Carlos do Carmo
Fotografia: Pedro Nunes

Dos eternos colegas de palco às maiores figuras do Estado. As homenagens a Carlos do Carmo

Marcelo Rebelo de Sousa, Ana Moura e Sérgio Godinho fizeram questão de analtecer a histórica carreira do fadista

Era a “maior força renovadora do fado depois de Amália”, diz o musicólogo Rui Vieira Nery em reação à morte de Carlos do Carmo no primeiro dia de 2021, aos 81 anos. Um dos expoentes máximos do Fado, Carlos Manuel de Ascensão do Carmo de Almeida, filho de mãe fadista e pai livreiro, fã incondicional de Frank Sinatra e vencedor de um Grammy Latino, deixa uma marca irrepetível na Cultura nacional.

“Ele sabia que o povo o amava”, garantiu Marcelo Rebelo de Sousa em declarações à TVI24, lembrando que Carlos do Carmo foi uma voz essencial “no período de construção da democracia e de resistência à ditadura”. O Presidente da República destacou ainda que o fadista sempre se identificou com “os mais sacrificados e não com os poderosos”, não fosse “um homem de esquerda que chegava a todos, da esquerda à direita“.

Na próxima segunda-feira, dia 4 de janeiro, o país irá acordar num Dia de Luto Nacional pela morte do artista. Foi esta sexta (1) decretado pelo Governo, que propôs ao Presidente da República a atribuição da Ordem da Liberdade a título póstumo. A homenagem é evocada “pelo determinante papel que Carlos do Carmo teve na renovação do fado, atribuição que, de resto, já estava prevista”, assinala o executivo. Em 2016, o fadista recebeu a condecoração de Grande-Oficial da Ordem do Mérito.

“Meu mestre”. As reações das vozes do Fado

Cantor multifacetado, ou não tivesse por várias vezes admitido ter-se inspirado na célebre canção popular e na presença majestosa de Sinatra em palco, Carlos do Carmo encontrou no fado um caminho de repetidos sucessos. E foi precisamente do mundo do fado que não tardaram a chegar inúmeras homenagens ao eterno vocalista.

“Meu Mestre, como sempre chamei e vou chamar”, escreveu Mariza, que agradeceu ao fadista e fez questão de enviar um “abraço sincero” aos seus familiares. “Que notícia tão triste para o mundo e para mim” disse, por sua vez, Carminho. A fadista afirma que aquilo que Carlos do Carmo “deixa ao país é de valor indiscritível”, fazendo questão de relembrar que a aprendizagem que teve do cantor “ditou muitas das minhas decisões no fado e na vida”.

À SIC Notícias, Camané destacou que o fadista “esteve sempre atento a novas pessoas do fado e a apoiá-las”, ao mesmo tempo que lamentou a perda de “um artista eterno e de um grande amigo”. Já Ricardo Ribeiro referiu que Carlos do Carmo “muito pouco precisou de menagers”, uma vez que teve uma “capacidade fantástica de gerir a sua carreira”. “Sabia muito bem os passos que dava”, concluiu.

As publicações nas redes sociais, como forma de homenagem, despedida e reconhecimento multiplicaram-se por nomes como Gisela João, Aldina Duarte e Ana Moura, que admitiu que esta foi “uma notícia tão triste ao começarmos o ano”. Marco Rodrigues perdeu “um dos Homens que me fez apaixonar pelo Fado”.

“O Rei morreu, viva o Rei”, escreveu Hérman José

Para lá do percurso musical associado ao género musical mais representativo da única saudade portuguesa, Carlos do Carmo é em si um nome maior da Música e da Cultura nacionais, apreciado pelos vários quadrantes das artes. A Ministra da Cultura, Graça Fonseca, deixou a sua homenagem a “uma das maiores referências da interpretação do fado, e que mostrou sempre uma especial preocupação com a divulgação desta forma de música”.

“Recuso-me a evocar o Carlos com tristeza”, escreveu Hérman José nas suas redes sociais, garantindo também que o seu “desgosto é largamente mitigado pela memória de um amigo luminoso, presente, o mesmo que sempre me abraçou, apoiou e defendeu”. Evoca-o como alguém “grato, culto, lutador, inquieto, encantador e sobretudo maior do que a própria vida”. “O Rei morreu, viva o Rei”, termina.

Por sua vez, Sérgio Godinho recorreu às redes sociais para escrever que “a morte e a parede negra da ausência das pessoas que nos são próximas, que admiramos, é sempre uma coisa triste, muito triste”. O cantor recordou a canção que escreveu para Carlos do Carmo, intitulada ‘Velho Cantor’, que foi interpretada pelo fadista “como só ele sabe”. “Obrigado por isso e por tudo o resto”, continuou Sérgio Godinho, para deixar um “até sempre, Carlos”.

David Fonseca assegurou “o país inteiro morava na tua voz”, Ana Bacalhau afirmou que “a sua arte, o seu canto serão sempre uma influência maior na minha vida e na vida de tantos outros”, Rita Redshoes enalteceu um “timbre inconfundível e sentido de humor apurado” e Nuno Markl deseja-lhe uma “boa viagem”.

O reconhecimento das mais altas figuras do Estado

Além do Presidente da República, também o Presidente da Assembleia da República e o chefe do Governo deixaram as suas homenagens a Carlos do Carmo. Para Ferro Rodrigues, o fadista “é, inquestionavelmente, um nome ímpar do fado e figura incontornável do meio artístico e da canção portuguesa, numa carreira de décadas que perdurará na memória de todos nós”. A segunda maior figura do Estado destaca ainda o seu papel importante “na luta pela Liberdade e na construção do país de Abril, em que tanto se empenhou”.

Por sua vez, António Costa frisou que “Carlos do Carmo não era só um notável fadista, que o público, a crítica e um Grammy consagraram”. O Primeiro-Ministro fez uso do tema ‘Fado da Saudade’: “Mas com um nó de saudade, na garganta/ Escuto um fado que se entoa, à despedida” de um grande amigo”. Em 2015, Carlos do Carmo afirmou não se definir como um simpatizante do Partido Socialista, mas sim um apoiante de António Costa, após participar num almoço de campanha do PS para as eleições legislativas. 

Numa nota divulgada pelo gabinete de imprensa, o Partido Comunista (PCP) lembrou “Carlos do Carmo, cidadão com um percurso cívico e democrático, com uma carreira artística de mais de 50 anos reconhecida no País e no mundo”. Os comunistas evocam ainda o artista como “intérprete de autores como Ary dos Santos” e “participante entre muitos outros na afirmação da dimensão cultural da Festa do «Avante!»”.

Catarina Martins publicou que “em manhãs como esta, na casa dos meus avós, no gira-discos estaria ‘Um Homem na Cidade'”. “Aquela extraordinária voz que canta como quem simplesmente conversa”, relembrou a coordenadora do Bloco de Esquerda. O presidente do PSD, Rui Rio, recordou o fadista como “um grande vulto da música portuguesa”, cuja “obra não morreu, nem nunca morrerá”. Francisco Rodrigues dos Santos deu os seus “sentimentos de pesar”, através do Twitter do CDS, aos familiares do fadista com “uma carreira de décadas que perdurará na memória de todos nós”.

Para além de Marcelo Rebelo de Sousa, a perda de Carlos do Carmo foi sentida pelos candidatos à Presidência da República Ana Gomes, Marisa Matias e João Ferreira, em clara concordância com as palavras do atual inquilino do Palácio de Belém, que reforçava a dedicação do cantor à esquerda política, mas que mesmo assim conseguia chegar aos vários quadrantes do regime.

Carlos do Carmo, com 81 anos, faleceu esta sexta-feira (1 de janeiro) na sequência de uma intervenção cirúrgica para tratar um aneurisma na aorta abdominal. Premiado internacionalmente e consagrado pelo público português, o fadista era uma das vozes mais emblemáticas e reconhecidas deste género musical. Despediu-se dos palcos em 2019, no Coliseu de Lisboa.

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