Querubim: “Escrever é provar que a experiência humana é partilhável”

Querubim é o projeto musical de Rodrigo Cardoso, vocalista. Das aulas de guitarra que não o entusiasmaram, aos palcos intimistas de Lisboa, Rodrigo viu o seu amor pela música crescer. Juntamente com Ricardo Barroso, guitarrista; António Fortunato, baixista; Francisco Cardoso, baterista; e António Miguel, sintetizadores, Rodrigo lançou o primeiro álbum Saber Estar, em novembro de 2020.

A entrevista decorreu na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (NOVA FCSH), onde Rodrigo se divide entre o cinema e os instrumentos. Em tom descontraído, falou-nos sobre a criação de Querubim, das influências musicais e das visões próprias sobre o álbum.

Como é que surgiu a ideia para o nascimento de Querubim?

Em setembro de 2019 comecei a fazer esforços no sentido de reunir uma banda, para continuar a levar as minhas músicas a palco, depois de ter participado no Concurso Nova Bandas e na FNAC Novos Talentos. Assim, falei com três pessoas de partes diferentes da minha vida.

Quem são os teus colegas de banda?

Conheci o Ricardo Barroso, que toca guitarra no projeto, de uma forma muito caricata. Soube da existência dele antes de o conhecer, porque em 2018, estava eu no 12º e o Ricardo no primeiro ano da faculdade, participei ilegalmente nos Novos Talentos da FNAC. Apesar de ainda ser menor de idade, tinha 17 anos, a vontade de mandar uma canção era muita. A minha curiosidade levou-me a pesquisar no Twitter e ouvi uma canção chamada Há Demasiadas Marias. Delirei com aquilo e gostei imenso. Procurei o perfil e lá estava aquele indivíduo, no primeiro ano da licenciatura que eu queria tirar. Lembro-me de pensar  como seria fixe juntar as minhas composições à voz dele. Entretanto, continuei a minha vida, esqueci-me do Ricardo e da música dele. Um dia, já em Ciências da Comunicação na NOVA FCSH, estou no pátio da faculdade e ouço uma guitarra e uma voz  muito familiar. Fui ter com ele e ficou boquiaberto quando eu o reconheci. Sendo ele um grande amigo, não hesitei em chamá-lo para tocar e ele aceitou de bom grado. E hoje aí estamos. O António Fortunato é um rapaz de Carnaxide, que andou na mesma escola básica que eu. Íamos para casa juntos, a pé. Era uma cara familiar que entretanto se tornou num grande amigo. Eu chamei-o para tocar baixo. Normalmente, é difícil arranjar baixistas, então arranja-se alguém que toque guitarra mas que esteja disposto a tocar baixo. O Francisco Cardoso não é meu primo, nem meu irmão, apesar de o apelido ser o mesmo [risos] mas é de sangue à mesma. Conheci-o em 2016, mas foi em 2019, no festival Vodafone Paredes de Coura que nos relacionamos melhor. Ele é o baterista. Recentemente, convidei o António Miguel para tocar sintetizadores. Sendo quatro, antes, não tínhamos a possibilidade de, ao vivo, incluir os sintetizadores que se ouvem nas canções. Conheci-o através de um amigo, que me convidou para um concerto onde o António foi tocar.

Como é que surgiram os nomes para o projeto? Antes de ser Querubim, era Boémia

Ui! É uma complicação [risos]. Quando toquei na final do concurso NOVA Bandas fui como Rodrigo Cardoso, mas sempre quis encontrar um nome de artista. Demorei-me um pouco e acabei por escolher Boémia, porque gosto da palavra e acho-a bonita. Depois de um ano a utilizar o nome, recebi  um e-mail muito dramático. Abro-o e era o Rogério, que é o líder de uma banda que já existe há 20 anos em Portugal, que são os Boémia. A verdade é que eu sabia que eles existiam e não dei importância, não foi lá muito inteligente da minha parte. Uma pessoa esquece-se que estão ali vidas, pessoas que realmente se juntaram para criar o seu projeto, ao qual lhe têm carinho. Como não estava numa posição para não aceitar a reclamação deles,  mudei de nome. Acabei por escolher o nome Querubim por achar o nome bonito e porque tive de escolher numa situação de pressão porque os processo da Iniciativa Inéditos Vodafone [ao qual concorreu em 2020] estavam a acontecer e eu tive três dias para mudar de nome. Foi um pouco stressante mas, em retrospetiva, fico feliz pela mudança.

Como é que a música surgiu na tua vida?

Desde que eu me lembro que oiço música, não é? O meu pai é um melómano, doido por música e um grande colecionador de discos. Lá em casa há milhares de CD’s e vinis. De forma quase subconsciente, fui exposto logo muito cedo à música. No meu berço, nas viagens de carro… A minha primeira experiência consciente de música foi o Batatoon. Lembro-me de me fascinar, de ficar vidrado em frente à televisão, a ver aquilo. E, de facto, é das primeiras melodias musicais de que me recordo. Fiquei 13 anos sem ouvir o Batatoon, ou mais, e quando ouvi lembrava-me da melodia, da letra, de tudo, sem tirar nem pôr. Se calhar foi a minha primeira experiência pop. Porque o pop é uma coisa que se cola à cabeça.

Quais eram os artistas que ouvias mais em casa?

Uma história que eu também me recordo é, quando eu tinha 5 anos, eu e a minha família íamos no carro e havia uma canção que eu adorava. É a The Dark Of The Matiné dos Franz Ferdinand. Tinha uma obsessão com essa música, cantava e dançava sempre que ela tocava, vá-se lá saber porquê.  Hoje em dia ouço a música e é extremamente familiar. É muito catchy, é especial.

Quando ouves essa música, sentes que te transporta para essa viagem de carro?

Não. Eu não tenho bem a recordação de estar no carro. Eu tenho a recordação de os meus pais me dizerem.  Às vezes, tens memórias que se criam a partir de uma fotografia. Tenho muitas memórias de infância que foram formadas assim. Eu suspeito que a memória se faz a partir de uma fotografia, não é? Tens a fotografia, tens a história que os teus pais te contam e se calhar a tua mente preenche ali os espaços cinzentos e cria uma memória. Essa canção traz me uma nostalgia grande e parece que vem do útero, quase.

Para além de Franz Ferdinand, quais foram os artistas que mais te acompanharam ao longo do tempo?

Costumo dizer que olho para esses artistas um bocadinho como em miúdo olhava para o Batatoon, no sentido de ser algo simbólico e influente. O meu pai mostrava-me muitas coisas e levava-me a muitos concertos. Mas eu não tinha grande curiosidade em procurar, em ouvir música. E lembro-me com 9, 10, 11 anos ouvia aquelas coisas populares, tipo Rihanna e Pussycat Dolls, que era o meu guilty pleasure.  Há uns tempos lembrei-me e achei extremamente estranho eu ter gostado de Pussycat Dolls. Começo a ouvir música mais a sério com 13 anos, com mais curiosidade por aquilo que o meu pai me mostrava: Deep Purple, Black Sabbath, Arctic Monkeys. São bandas um pouco de transição de um estado de quem não se interessa muito por música para uma situação em que se interessem mais. Em 2015 faço uma descoberta musical muito importante para mim e para Querubim. Vou no carro, numa das muitas viagens de carro que faço com o meu pai, e ele coloca o álbum St. Catherine, de Ducktails. Eu ouço o álbum e acho graça, mas não ficou comigo ao ponto de eu depois ir procurar. Ducktails é um artista a solo, mas o nome quase que designa uma banda porque ao vivo e tudo o que se ouve é no formato de banda, apesar de tudo ser feito pelo Matt Mondanile. Alguns meses depois, curiosamente, uma das canções do álbum veio-me à cabeça e fica lá presa. E eu não me conseguia recordar do nome do artista, não me conseguia recordar do nome da canção nem do nome do álbum e estava extremamente frustrado. O meu pai também não me conseguiu ajudar, tal foi fraca a minha descrição. Entretanto, consegui encontrar uma das canções e comecei a explorar mais esse artista. Seduziu-me muito, pela sonoridade, as guitarras melódicas, sintetizadores etéreos, uma coisa muito onírica, quase um sonho. A partir daí, comecei a ouvir mais pop, nomeadamente uma banda chama Real Estate, e comecei a explorar assim mais o pop e o indie pop. São coisas que influenciam muito o som do meu projeto.

Disseste que o pop e o indie pop são os géneros que mais definem o projeto. Pretendes continuar com esse estilo musical no futuro?

Dá-me muito gosto fazer as canções nos formatos em que as faço. Gosto muito da simplicidade, coisas harmoniosas, simples, bonitas, é isso que eu procuro. Ao mesmo tempo, dou por mim já a compor outras coisas, noutros estilos. Quando lançar um próximo álbum, provavelmente vai ter coisas num estilo mais punk, embora eu ache que vá continuar a produzir o estilo indie pop, porque é isso que me agrada muito, procurar harmonias simples e bonitas. Eu percebi que gosto da simplicidade.

Estavas a falar bastante do teu pai. Ele é uma figura importante na emergência do teu projeto e do teu gosto pela música? Como é que achas que ele teve influência?

É uma figura muito importante, sem dúvida. A minha musicalidade vem muito do facto de ter sido exposto a toda a música a que fui exposto por causa dele. Desde miúdo que ele me levou a concertos. O primeiro concerto a que eu fui tinha dois anos. Fui às cavalitas dele ver o Iggy Pop. Outra ocasião de que me recordo é de estar em 2009 no NOS Alive, a ver os Faith No More, num concerto que penso que foi à meia noite. Eu estava cansadíssimo, com vontade de dormir. Foi isso mesmo que fiz, deitei-me aos pés das pessoas e dormi, ali mesmo. Agora, isto se calhar dá um bocadinho a ideia de que o meu pai me arrastou para concertos, não é? Isso nunca aconteceu. Ele convidava-me, perguntava-me se eu queria ir, gostava da minha companhia e eu gostava da dele. Eu aderia porque sempre gostei de o acompanhar. Também cheguei a ir aos três dias de alguns festivais. No primeiro dia ficava cansadíssimo ali pela uma da manhã e pensava que não queria voltar no próximo dia. Mas no dia a seguir, quando surgia a oportunidade de ir, voltava e a experiência repetia-se.

Como é que ele hoje vê o teu projeto?

Tenho impressão de que ele se orgulha. Primeiro porque sou filho dele, não é? E sei que ele vê qualidade no que eu faço. Ele já me confessou que gostava de ter sido músico, só que não teve a capacidade financeira para o fazer. Mas ele proporcionou-me isso. Como estou a fazer algo que ele gostaria de ter feito, se calhar, para um pai, isso é fonte de grande satisfação. Veres que uma coisa que tu não conseguiste cumprir, alguém que veio literalmente da tua carne a fazer isso. Há de ser muito gratificante. Imagino que seja.

Quando é que percebeste que querias ser músico?

Eu não sei se alguma vez percebi se queria ser músico, porque foi tudo uma coisa muito gradual. Diria que o primeiro passo foi receber uma guitarra no Natal de 2010. Eu tive aulas de guitarra durante 3 anos, mas não me permitiu aprender grande coisa porque as aulas eram direcionadas para tocarmos um recital, para a família ver. Não era tanto orientado para os miúdos adquirirem competências a longo prazo. Portanto, aprendi o básico: algumas escalas, alguns acordes. E entretanto, depois de três anos lá, a minha mãe esqueceu-se de me inscrever e eu também não a lembrei. Assim, as aulas de guitarra terminaram. Sempre me seduziu muito mais pegar na guitarra e procurar os meus sons. Quando encontrava uma sequência de acordes, ou uma sequência de sonoridades, que parecia nova. Isso dava-me uma grande satisfação. É uma fase muito prematura e é o despontar das minhas primeiras composições. Compor, que é criar algo a partir do nada.

Como foi o teu percurso, a partir daí?

A minha primeira composição foi em 2014, com 14 anos. Entretanto, no ano seguinte, pus na cabeça que queria começar a gravar essas coisas que já tinha guardadas no meu telemóvel,  mas não tinha forma de transformar isso numa canção, pôr isso num programa. Comecei a querer fazer isso e, então, reuni algum dinheiro extra que tinha, à volta de 200 euros, passei um dia inteiro a pesquisar como fazer um estúdio em casa. Dois dias depois dessa pesquisa, foi muito rápido, fui à FNAC e comprei um teclado que se liga por USB ao computador para utilizar os sons do programa de produção musical. Também comprei um áudio interface, que é um aparelho que permite ligar a guitarra ao computador e, de essa forma, gravar no programa do computador e depois produzir. A partir daí, foi sempre a evoluir e um processo muito apaixonante. Entre 2015 e 2017 só gravava coisas, mas não lanço nada. Estava a aprender e a tentar surpreender-me, à espera de conseguir chegar a um nível de produção e de qualidade de som, de gravação e de composição que me fizesse sentir orgulho em mostrar. Isso aconteceu com a primeira canção que lancei, a Epifania, que compus e lancei em janeiro de 2018. Lancei-a de forma muito tímida, com uma timidez que também sempre me caracterizou. Coloquei a canção disponível online, mas nem sequer disse a grande parte dos meus amigos. Entretanto, em 2019, já na faculdade, deixei a timidez de lado, disse a alguns amigos que faço canções, mostrei-lhes e gostaram muito. Percebi que tenho coisas com valor. É um momento importante, o momento em que eu começo a assumir as músicas. 2019 foi muito bom e muito importante, porque subo a palco pela primeira vez na final do concurso de NOVA Bandas, para o qual tive de preparar um concerto. Nunca tinha subido a palco.

Foi a tua estreia em palco. Que impacto é que teve em ti?

Senti uma adrenalina enorme. Estava muito nervoso. Fui com a mentalidade de que tinha de dar o meu melhor. Em palco estava recatado, estava tímido, mas foi importante. Esse concerto foi importante para agora ter uma desenvoltura maior. A cada concerto que vou dando, apesar de ainda não ter tido oportunidade de dar muitos, o seguinte é abismalmente mais fácil de dar.

Que memórias tens desse dia?

Lembro-me de que aquilo foi no Popular Alvalade, café em Alvalade e um espaço muito íntimo. Estava lá a minha família e os meus amigos mais próximos. Foi como se uma colisão de duas dimensões da minha vida: os meus amigos de Carnaxide, os meus amigos da faculdade e a minha família, todos juntos num sítio só. Foi uma coisa engraçada. E soube muito bem. É um dia que recordo com carinho.

Ainda sobre a timidez que sentiste na primeira vez que subiste ao palco, falaste como a cada concerto ficaste mais desenvolto. Qual foi o último concerto que deste?

O último concerto foi um concerto em setembro, no casino Estoril, tocaram projetos como Bonança, do Ricardo Barroso; Querubim; e Metamito, o projeto do António Miguel, entre outros. Foi um espetáculo adaptado ao modelo da pandemia. As pessoas estavam sentadas, com máscaras, e um lugar de distância entre toda a gente. Foi ótimo poder tocar numa altura em que é muito difícil arranjar concertos. Embora me desmotive o facto de as pessoas estarem sentadas. Por outro lado, o concerto que demos no bar Tokyo, no Cais do Sodré, em dezembro de 2019, foi de euforia muito maior, foi um dia de sonho. Para além disso, os  meus melhores amigos estavam todos reunidos numa plateia para ver as minhas canções. Esse foi o meu concerto favorito até hoje. Foi mesmo muito bom. Gostava muito de replicar e sentir isso tudo outra vez.

Qual foi o momento que mais te marcou?

O primeiro deles há de ter sido recebido o e-mail dos FNAC Novos Talentos. Em 2019 consegui uma menção honrosa e isso é uma prova de reconhecimento enorme. De entre os selecionados, há um grande vencedor e há duas menções honrosas. Tendo entrado no disco e recebido uma menção honrosa, é uma prova de reconhecimento enorme. E quando recebi esse e-mail, eu fiquei em euforia, pura euforia. Estava em casa e eram onze e meia da noite. Não me contive, fui a correr até à sala para contar aos meus pais,  Todo contente, como um miúdo no natal.

O teu álbum de estreia chama-se Saber Estar. O que é que é, para ti, saber estar?

Saber estar também é o nome da última canção, que estava guardada desde 2019, mas sempre debaixo de olho, por achá-la uma canção muito bonita. Assim sendo, acabei por associar o nome dessa canção ao álbum. Se olhar para a conotação mais poética do álbum, diria que o título vem de o álbum ter sido construído quando eu estou a crescer, com canções feitas nos meus 17,18, 19 anos e, portanto, num período em que sou verde e em que estou, no fundo, a aprender a saber estar.

Referiste há pouco o concurso Inéditos Vodafone. Foste o mais recente vencedor, com a  música Jardim da Luz. É uma música que destacas no álbum, em termos de produção em relação às outras?

É porque está mais baixinha, não é? [risos]. Acho que é das canções mais complexas a nível de composição que fiz. Com as dinâmicas que tem, as paragens de bateria, a sobreposição de vozes. Tem muitas subtilezas. É uma música de que me orgulho muito. Penso que seja das melhores canções que fiz. A nível de produção, essa música tem uma particularidade dentro do álbum. Foi misturada por mim, tal como todas as outras, mas foi masterizada por um amigo meu, o Francis. Antes de entregar a canção à Vodafone convinha poli-la, então entreguei-a a quem percebe um pouco melhor.

Além do Jardim da Luz, dentro do álbum em si, o que é que tu destacas? As canções que, para ti, têm um lugar especial. 

Por exemplo, uma canção de que gosto muito é a Reverie, a primeira canção. Acho que é uma bela abertura para o álbum. O instrumental foi feito em janeiro de 2018 e a canção ficou ali a repousar, mas sempre lembrando-me dela, por achá-la bonita. Entretanto, este ano, peguei naquele instrumental e compus a letra. Acho que é um processo interessante. É quase uma colaboração minha com o “eu” de há 3 anos.

Como é que a sequência do álbum foi pensada?

A primeira metade do álbum tem uma sonoridade mais leve. Depois há um interlúdio que separa as duas partes. A segunda parte do álbum é um bocadinho mais intensa, com mais intensidade e distorção nas guitarras. Por fim, termina um bocado na onda mais melancólica, semelhante ao começo.

Há quem associe a sonoridade do álbum ao verão. Foi uma escolha pensada por vocês?

Acaba por ser resultado do tipo de som e influências que temos: bandas como Real Estate, Duck Tales, Dear Hunter. Na maioria, são bandas norte-americanas cujas canções quase transpiram calor. Faz lembrar aquela vida de  adolescente dos subúrbios, muito estereotípica, com o passeio de bicicleta e o pôr-do-sol com os amigos e assim. Vejo muito essa associação, nomeadamente, nos comentários que as pessoas fazem as essas bandas. E, havendo uma influência dessa sonoridade no meu projeto, é compreensível, sim que haja uma associação ao verão.

Como é que é o teu processo de produção?

Quando componho, às vezes entro numa espécie de transe de produção e é um pouco imprevisível. Há dias em que me apetece mais, outros dias em que me apetece menos. Ouço muito o que já fiz para ver se consigo encaixar algo ou ver se surge alguma ideia. Passo muito mais tempo a fazer isso do que propriamente a compor e isso é uma mudança no meu ritmo, em relação a como eu trabalhava antes. Antes produzia com muito mais vigor, praticamente dia-sim-dia-não. Agora funciono muito mais por intervalos. Posso ficar duas semanas sem compor, mas há um dia em que não faço outra coisa e guardo para depois ouvir e trabalhar de novo. No que toca ao processo de compor, começo sempre pelo instrumental, com uma linha de baixo ou com uma progressão de acordes de guitarra. Se há algo que eu ache interessante, gravo, coloco em loop, meto aquilo a dar, pego na guitarra, componho por cima, procuro uma sequência de acordes, ou vice-versa… A bateria é a única coisa que se ouve que não sou eu a fazer porque a é programada no computador. Por fim, surge a letra, que vem quando eu já tenho tudo o resto pronto. É um exercício de quase tipo um derrame de consciência, do qual não sei o que vai sair, às vezes nem saem palavras, apenas sons indistintos, uma coisa abstrata até surgir algo que me sacia. . Tendo para vários temas como amor e questões de saúde mental.

Porquê o amor e a saúde mental? É isso que mais te motiva?

O amor é uma coisa universal. É muito central, porque mexe com questões de identidade. O amor é uma coisa muito complexa, exige que tu te posiciones, tens que descobrir quem é tu és e como é que te queres comportar sem tu próprio saberes isso. Estás ali, quase à deriva. O amor pode ser muito isso. Já tive a minha dose desse tipo de situações e coisas marcantes. Essas coisas, essas alegrias, esses sofrimentos, são coisas que marcam muito as pessoas e que também me marcam muito a mim. Acabam por definir a identidade de uma pessoa, a ideia que uma pessoa tem de si. O amor e a saúde mental são coisas muito centrais, muito abrangentes. Eu gosto de explorar a estética dessas coisas, nas minhas letras também.

Sentiste que houve dificuldades na criação e na produção do álbum?

Entre idealizar um álbum idealizado e vê-lo concretizado vai uma grande distância. Uma pessoa tem o álbum idealizado na sua cabeça e espera que as canções estejam polidas, bonitas, preparadas a ser ouvidas. Para que isso aconteça, o trabalho não é muito fácil. Questões acerca da qualidade de produção, dos volumes, do melhor formato para exportar sempre me causaram um bocadinho de ansiedade. Não tenho um entendimento muito profundo, mas com os recursos que fui ganhando ao longo dos anos, consigo fazer uma produção bonita. As canções às vezes têm um bocadinho de grão, como no final da Dezembro.  Não sei porque é que lá está e também não consegui tirar, mas faz parte da graça da canção. E, se calhar, dá um bocadinho também da pureza do álbum. No fundo, tenho orgulho no que consigo fazer.

O que é que esperas levar dessa pureza, digamos, para os próximos álbuns?

Eu até acho que vou olhar para este álbum com uma nostalgia enorme daqui a uns anos, porque este terá sempre uma pureza derivada das circunstâncias, da idade que eu tenho, de ter sido feito no meu quarto. Disponibilizei horas e horas de trabalho, que não é trabalho, porque é gosto. É muito especial, porque é a minha vida que ali está. As canções, para mim, também têm um significado. O Jardim da Luz é uma canção feita a partir de uma memória, de um episódio da minha vida. E eu sinto que consegui quase cristalizar essa memória na música, mas só eu é que o sei. Para mim, escrever é provar a mim próprio que a experiência humana é partilhável. Ou seja, que é possível eu, através de uma coisa que estou a criar, fazer uma pessoa aproximar-se da minha visão do mundo.

Entrevista realizada em parceria com Catarina Carreira.

Fotos: Henrique Cerqueira

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