciou a carreira artística um ano depois.

No último trabalho de estúdio, que poria um ponto final à carreira artística, gravou poemas de Herberto Hélder, José Saramago, Sophia de Mello Breyner, Hélia Correia, Júlio Pomar e Jorge Palma.

Quem fizer uma carreira como eu fiz e há gente da nova geração, felizmente, que a está a fazer , com ar paternalista, recomendo: ‘cuidado com a tua saúde, vai, faz, tens todo o direito, quanto há vento é que se molha a vela, mas muito cuidado com a tua saúde, estas coisas da saúde não avisam e quando tu estiveres mal é que vais ver que o esforço é inglório‘”, asseverou quando deixou os palcos.

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